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CRÔNICAS FORENSES Entre a nigéria e o FBI

02/06/2015 por Roberto Delmanto

Aos 85 anos, o médico, meu conhecido, continuava gozando de invejáveis saúde física e mental. Fazia ginástica diariamente, gostava de um bom vinho tinto e ainda tinha uma namorada, mulher exuberante de sessenta e poucos anos...

 

Ao contrário de outros idosos, sabia usar a internet. Certo dia, recebeu um e-mail em inglês assinado por um desconhecido, proveniente da Nigéria, dizendo que estavam à sua disposição, em um banco local, dez milhões de dólares. Respondeu de imediato, informando, em bom inglês, que jamais tivera qualquer conta bancária naquele país.

 

Duas semanas depois, recebeu outro e-mail, desta vez do FBI, afirmando que os dólares haviam sido transferidos em seu nome para o Bank of America,
tinham sido bloqueados e que ele estava sob investigação federal. Caso não provasse que não tinha ligação com terrorismo ou tráfico de drogas, poderia ser processado e até preso... Terminava dizendo que um representante do FBI na Nigéria entraria em contato com ele. Consultando o Google, constatou que o nome de quem enviara esse e-mail era mesmo de um diretor do FBI.

 

Quinze dias após, o representante nigeriano do FBI enviou-lhe um e-mail, explicando que já tinha falado com o Ministro do Interior daquele país e que este lhe confirmara que o médico realmente não tinha qualquer ligação com terroristas ou traficantes.

 

Uma semana mais tarde, o diretor do FBI mandou outro e-mail ao médico, dizendo que para encerrar a investigação seria necessário que o governo americano emitisse um documento oficial a respeito. Para tanto, ele precisaria pagar uma taxa de 1.500 dólares, indicando o banco e a conta a serem depositados.  Assustado e aturdido com a investigação do FBI, o médico, no dia seguinte, fez, através de seu banco, a transferência solicitada. A partir daí, cessaram os e-mail’s e ele, logicamente, não recebeu o tal documento “oficial”.

 

Ao procurar-me, confirmei o que ele, àquela altura, já desconfiara: tinha sido vítima de um estelionato, certamente praticado por brasileiros com conta no exterior. Disse-lhe que poderia requerer um inquérito policial para tentar identificar os estelionatários, mas isto custaria tempo e dinheiro, e os dólares enviados dificilmente seriam recuperados.

 

O médico resolveu não tomar qualquer medida policial a respeito e esquecer o assunto. Perguntou o valor da minha consulta e eu lhe disse que, em consideração a sua pessoa, nada cobraria.Voltou, então, aos exercícios físicos, à namorada e aos bons vinhos tintos, presenteando-me, na semana seguinte, com uma garrafa do seu preferido...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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