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Língua Portuguesa Escutar sem Escutar

29/06/2005 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

O título indica o que acontece quando ouvimos uma música sem prestar atenção aos versos nela contidos. Se a canção for popular brasileira, uma certeza despontará: letras com conteúdo e variações lingüísticas, servindo como ponte providencial entre a música e o estudo da gramática. Afinal de contas, como diria um amigo músico: "A MPB é tão gramática quanto a própria gramática".

De fato, até complementaria, afirmando que a boa letra musical colabora para minar a resistência do estudante no processo - "rabugento", talvez - de assimilação da gramática normativa. No passado, o ilustre Napoleão Mendes de Almeida nos ensinava: lições impecáveis, porém sob a forma de reprovação contínua. A palmatória parecia estar sempre ao lado...

Nesse passo, não se pode deixar de reconhecer que a simpatia do professor Pasquale Cipro Neto deu nova "cara" à Língua, aproximando-a de nossa música, associando-a ao bom-humor e distinguindo a norma culta da vitalidade lingüística, sem "cara amarrada"...

Como professor de português, não recomendo que se afaste da padronização exigida pela norma culta, porém reconheço que não deve haver crises histéricas ou rotulação preconceituosa em excesso.

Nesse passo, sempre recomendo a meus estimados alunos: ouçam MPB e leiam poesia! São preciosos repositórios de cultura.

Há poucos dias, fiz uma experiência em sala de aula: dividi-a em quatro grupos e lhes pedi que pesquisassem trechos da MPB com a utilização do padrão culto formal. O resultado foi elogiável. Encontraram letras emblemáticas e exemplos elucidativos. Vamos analisar alguns deles:

(...) Ah, que coisa boa! / À meia luz, a sós, à toa / Você e eu somos um / Caso sério (...) (Canção "Caso Sério", de Rita Lee e Roberto de Carvalho)

O segundo verso mostra o uso apropriado das locuções adverbiais com o sinal grave obrigatório, indicador da crase - "à meia luz" e "à toa". Ademais, o verso seguinte traz exemplo de concordância verbal adequada: "(...) você e eu somos um caso sério (...)". Parabéns aos autores da letra e aos alunos descobridores!

Outro grupo pesquisou com brilhantismo e trouxe trechos da canção "Fala Baixinho", de Pixinguinha e Hermínio B. de Carvalho:

(...) Eu acho até que eles nem sentem não / Espalham coisas só pra disfarçar / Daí então por que se dar ouvidos a quem nem sabe gostar (...)


Demonstraram os eminentes pesquisadores erudição musical, ao citar o mestre Pixinguinha, que ratificou o uso preciso do "por que" separado, como sinônimo de "por qual motivo" no trecho "(...) Daí então por que se dar ouvidos a quem nem sabe gostar (...)".
Aliás, um trecho de sabedoria singular: tinha razão o mestre Paulinho da Viola, quando afirmou tratar-se Pixinguinha do "maior e mais importante músico brasileiro de todos os tempos..."

O terceiro grupo sacou versos mais recentes e não menos pontuais:

(...) Ela fazia muitos planos / Eu só queria estar ali / Sempre ao lado dela / Eu não tinha aonde ir (...) (Canção "Ainda é Cedo", de Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa Lobos e Ico Ouro Preto)

Com efeito, Renato Russo houve por bem ao empregar a preposição "a" com o verbo "ir", indicativo de movimento. Sob a ótica da norma culta, o emprego de "aonde" está impecável. Se não houvesse idéia de movimento, ter-se-ia espaço para "onde". Nota máxima para o grupo de alunos e para o "mito" Renato Russo.

O último grupo escolheu trecho especialmente precioso: buscou a pena de Castro Alves, nos versos da Poesia "Quando Eu Morrer":

(...) Oh! Perguntai aos frios esqueletos / Por que não têm o coração no peito... / E um deles vos dirá "e;Deixei-o há pouco / De minha amante no lascivo leito."e; (...)

Nem precisa dizer a nota: dez para os alunos e para o imortal "poeta dos escravos", que mostrou rigor (I) na utilização do verbo "ter" na forma plural acentuada (têm), concordando com o sujeito "frios esqueletos"; (II) na utilização apropriada do tempo presente no modo imperativo, em segunda pessoa do plural "vós" ("perguntai" em contraponto com o pronome "vos"); (III) e no uso impecável da inversão na frase : "Deixei-no no lascivo leito de minha amante há pouco".

Como se viu, a sala toda aprendeu uma lição: a música e a poesia podem ser a ponte entre o conhecimento e a diversão certa. Não se deve "escutar sem escutar". Aliás, como já dizia Nietzsche, "Sem a música, a vida seria um erro".

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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