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Língua Portuguesa Enfrentando a Locução "EM QUE PESE"...

03/10/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

 

 

Há poucos dias, após proferir palestra sobre Língua Portuguesa, fui inquirido por um aluno, que desejava saber a respeito da locução "em que pese". A pergunta era instigante, pois o curioso discente estava com dúvidas acerca da presença ou não da preposição (em que pese a...) e sobre a pronúncia do verbo - se "pése" ou "pêse". Na ocasião, respondi a ele com brevidade, prometendo escrever algo a respeito. Passo a fazer agora.

 

 

Trata-se de locução clássica, de uso corrente nas literaturas brasileira e portuguesa. Desta locução conjuntiva se valeram Gonçalves Dias, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Alexandre Herculano, Garret e outros.

 

 

Como a própria expressão parece anunciar, o verbo nela previsto, originando-se de "pesar", tem a acepção de "incomodar, doer, magoar", dando uma idéia de "ainda que cause pesar a alguém ou ainda que lhe custe ".

 

 

Passando, de pronto, às dúvidas do aluno, enfrentemos a questão da preposição: diz-se "em que pese" ou "em que pese a"?

 

 

Recomenda-se a utilização da segunda forma, isto é, com a presença da preposição. Assim, a aglutinação desta com o artigo definido poderá provocar a formação das fusões "ao" (a+o) ou à (a+a), este último fenômeno conhecido por "crase".

 

Exemplos:

 

Em que pese (a + o) parecer do médico, acreditamos na recuperação.

Note: Em que pese ao parecer do médico, acreditamos na recuperação.

 

Em que pese (a + a) decisão da magistrada, tomaremos a medida.

Note: Em que pese à decisão da magistrada, tomaremos a medida.

 

Em que pese (a + as) injustiças da norma, há de haver compreensão.

Note: Em que pese às injustiças da norma, há de haver compreensão.

 

 

É possível observar, nos exemplos citados, que não se altera a cristalizada forma "em que pese". O motivo é simples: mantém-se subentendida a palavra "isso", invariável, ocupando o lugar do sujeito. Note o detalhe na última frase em epígrafe:

 

EM QUE (ISSO) PESE ÀS injustiças da norma, há de haver compreensão.

 

Portanto, pode-se dizer que a expressão "em que (isso) pese a alguém" equivale a algo como "ainda que (isso) pese a alguém" ou "ainda que (isso) cause incômodo a alguém".

 

Passemos, agora, à segunda dúvida do aluno, adstrita à pronúncia adequada do verbo - se "pése" ou "pêse".

 

O entendimento dominante é o de que se deve proferir o "e" fechado (/pêse/). Tal modo de ver encontra guarida nas respeitáveis opiniões de Evanildo Bechara, Luiz Antônio Sacconi, Edmundo Dantès Nascimento e outros.

 

Entretanto, seguindo a trilha de Domingos Paschoal Cegalla, entendemos que tal pronúncia fechada soa um tanto arbitrária e afetada. A pronúncia com o "e" aberto - "pése" - parece ser mais aceitável a nosso padrão de fala.

Uma vez satisfeitas as dúvidas suscitadas, vale a pena destacarmos algo curioso. Há gramáticos que admitem a locução na forma variável, isto é, EM QUE PESEM, sem a preposição "a" e passível de concordância com o termo a que se refere, principalmente, se ao verbo sucederem "coisas", e não pessoas. É uma construção evoluída, bastante comum na imprensa.

Na verdade, é possível aceitar, sim, esta forma, entretanto se deve frisar que o sentido da expressão é outro. Note a frase abaixo, extraída do Editorial do Jornal "A Folha de São Paulo", de 29 de setembro de 2005:

 

"Todavia, em que pesem essas variáveis, é evidente que a população carente se encontra privada não apenas do acesso às livrarias e boas bibliotecas como de qualquer outro veículo de leitura.(...)"

 

 

Observe que o sujeito do verbo "pesar" é "essas variáveis", pois o que se quis mencionar é que "essas variáveis têm peso, valor, importância ou influência". Se o sujeito está no plural, como é cediço, o verbo deverá, inexoravelmente, segui-lo no plural. Por oportuno, diz-se que a pronúncia aqui recomendada é com o "e" aberto: "pése".

Note as frases:

1. Em que pese o temporal, houve jogo. (/pése/)
"Temporal" é sujeito do verbo "pesar", significando que "o temporal tem importância".

2. Em que pesem os bons números nas pesquisas de opinião, o fato é que Lula foi vaiado. (/pésem/)
"Bons números" é sujeito do verbo "pesar", significando que "os bons números têm importância".

 

Posto isso, é possível sintetizarmos da seguinte forma:

 

1º. Utilize a expressão "em que pese a", invariável, com a preposição "a" e com a recomendável pronúncia aberta "pése", não obstante a clássica pronúncia "pêse". Observe o quadro:


 

1. No singular:
Bem examinados os autos, em que pese AO ARGUMENTO em contrário, verifica-se que a respeitável sentença apresenta-se discutível.

2. No singular, com crase:
Bem examinados os autos, em que pese À OPINIÃO em contrário, verifica-se que a respeitável sentença apresenta-se discutível.

3. No plural:
Bem examinados os autos, em que pese AOS ARGUMENTOS em contrário, verifica-se que a respeitável sentença apresenta-se discutível.

4. No plural, com crase:
Bem examinados os autos, em que pese ÀS OPINIÕES em contrário, verifica-se que a respeitável sentença apresenta-se discutível.

 

 

 

2º. Utilize a forma "em que pesem", variável, sem a preposição "a" e com a única pronúncia aceita, i.e., "pése".

 

1. No plural, apenas (sem crase):

Bem examinados os autos, em que pesem OS ARGUMENTOS em contrário, verifica-se que a respeitável sentença apresenta-se discutível.

Bem examinados os autos, em que pesem AS OPINIÕES em contrário, verifica-se que a respeitável sentença apresenta-se discutível.

 

 

 

 

 

Bons estudos a todos! Um abraço do Sabbag.

 

Comentários

  • Juliano M.
    28/11/2012 15:23:11

    Boa tarde. Gostaria de tirar um dúvida: consultei alguns sítios de internet sobre a expressão "em que pese" seguida de verbo, quanto ao uso deste ser no infinitivo ou no subjuntivo, e não encontrei respostas satisfatórias: afirmavam não ser uma expressão que comporta sequência verbal. Todavia, se "em que pese" é seguido de substantivos, e o infinitivo pode ser utilizado como verbo substantivado, não é uma construção possível? Por exemplo: "Em que pese ser omissa a gramática normativa quanto ao assunto, supõe-se prevalecer o bom senso" ou mesmo "Em que a gramática ser omissa sobre o assunto pese, supõe-se prevalecer o bom senso". Grato!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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