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Língua Portuguesa É preciso parar com o tal "vou estar fazendo..."!

07/03/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

"Gerúndio" é  forma nominal do verbo, ao lado do "infinitivo" e do "particípio". Esta forma pode e deve ser usada para expressar uma ação em curso ou uma ação simultânea à outra, ou para exprimir a idéia de progressão indefinida. Combinado com os auxiliares "estar", "andar", "ir" ou "vir", o gerúndio marca uma ação durativa, com aspectos diferenciados. Note:

Estavam todos repousando.
(Ação durativa em momento definido)
Ricardo  andava acordando sem ânimo. (Ação durativa e intensidade)
Dias de sorte vêm surgindo no último mês. (Ação durativa e progressividade)

Do uso adequado para a prática condenável, foi um pulo. Aos que não conhecem, vale a apresentação: tal prática tem sido chamada de "gerundismo" -  fenônemo lingüístico recente no Brasil, traduzindo-se em equivocada maneira de falar e de escrever, em razão da má influência do idioma inglês em nosso país. Pode-se afirmar que, geograficamente, o foco de difusão da "praga" se deu nos ambientes de atendimento de "telemarketing". No afã de traduzir as expressões  "I am going to do something" [literalmente: "Estou indo fazer algo"], ou "We will be sending you the catalog soon" [como  "Nós estaremos lhe enviando o catálogo em breve"] e, por fim, "Well be sending it tomorrow" [com significado de "Nós vamos estar mandando isso amanhã"], passou-se a conviver com esse abuso de forma com forte vocação de propagação. Diga-se, em tempo, que se os norte-americanos empregam corretamente o "well be sending it tomorrow", a adaptação servil feita pelo português soa esquisita: "nós vamos estar mandando isso amanhã"?!


Pouco a pouco, a perigosa forma gerundial deixou o ambiente dos atendentes de "telemarketing" e se alastrou de modo incontido, alcançando o cotidiano dos escritórios, das reuniões e das conferências. Que perigo!

Observe alguns exemplos condenáveis de gerundismo:

1. Eu vou estar passando por fax o documento.

2. Ela vai estar mandando pelo Correio o memorando.

3. Nós vamos estar enviando pela Internet o relatório.

4. Eu vou estar transferindo a sua ligação.

5. Eu vou estar confirmando os dados.

É evidente que as formas são excessivas e desnecessárias. Quer-se dizer tão pouco com tanto! Pra quê?

Em hilariante passagem, satirizando com o humor que lhe é peculiar, o cronista Ricardo Freire comenta[1]:

 "Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito. Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está ficando a ponto de estar estourando."

 

De qualquer modo, há que se distinguir o bom do mau emprego gerundial. Condenar o "gerundismo", sem análise detida, não é recomendável. Nas palavras de Rodrigues Lapa, "o problema consiste em saber se de fato o uso do gerúndio traz vantagem estilística sobre os outros processos." [2]

 

Casosem que se necessita transmitir a idéia de movimento, de progressão, de duração ou de continuidade - portanto, recomendar-se-á seu uso. Todavia, abusivo será o gerundismo e, portanto, condenável, se a ação em comento se individualizar no tempo, sem necessidade de se protrair. Nesse caso, é possível evitá-lo, fazendo a troca da locução verbal ["estar" + "gerúndio"] por um simples "infinitivo" [flexionado ou não], desde que não se trate efetivamente de uma ação durativa.

 


Exemplos de uso aceitável, com a ocorrência de ações durativas:

1. Os pagamentos das promissórias estarão ocorrendo nos dias 2 e 3 do referido mês.

2. Não será possível vê-la nesses dias, pois vou estar viajando para Recife.
3. Em outros artigos, elas estarão dando maior atenção a cada um desses assuntos.
4. A jovem deve estar fazendo os exercícios agora.

Exemplos de uso condenável, com a ocorrência de ações não-durativas:

1. Vou aproveitar o 13º para estar pagando tudo. [Troque por pagar]
2. À tarde, temos que estar discutindo a proposta do plano. [Troque por discutir]
3. As análises servem para estarmos aprofundando os estudos. [Troque por aprofundar]
4. Nossos atendentes vão estar efetuando a cobrança em maio. [Troque por efetuar ]


 

Portanto, sejamos simples e concisos. Evitemos o gerundismo inadequado, enfeitando a fala com uma duração que não contém. Sempre digo a meus eminentes alunos: "É preciso parar com o tal "e;vou estar fazendo"e;!"

Nãomelhor recomendação que a de Ricardo Freire que, com franqueza elogiável, incita-nos à mudança de hábito:

"E existe uma forma de descontaminar um gerundista crônico: corrigindo o coitado. Na chincha. Com educação, claro. Por incrível que pareça, ninguém usa o gerundismo para irritar. Quando a teleatendente diz O senhor pode estar aguardando na linha, que eu vou estar transferindo a sua ligação, ela pensa que está falando bonito. Por sinal, ela não entende por que eu vou estar transferindo é errado e ela está falando bonito é certo. O que aumenta a nossa responsabilidade como vigilantes e educadores. (...)" [3]

 



[1] Ricardo Freire, in "Xongas", de O Estado de S. Paulo, em 16 de fevereiro de 2001 apud Eduardo de Moraes Sabbag, in "Redação Forense e Elementos da Gramática", Premier, 2ª Ed., p. 450.

[2] Rodrigues Lapa, in "Estilística da Língua Portuguesa", Livraria Acadêmica, Rio de Janeiro, 1959, p.178.


 

[3] Id.,id., p. 450.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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