Página Inicial   >   Colunas

FILOSOFIA Freud e a busca pela felicidade

03/08/2009 por Luciene Félix
Sigmund Freud afirma que o homem anseia pela felicidade e que esta advém da satisfação de prazeres. As coisas que nos fazem bem provêm da satisfação (de preferência repentina) de necessidades represadas em alto grau. Ganhar na mega-sena será diferente que para um endividado ou um milionário. O enfermo anseia por algo que uma pessoa saudável nem pensa.

Ser feliz é um impositivo do princípio do prazer que trazemos desde a origem e para o "pai" da psicanálise, isso não pode ser plenamente realizado. Mas nem por isso devemos [ou podemos] deixar de empreender esforços para isso.

Uma situação de júbilo, inicialmente intenso (como numa árdua conquista amorosa) pode até se prolongar, mas, após certo tempo, ela produz somente um sentimento de contentamento. O prazer proporcionado por tantos bens de consumo se esvai tão logo o adquirimos: "Somos feitos de modo à só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas". São diversos os meios para alcançarmos a felicidade, mas é ainda mais fácil experimentarmos a infelicidade.

Significativas fontes de sofrimento são: a) a decrepitude e certeza da mortalidade; b) ameaças do mundo externo, cuja destruição, seja fruto do poder da natureza ou da violência de nossos semelhantes nos assombram e, c) a tarefa de nos relacionarmos, no seio da família, em sociedade e no Estado.

Em relação às duas primeiras fontes de angústia, só nos resta submetermo-nos ao inevitável: "Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de adaptação e realização". Conviver pode ser complicado e nisso talvez consista a maior fonte de desgosto (artigo na CF, "Sartre - O inferno são os outros").

Não é de admirar que os homens tenham se acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade: "Na verdade, o próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto princípio de realidade". Um indivíduo pode pensar ser feliz, simplesmente porque sobreviveu ao pior.

Há resignados que, habituados à luta de evitar ainda mais sofrimentos, não priorizam obtenção do prazer. (Mal) disfarçadamente, se comprazem ao relatar um caso de pandemia, falência, da queda de um avião e proferem de cor a máxima: "antes pobre com saúde...".

Evita-se sofrimento mantendo distância das pessoas. Mas a felicidade passível de ser alcançada assim é apenas a da quietude. Freud a considera mais plausível: "tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência [entenda-se, trabalho], passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana". Eis a razão pela qual a civilização tanto dignifica o trabalho: estamos com todos, para o bem de todos.

Considerando que o sofrimento é sensação e ele só existe na medida em que o sentimos, o estudioso da psyché (alma) verifica como o uso de drogas pode constituir um "amortecedor de preocupações". É justamente por deter qualidades tão apreciáveis que o uso desmedido de psicotrópicos é perigoso e capaz de causar grandes danos à humanidade, pois desperdiçam de energia que poderia ser "empregada para o aperfeiçoamento do destino humano" (confira o vídeo em meu blog).

Eficazes no combate à contrariedade da satisfação dos instintos estão os "agentes psíquicos superiores, que se sujeitaram ao princípio da realidade". Dessa forma, o ego, através da sublimação, sujeita os desejos irrefreáveis, doma os instintos mais selvagens, a agressividade e a tendência à barbárie. Esses "agentes psíquicos superiores", ordenadores, são as leis, os direitos e deveres, o respeito à ordem e a consideração aos nossos semelhantes.

Trabalhar faz bem: "a alegria do artista em criar ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade especial". Para Freud: "Obtém-se o máximo [de felicidade] quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual", que considera "mais refinadas e mais altas".

Infelizmente, diferente da satisfação de instintivos mais grosseiros, essa salutar felicidade pela realização de um trabalho é acessível a poucos, pois "pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que, para qualquer fim prático, estão longe de ser comuns". São àqueles que não trabalham somente pela remuneração.

Mesmo um trabalho profundamente gratificante não garante proteção contra as vicissitudes inerentes à vida. Ao nos orientarmos para uma espécie de "vida interior", buscando alento em nossos processos psíquicos internos, intentamos nos tornar independentes, ao máximo possível, das pressões do mundo externo.

Outra forma de felicidade é a que nos proporciona o fruir das ilusões. Quando contemplamos a arte (música, literatura, cinema, teatro, shows, exposições), experimentamos uma "suave narcose" que nos afasta momentaneamente dos problemas, mas não é forte e constante o suficiente para nos fazer esquecer as preocupações reais.  

Ao não se aceitar a realidade, rompendo as relações, está o perigo de nos tornarmos loucos. Assim, rejeitamos a realidade, recriamo-la a nosso gosto, eliminando o insuportável.

Em algum grau e sob algum determinado aspecto de nossa vida, agimos como o paranóico que "corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade". A linha que separa a atitude de quem vê o mundo através de lentes cor-de-rosa da de um "e;louco"e; é tênue. O louco é "alguém que (na maioria das vezes) não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio". Talvez por isso, hoje em dia, com a adesão de muitos, inúmeros absurdos nem sejam mais considerados "coisas de louco".

Freud aponta a religião como loucura legitimada, pois compartilhada por inúmeros. Intenta-se obter certeza de felicidade e proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade. A religião impõe, igualmente para todos, como sendo o caminho certo e seguro como proteção para todo e qualquer sofrimento: "Sua técnica consiste em (...) deformar o quadro do mundo real de maneira delirante - maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. (...) por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual".

Quando um crente, acometido por uma desgraça se vê obrigado a creditar a causa de seu desespero a algum insondável "desígnio" de Deus, nada mais faz senão admitir que tudo o que lhe restou de consolo foi essa sua submissão ao imponderável. Se o ser humano estiver lucidamente cônscio de que é passível de se deparar com adversidades pode dispensar fundamentalismos.

Amar e ser amado conduz à felicidade. Mas, dentre os perigos do amor, está a vulnerabilidade à qual nos sujeitamos: perder o amado ou o sentimento de amor que esse nutre por nós pode acabar.

É ilusão imaginarmos que tenhamos tudo o que desejamos: "A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo". Descobrir de que modo podemos ser felizes é ponderar sobre quanto de satisfação real podemos esperar do mundo exterior, quanta força dispomos para alterar o mundo que nos cerca a fim de adaptá-lo aos nossos desejos adequando nossos desejos a ele.

Ainda mais relevante que as circunstâncias externas, será nossa constituição psíquica. O indivíduo predominante erótico, por exemplo, priorizará seus relacionamentos emocionais. Os narcisistas, solitariamente auto-suficientes, encontrarão mais satisfação em seus processos mentais internos. Não por acaso, quase sempre são muitíssimo bem sucedidos profissionalmente. Já o homem de ação, indômito, jamais abandonará o mundo externo, palco ideal para por em teste suas forças.

Assim como um negociante cauteloso não cometeria a insensatez de empregar todo seu capital somente num tipo de negócio, Freud nos alerta a não depositar nossa expectativa de felicidade e de satisfação numa única aspiração. Embora assegure que: "Não existe regra de ouro que se aplique a todos", alguns caminhos nos levam à felicidade. Acalentemos um amor, uma família, ocupemo-nos com prazer, alguns bons amigos e, para que não sejamos dilacerados, resignemo-nos ao inescrutável propósito maior, no caso de tudo falhar.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br