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Quando eu era Estudante de Direito Flávia Piovesan

29/07/2005 por Flavia Piovesan

Flávia Piovesan

 Era 1985. Tinha dezessete anos. Acabara de sair do colégio Santa Cruz carregando as dúvidas e as incertezas de meu destino profissional. Queria ser feliz. Queria assumir a coragem do risco.
Na maratona dos vestibulares, havia me inscrito para Medicina no vestibular da USP e da Santa Casa. Tinha imenso fascínio pela mente humana e imaginava que a psiquiatria poderia ser uma escolha acertada. Além disso, tinha profunda admiração por um tio-avô, João Beline Burza, hoje já falecido, à época psiquiatra, exilado político, escritor e amante da poesia. Agasalho em minha memória, as longas tardes que, durante a minha adolescência, com ele conversava, descobrindo mundos infinitos, autores e idéias.
Outra opção foi o Jornalismo, o que me levou à inscrição no vestibular da Cásper Libero. O vício pela leitura, a pulsante curiosidade pela vida e pela dinâmica dos sociais eram um convite a esta escolha.
Finalmente, a minha opção pelo Direito. Quais eram os motivos? De um lado, o meu grande interesse, desde o colegial, pela área de Humanas e, por outro, dentro de mim, o sonho pela transformação social, pela justiça, pelos direitos, de todos, em todos os lugares.
A estas incertezas somava-se ainda a minha paixão pelo ballet clássico e a minha dedicação, à época do vestibular, a um difícil exame que faria da Royal Academy of Dancing. As aulas de cursinho misturavam-se com as sapatilhas.
Como era ótima aluna no excelente colégio Santa Cruz, a expectativa familiar era elevada. A torcida era que fosse eu aprovada no vestibular de Medicina, para que pudesse dar seguimento à carreira também escolhida pelo meu pai, médico.
Qual não foi a decepção quando nem mesmo fui aprovada na primeira fase do vestibular da USP para medicina. Ao mesmo tempo, qual não foi a surpresa por ter sido aprovada, em primeiro lugar, no vestibular da PUC/SP para o curso de Direito...
Em 1986 iniciava, assim, o curso de Direito na PUC/SP, juntamente com o curso de Jornalismo da Cásper Libero. No ano seguinte, decidi dedicar-me exclusivamente ao Direito. Foi uma decisão iluminada pelo destino e pela vida.
Apaixonei-me pela PUC/SP: por sua vitalidade; por sua energia vibrante; por sua pluralidade; por sua informalidade; por sua abertura para o mundo e para a vida.
Em 1988, envolvida no movimento estudantil, assumia como presidente a gestão do Centro Acadêmico "22 de Agosto", com a vitória da chapa "Direito e Avesso". Os(as) companheiros(as) de chapa refletiam o sonho compartilhado pela transformação social; pela busca de justiça; por uma visão crítica do direito, capaz de romper o seu formalismo, acolhendo a dimensão dos valores e da realidade social. Hoje, 2005, quase vinte anos depois, prossigo com as mesmas buscas e com os mesmo sonhos.
Ao longo da Graduação, dediquei-me ao movimento estudantil e à pesquisa, estimulada por bolsas de iniciação científica na área de Direito Constitucional, abrindo-me à enriquecedora aventura da criação do espírito.
Duas professoras exerceram forte influência em minha formação acadêmica: Leda Pereira da Mota e Silvia Pimentel. Mulheres fortes e comprometidas com os mais preciosos valores da existência humana, cada qual, ao seu modo, marcou a minha história. A querida Leda, este ano falecida, despertou-me ao encantamento pelo Direito Constitucional. A ela sempre serei grata por tudo. A Silvia estimulou o meu encantamento para a área dos direitos humanos, especialmente dos direitos das mulheres. É um privilégio a nossa parceria em muitas lutas, na militância pela causa da dignidade humana.
Na PUC/SP percorri diversos caminhos. Fui monitora; assistente; mestranda; doutoranda; sendo, hoje, professora doutora da Graduação nas disciplinas de Direitos Humanos e Direito Constitucional e de Direitos Humanos no programa de Pós Graduação. Em 1995, na qualidade de visiting fellow do programa de Direitos Humanos da Harvard Law School, desenvolvi meu doutorado naquela instituição, retornando para estudos futuros em 2000 e 2002.
Além da vida acadêmica, mergulhei no ativismo voltado aos Direitos Humanos, passando a integrar a Comissão Justiça e Paz, o CLADEM - Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, o Conselho Nacional de Justiça e outras entidades e órgãos. Afinal, quem atua na área dos direitos humanos, deve entregar-se com "head, heart and hand". Isto é: a reflexão teórica, somada ao ativismo e ao compromisso com a causa.
Em 1991, inspirada pela grande admiração que tinha por juristas como José Afonso da Silva, Ada Pelegrini Grinover, Maria Sylvia Zanella Di Pietro, além de outros, todos Procuradores do Estado, após aprovada no concurso público (também em primeiro lugar, para a minha imensa surpresa), ingressava nos quadros da Procuradoria Geral do Estado. Na Procuradoria, instituição pela qual tenho tanto carinho, iniciei minha atuação profissional na área do Contencioso, lidando com as matérias de Direito Constitucional e Administrativo. De 1996 a 2001, tive a alegria de coordenar o Grupo de Trabalho de Direitos Humanos da Procuradoria, que tinha por objetivo a advocacia em direitos humanos e a educação em direitos humanos. Guardo muitas saudades deste período, que tanto marcou a minha trajetória profissional. Hoje, atuo em um setor que tem, dentre suas competências, a atribuição de propor ações civis públicas em nome do Estado, o que tem me permitido grande aprendizado.
Sou apaixonada pela vida; exagerada; extrema. Entrego-me aos desafios. Vivo com intensidade, na pulsão da entrega e da verdade. Busco, a cada dia, ter uma vida dignificada; celebrada; e vivida. No dizer de Ortega y Gasset, "viver é precisamente a necessidade inexorável de tomar decisões (...); de realizar o nosso programa vital, nosso personagem e nossa vocação". Acredito ser este o maior desafio da aventura humana: assumir a coragem e o risco de realizar o nosso programa vital, o nosso personagem e a nossa vocação.

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