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Língua Portuguesa Estudando a gramática, não se peca diante do papa...

04/06/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

 

O papa chegou ao Brasil. Sua estada foi "gramaticalmente" providencial: para a comunicação com o Sumo Pontífice, tivemos que relembrar o uso dos pronomes de tratamento.

Bom para a imprensa, que, não raras vezes, tropeça nas formas adequadas. Melhor para nós, estudiosos do idioma, que, aproveitando o ensejo, revisitamos as tantas formas de tratamento que a língua registra.

 

Na semana de sua estada no Brasil, os fiéis puderam demonstrar sua fé. Alguns tentaram se aproximar, escrevendo ao papa palavras denotadoras da religiosidade que nutrem em suas crenças. Entre as centenas de bilhetes endereçados ao papa, tomei conhecimento de um, do qual me valho para ilustrar um importante dado gramatical: o uso adequado do pronome de tratamento. Se você achava que falar com o papa é difícil, vai notar que escrever pra ele é bem mais...

 

Vamos ao bilhete endereçado ao pontífice:

 

"Obrigado por ter vindo ao Brasil. Vossa Santidade vai ficar impressionada com nossa hospitalidade. Eu vos peço que reze por nós, quando voltar ao Vaticano, na Itália.

Assinado: José."

 

 

Não há dúvida de que, do ponto de vista religioso, o pedido é franco e louvável. Aliás, aquele que o escreveu parece tê-lo feito com naturalidade, e isso é muito bom! Todavia, faltou ao remetente atenção com as regras. Sugiro que dividamos o bilhete em pedaços - não literalmente, é claro - mas com o fito de explicar os pontos falhos:

 

 

1º. "Obrigado por ter vindo ao Brasil": o começo está ótimo. Como o remetente, conforme a assinatura, é homem, a concordância nominal foi perfeita. Devemos memorizar: o homem, quando agradecido, diz "obrigado", e a mulher, "obrigada".

 

2º. "Vossa Santidade vai ficar impressionada com nossa hospitalidade.": o remetente refere-se ao papa e usa, adequadamente, a forma "Santidade". Com efeito, esse é o pronome de tratamento para o papa! Até aqui, está tudo em ordem!

O melhor de tudo, ainda, foi ver no bilhete o uso de "Vossa Santidade". Certíssimo!  Usa-se "vossa" ("Vossa Santidade", "Vossa Excelência" etc.) quando se FALA COM a pessoa designada pelo pronome; usa-se "sua" ("Sua Santidade", "Sua Excelência" etc.) quando se FALA DA pessoa designada pelo pronome. Viu-se que o recado foi endereçado, diretamente, ao papa. Portanto, o uso de "Vossa Excelência" foi correto.

 

Por outro lado, quando se quer revelar algo a respeito do papa, diz-se, por exemplo:

 

Sua Santidade vai começar o discurso às treze horas.

Sua Santidade, João Paulo II, morreu às 21h37min do dia 2 de abril de 2005.

 

Até aqui, o bilhete estava impecável. Todavia, prepare-se, estimado leitor: problemas à vista.

 

A concordância nominal que se fez foi, no mínimo, exótica: "Vossa Santidade impressionada?! A palavra "santidade" é feminina, mas o papa é homem. Portanto, deve-se dizer que "Vossa Santidade vai ficar impressionado com nossa hospitalidade.". Note que o termo "impressionado" não concorda com "Santidade", mas com o ser a que se refere o pronome (o papa).

Aí se dá um fenômeno conhecido por silepse de gênero - uma figura por meio da qual se faz a concordância de acordo com o sentido. Note outros oportunos exemplos:

 

Em sua visita ao Brasil, Sua Santidade foi recebido (e não "recebida") por milhões de cristãos.

 

Ou, ainda, em outro contexto:

 

Recife é muito violenta.

A gente ficou convencido das suas boas intenções[1].

 

3º. "Eu vos peço que reze por nós.": mais uma falha à vista... Muitos pensam que a palavra "vossa" deve estar acompanhada do pronome possessivo "vosso" e do pronome oblíquo "vos". Observe a erronia:

 

"Peço a Vossa Excelência, neste ofício que vos envio, que emita vossa opinião com sinceridade."

 

A frase até parece bem montada, mas algo vital foi esquecido: os pronomes de tratamento são de TERCEIRA PESSOA! Portanto, não há espaço para "vosso" ou, mesmo, para "vos". Troque por LHE e SUA. Note:

 

"Peço a Vossa Excelência, neste ofício que lhe envio, que emita sua opinião com sinceridade."

 

De fato, apesar de os pronomes de tratamento se referirem à segunda pessoa do discurso (o interlocutor), exigem que a concordância seja feita na terceira pessoa.

 

4º. "...quando voltar ao Vaticano, na Itália.": aqui o remetente se perdeu no mapa-múndi...O papa vai voltar ao Vaticano - isso é fato -, porém, o Vaticano não fica na Itália! O Vaticano é um Estado soberano, aliás, é o menor Estado independente do mundo, encravado na zona norte de Roma. O chefe desse Estado é o papa. Dir-se-ia que o erro é perdoável: volta e meia, os meios de comunicação estampam manchetes em que se lê "Vaticano, na Itália". Paciência...

 

Feitas as observações, resta-nos reforçar a aprendizagem, sugerindo a correção no amável bilhete, que poderia ter sido...

 

"Obrigado por ter vindo ao Brasil. Vossa Santidade vai ficar impressionado com nossa hospitalidade. Eu lhe peço que reze por nós, quando voltar ao Vaticano."

 

 

Como disse e repito: o pedido do fiel foi polido e merece perdão. Devemos perdoar as pequenas falhas, porém há sempre a necessidade de superação dos defeitos. Aprendemos hoje para aplicar amanhã. É o que chamo de "ônus do conhecimento".

Por outro lado, o erro já se torna mais intolerável em ambientes cercados de solenidade, com espectadores habilitados a evitá-lo. Aqui haverá pouco espaço para erros gramaticais...

A propósito, assim que o papa chegou ao Brasil, houve uma recepção ao Sumo Pontífice no aeroporto internacional. O presidente Lula fez um discurso de abertura e, surpeendentemente, nas primeiras palavras, endereçadas ao público - e ao papa! - , tropeçou no pronome. Note a confusão:

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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