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Cidadania Ética, corrupção e alterofagia

01/02/2018 por Luiz Flávio Gomes

 

Existem dois tipos de sociedades: as preponderantemente éticas (respeito ao outro) e as alterofágicas (destruição do outro). Na nossa formação histórica (formação coletiva) sempre predominou a segunda espécie. Alterofagia vem de “altero” (o outro, a outra, os outros, as outras coisas) e “fagia” (comer, devorar, destruir, dizimar, aniquilar, extinguir).

 

Pela violência, pela fraude, pelo clientelismo e pela corrupção as elites dirigentes (de esquerda, centro ou de direita) continuam devorando nosso projeto de nação. Continuamos sendo, depois de cinco séculos de existência, uma “sociedade condenada” (Ayn Rand).

 

Os colonizadores (portugueses, espanhóis, franceses, holandeses etc.) para cá vieram para evangelizar e se reproduzirem e, ao mesmo tempo, para se enriquecerem.

 

Mas para alcançar esse propósito adotaram o método de roubar, queimar, se apropriar, escravizar, corromper, matar, torturar, estuprar, espoliar, dizimar, pilhar, destruir, extinguir e extrativar. Em suma, queriam fazer riqueza e irem embora, destruindo (impunemente) gente, natureza e animais. Elites alterofágicas.

 

Muitos dos indígenas que aqui eles encontraram levavam a alterofagia à sua potência máxima, praticando o canibalismo (matavam e comiam o prisioneiro com a crença de que assim se apropriavam da sua energia, da sua força, da sua inteligência, das suas habilidades). Tivemos no Brasil o encontro de duas culturas atrasadas, bestiais, medievais e bárbaras.

 

O que falta nesse tipo de sociedade alterofágica e “condenada”? A ética. O que é a ética? É o respeito ao ser humano, à natureza, aos animais e ao bom uso das tecnologias. É o respeito às regras justas que procuram preservar o humano, a natureza, os animais e a boa tecnologia. É, em suma, fazer as coisas do jeito certo.

 

O resultado de uma sociedade ética é a obtenção “da arte de viver bem humanamente”, ou seja, a arte de conviver pacificamente (tanto quanto possível) com os demais humanos (Savater) e de criar um ambiente sustentável, que garanta a vida presente e futura de todas as gerações.

 

As sociedades alterofágicas se caracterizam pela destruição do outro, leia-se, do ser humano, da natureza, dos animais assim das oportunidades civilizatórias geradas pelas novas tecnologias.

 

A corrupção, no Brasil, alcançou o nível da alterofagia. O Brasil é muito mais que um país corrupto. É uma cleptocracia (cleptos = ladrão; cracia = governo, poder). Corruptos todos os países são. Até mesmo a Dinamarca e a Nova Zelândia, os dois primeiros colocados no ranking da Transparência Internacional (de 2016).

 

A nota desses dois países é 90. Mas 90 não é 100. Logo, também existe corrupção nessas nações. O Brasil, no entanto, é diferente. O que temos aqui é uma cleptocracia governada e dominada por ladrões de uma pequena elite (econômica, financeira, política, administrativa, midiática e intelectual) que sempre roubaram nossos sonhos de nação. Essas elites são de esquerda, de centro ou de direita.

 

Por meio da corrupção essas elites bandidas (de todas as cores ideológicas) drenam recursos públicos para seu enriquecimento particular, colocando nos cargos públicos pessoas completamente desqualificadas e, muitas vezes, despreparadas.

 

Para garantir sua impunidade criaram instituições precárias, frouxas, coniventes, que atuam normalmente como aparatos de proteção da cleptocracia.

 

A máquina pública funciona muito mal. Os serviços públicos são de péssima qualidade e o controle exercido sobre a corrupção é muito flácido. Por tudo isso é que se diz que, no Brasil, a corrupção mata.

 

As elites que nos governam corruptamente (aquelas que nos governam corruptamente, pouco importando se de esquerda, de centro ou de direta), do ponto de vista coletivo, não são “eros” (vida), são “tanatus” (morte).

 

Essas elites corruptas, bandidas e alterofágicas são as grandes responsáveis pelas mortes por bala perdida, pelas decaptações, atrocidades machistas, pelos hospitais sem remédios, pelo desvio do dinheiro da saúde e da educação para as eleições delas, pelas casas sem esgoto, pelas crianças analfabetas, pelas escolas que não educam, pelas estradas esburacadas, pelas obras não acabadas,  pelas licitações fraudadas, pelos subsídios favorecidos, pelos cargos trocados, pelas emendas “negociadas”, pelos subornos pagos, pelas decisões “compradas” dos tribunais e por aí vai (ao infinito).

 

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LUIZ FLÁVIO GOMES

Luiz Flávio Gomes

Doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri, Mestre em Direito Penal pela USP e Diretor-Presidente da Rede de Ensino LFG. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Autor de obras pela RT e Saraiva.

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