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Língua Portuguesa Futuros Diplomatas: ponderem sobre a vírgula!

29/03/2008 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

- A Questão sobre Pontuação na Prova do Instituto Rio Branco

  

No dia 9 de março deste ano, realizou-se a primeira bateria de provas para a seleção dos futuros diplomatas do Instituto Rio Branco, localizado em Brasília.

 

É sabido que os candidatos a tão nobre função devem dominar a língua portuguesa, além de outras disciplinas, para obterem êxito no rigoroso certame a que se submetem, e, finalmente, ingressarem na prestigiosa Instituição.

 

Alguns concursandos me pediram para comentar uma questão sobre "pontuação" - precisamente, sobre a "vírgula" -, com a qual depararam, na prova de Língua Portuguesa do mencionado concurso. Vamos ao teste:

 

 

"Cada uma das opções subseqüentes reproduz períodos do texto, aos quais se acrescentaram uma ou mais vírgulas, que aparecem destacadas, seguindo-se uma justificativa. Assinale a opção em que é IMPROCEDENTE a justificativa apresentada para o acréscimo da(s) vírgula(s).

 

A) O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua (,) por causa da namorada comum, que devia chamar-se Marlene.

Justificativa: a vírgula separa adjuntos adverbiais que expressam noções diferentes.

 

B) O duelo durou vinte minutos (,) e cinqüenta pessoas assistiram.

Justificativa: a vírgula separa orações coordenadas que, unidas pela conjunção "e", têm sujeitos diferentes.

 

C) A dificuldade total foi reconstituir o delito, porque (,) tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz (,) as espontâneas e numerosas testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios.

Justificativa: as vírgulas isolam o adjunto adverbial antecipado.

 

D) Como começara e como findara a luta (,) foi impossível apurar.

Justificativa: a vírgula isola oração subordinada adverbial antecipada.

 

E) Diante da premência da fome, frio e desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica (,) improvisada pela urgência vital.

Justificativa: a vírgula indica elipse do verbo.

 

 

O gabarito apontou a alternativa D como a que deveria ter sido assinalada. Concordo, sem titubeio. Todavia, não me furto de elogiar o teste, que requereu amplo conhecimento do uso da vírgula e, sobretudo, de análise sintática.

 

Como se verá abaixo, o abrangente teste exigiu o conhecimento de polissemia conjuntiva - tema ao qual sempre me atenho, nas aulas de português, em razão da insistente cobrança em provas de concursos e vestibulares. Procurei, à guisa de ilustração, citar testes neste artigo, com fartos exemplos, como forma de demonstrar a iterativa solicitação da temática.

 

De início, comentarei as alternativas que trouxeram justificativas aceitáveis (letras A, B, C, e E). Após, deter-me-ei à análise da alternativa D.

 

 

1°. Alternativa A: O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua (,) por causa da namorada comum, que devia chamar-se Marlene.

Justificativa Ofertada: a vírgula separa adjuntos adverbiais que expressam noções diferentes.

 

Comentário: no período, a vírgula separa com adequação os adjuntos adverbiais de lugar (numa esquina de minha rua) e de causa (por causa da namorada comum). Note que se trata de circunstâncias que modificam o verbo "permutar" (bofetadas), trazendo-lhe as idéias de local e de motivo. A justificativa é válida.

 

 

 

2°. Alternativa B: O duelo durou vinte minutos (,) e cinqüenta pessoas assistiram.

Justificativa Ofertada: a vírgula separa orações coordenadas que, unidas pela conjunção "e", têm sujeitos diferentes.

 

Comentário: o período é composto por duas orações, em razão da presença de dois verbos - durar e assistir. A partícula "e" une tais orações, formadas por distintos núcleos dos sujeitos (duelo e pessoas). Neste caso - orações distintas, com sujeitos distintos, unidas pela partícula "e" -, a vírgula é obrigatória. A justificativa é válida.

 

 

 

3°. Alternativa C: A dificuldade total foi reconstituir o delito, porque (,) tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz (,) as espontâneas e numerosas testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios.

Justificativa Ofertada: as vírgulas isolam o adjunto adverbial antecipado.

 

Comentário: a vírgula veio separar o anteposto adjunto adverbial (tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz). Note que se trata de circunstância que modifica o verbo "prestar" (depoimentos), trazendo-lhe a idéia modificativa própria do advérbio. A justificativa é válida.

 

 

 

4°. Alternativa E: Diante da premência da fome, frio e desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica (,) improvisada pela urgência vital.

Justificativa Ofertada: a vírgula indica elipse do verbo.

Comentário: a elipse indica a supressão de um termo na oração, em cujo local será possível a inserção da vírgula. Na verdade, quando se consegue identificar o elemento suprimido - o que aconteceu no teste -, defende-se a ocorrência do chamado zeugma, ou seja, uma espécie de elipse. No caso, a frase preenchida ficará: "(...) o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica FOI improvisada pela urgência vital." A justificativa é válida.

 

Passemos, agora, à análise da importante alternativa D:

 

4°. Alternativa D: Como começara e como findara a luta (,) foi impossível apurar.

Justificativa Ofertada: a vírgula isola oração subordinada adverbial antecipada.

 

Comentário: A justificativa é INVÁLIDA.

 

 

A justificativa ofertada é, de fato, inválida. Para a exata compreensão desse posicionamento, recomenda-se uma análise detida da conjunção "como", acompanhada, se possível, de exaustiva exemplificação, com o fito de tornar didático o intrincado tema. É o que passo a fazer.

 

O estudo dos conectivos nas orações não deve se assentar em um automatismo cego. Muitas vezes, a conjunção parece indicar um dado valor semântico, mas, na verdade, representa sentido diverso, dependendo do contexto relacional. O fenômeno é conhecido por "polissemia conjuntiva".

A conjunção "como" estabelece diferentes relações de sentido entre a oração principal e, por exemplo, a oração subordinada adverbial. Neste plano fronteiriço, são três os principais valores semânticos para o conectivo "como": de causa, de conformidade e de comparação. Note:


1. Relação de CAUSA: o conectivo assume o sentido causal, equivalendo à conjunção "porque" ou às locuções conjuntivas "já que" e "uma vez que". Nesse caso, o termo ocupa a função sintática de conjunção subordinativa adverbial causal, aparecendo, exclusivamente, no início do período. Observe os fartos exemplos:

 

a) Como havia chovido na véspera, os caminhões não conseguiram chegar à fazenda.


b) Como estava chovendo, evitei sair de casa.


c) Como estava apressada, a cliente esqueceu o cartão de crédito.


d) Como não tenho dinheiro, não poderei participar da viagem.

 

e) Como estava doente, não foi à aula.


f) Como estamos em má situação, devemos investir o máximo neste projeto.


g) Como estava esgotado, encostou-se a uma parede da velha casa.


h) Como o professor exigiu, ele fez os trabalhos.


i) "Como continuamos a ler pelos anos afora o maior nome das nossas letras, Machado de Assis é uma boa referência. (...)"[1]

 

j) Como praticamente não existem estímulos para procurar essa carreira, o cenário poderá ficar crítico nos próximos dez anos.[2]

 

l) Como o sol da tarde lhe queimava o rosto, fechou rapidamente a janela.[3]

 

m) "(...) Como o Estado tem o privilégio de impor ônus ao particular, e em prazos determinados, tanto mais deve agir com obediência a normas permanentes e conhecidas." [4]

 

2. Relação de CONFORMIDADE: o conectivo assume o sentido conformativo, equivalendo às expressões "de acordo com" ou "conforme". Nesse caso, o termo ocupa a função sintática de conjunção subordinativa adverbial conformativa. Note os variados exemplos:


a)
Tudo aconteceu como eles haviam previsto.

b) Faço o trabalho como o regulamento prescreve.

c) Como dizia o poeta, "a vida é a arte do encontro".

d) Como
ia dizendo, não me leve a mal!

e) Como
o jornal noticiou, o teatro ficou lotado.

f)
O funcionário procedeu como determina o memorando.

g) Como
é do conhecimento geral, tomaremos as medidas hoje mesmo.

h) Como
disse anteriormente, você está equivocado.

i) Como se verá, nosso trabalho de tantos anos mostrou-se inteiramente inútil.[5]

 

3. Relação de COMPARAÇÃO: o conectivo assume o sentido comparativo, equivalendo às expressões "do mesmo modo que", "tal qual", "qual", "assim como" ou "igual a". Traduz-se em tendência estilística conhecida por símile. Nesse caso, o termo ocupa a função sintática de conjunção subordinativa adverbial comparativa. Veja os exaustivos exemplos:

 

a) Ele age como o pai (agiria).

b) Maria falou como o seu tio (falou).

c)
O cão acomodou-se no sofá, como um caracol.

d)
Este menino é tão inteligente como o irmão.

e) Como todos os seres vivos
, nós nascemos, atingimos a maturidade, procriamos e morremos.

f) "No pátio o silêncio dormia ao sol como um lagarto." (Raul Pompéia, em "O Ateneu")

g) "As condecorações gritavam-lhe no peito como uma couraça de gritos." (Raul Pompéia, em "O Ateneu")

h) "E cai como uma lágrima de amor." (Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes)

i) "Eu faço versos como quem chora / De desalento (...) de desencanto (...)" (M. Bandeira)

j) "(...) Como os sacerdotes de antigamente, economistas têm a missão de explicar o inexplicável - como o dinheiro é tudo e nada ao mesmo tempo, por que falta dinheiro se dinheiro é papel impresso, ou se a quantidade de santinhos muda o tamanho do milagre.
"[6]
 

l) "Como a tão malbaratada palavra "ética", muito vocábulo perde seu sentido quando envereda por trilhas falsas. (...)" [7]

 

m) "O fim do bonde como transporte coletivo não correspondeu ao fim do signo,(...)." [8]

 

n) "... ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas..." [9]

 

 

o) O governo atual é tão bom ou ruim como os anteriores.[10]

 

p) "Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco, / Já solta o bogari mais doce aroma! / Como prece de amor, como estas preces, / No silêncio da noite o bosque exala." (Gonçalves Dias)[11]

 

q) "Se eu usasse lentes de contato, eu poderia ter um olho vermelho-sangue e outro amarelo-canário, como um inseto." [12]

 

r) "A reação dos moradores foi tão chocante como as brutais mutilações." [13]

 

 

Feitas as observações acima, impende destacar, ademais, que a conjunção "como" pode servir para introduzir certos tipos de orações subordinadas substantivas. Note os importantes exemplos abaixo:


1. Na Oração Subordinada Substantiva Subjetiva:

a) Ignora-se como chegou vivo à casa da mãe. (= Ignora-se isso, o sujeito)

b) Estipula-se como será o cálculo. (= Estipula-se isso, o sujeito)

c) Calcula-se como chegaremos ao topo da montanha. (= Calcula-se isso, o sujeito)

 

2. Na Oração Subordinada Substantiva Objetiva Direta:

 

a) Ignoramos como conseguiram se salvar. (= Ignoramos algo, o objeto direto)

 

b) Ninguém sabia direito como ele iria embora. (= Sabia direito algo, o objeto direto)

 

c) Eles confessaram-lhe como haviam conseguido entrar. (= Confessaram-lhe algo, o objeto direto)


d) Perguntei-lhe como faria para saldar aquela dívida.[14] (= Perguntei-lhe algo, o objeto direto)



e) Não sabemos como adquiriu o bem. (= Não sabemos algo, o objeto direto)


f) Os jornais explicaram como os ladrões fugiram. (= Explicaram algo, o objeto direto)

 

Assim, após esta minuciosa análise, a que julguei oportuno proceder, na resolução da questão, torna-se evidente que a alternativa D apresenta justificativa inválida, quanto ao uso da vírgula.

A vírgula ocorre em tal assertiva para isolar, sim, uma oração subordinada substantiva objetiva direta ("Como começara e como findara a luta") - no caso, anteposta -, e não para isolar oração adverbial.

Para os concursandos, acredito que tenha ficado uma lição: a força da vírgula, bem justificada, é importante desafio àqueles que irão, sem o uso da força, diante de possíveis antagônicas justificativas, lidar com a arte da ponderação - os diplomatas. Boa sorte a todos!

Prof. Eduardo Sabbag

 

 



[1] FAUSTO, Boris. Folha de S. Paulo, Caderno Mais, in "A Dança das Palavras", em 15-04-2007: Item de Vestibular da ESPM, realizado em julho de 2007.

 

[2] Item do Concurso Público para cargo do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), realizado em 2006.

 

[3] Item do Concurso Público para cargo do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), realizado em 2006.

 

[4] MARINHO, Josaphat. Surpresas Tributárias, com adaptações: Item do Concurso Público para Auditor-Fiscal da Receita Federal, realizado pela ESAF, em 06-04-2002.

 

[5] Item do Concurso Público para cargo do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), realizado em 2006.

 

[6] SAYAD, João. Cidade de Deus. Classe Revista de Bordo da TAM, nº 95, com adaptações): Item do Concurso Público para Auditor-Fiscal do Trabalho, realizado pela ESAF, em 13-12-2003.

 

[7] LUFT, Lya. Veja, 30-11-2005: Item do Concurso Público para Escrevente Técnico Judiciário - TJ/SP, realizado pela VUNESP, em 23-04-2006.

 

[8] FAUSTO, Boris. Folha de S. Paulo, Caderno Mais, in "A Dança das Palavras", em 15-04-2007: Item do Concurso Público para Escrevente Técnico Judiciário - TJ/SP, realizado pela VUNESP, em 23-04-2006.

 

[9] Item de Vestibular da PUC/SP, realizado em 2003.

 

[10] Item do Concurso Público para cargo do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), realizado em 2006.

 

[11] Item do Vestibular do Mackenzie, realizado em dezembro de 2004.

 

[12] Item do Vestibular da UFAM, realizado em 10-12-2006.

 

[13] Item do Vestibular da PUC/SP, realizado em julho de 2006.

 

[14] Item do Concurso Público para cargo do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), realizado em 2006.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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