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Língua Portuguesa É possível fazer a redação perfeita?

02/07/2015 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Anota dez, em prova de redação, nos vestibulares e concursos públicos, não é um mito. É possível, sim. Busquei esta pontuação na prova da FUVEST, em vestibular para o ingresso na Universidade de São Paulo, para o curso de Direito, e a obtive com êxito. O que fiz? Usei todas as técnicas adequadas e as treinei. De lá pra cá, tenho difundido o método em nossas aulas de redação.

 

Não resta dúvida que, para se tirar “dez”, há a necessidade de treino e técnica. São duas palavras que fazem toda a diferença.

 

A primeira, o mencionado “treino”, diz respeito ao que denomino de prática redacional insistida, ou seja, ao sublime ato de escrever, desde que iterativo. Recomenda-se a produção de redações em quantidade expressiva, sobre os mais variados temas.

 

A segunda, a indigitada “técnica”, pressupõe a boa desenvoltura gramatical, o domínio da forma, a versatilidade nas ideias e a precisão do raciocínio. Todavia, o conhecimento das regras gramaticais cumpre papel decisivo na pontuação do trabalho. De nada adianta uma redação esteticamente perfeita, com um raciocínio bem elaborado, se estiver repleta de erros de português. Por isso, tenha sempre uma gramática por perto e faça uso dela toda vez que for necessário.

 

Diante disso, analisaremos, aqui, algumas das mais corriqueiras dificuldades nas redações, especialmente quanto ao bom uso das regras gramaticais. São poucas dicas, mas de grande valia para você. Vamos a elas:

 

Dica 1. Evite a expressão “através de” usada sem adequação.

Essa locução preposicional significa “de um para o outro lado”, na acepção de “transpor obstáculo”. Assim, com correção, pode-se escrever: Irei ao outro lado do rio através da ponte; A bala passou através da parede. Portanto, é errado usar a expressão como indicadora de meio. Assim, evite a construção: Ele provou o fato através de testemunhas.  Recomenda-se substituí-la por Ele provou o fato por meio de testemunhas. Em português, as preposições que indicam relações de “meio” são: por meio de, por intermédio de, mediante, entre outras.

 

Dica 2. Tome cautela com o uso da crase.

Entre as inúmeras regras, procure se lembrar de que não se usa o sinal grave (`) antes de verbo. Portanto, escreva a locução “a partir de...” sem crase. Exemplo:
A partir de agosto, tomaremos as providências. Por outro lado, não omita o sinal nas locuções compostas por palavras femininas: à custa de, à medida que, às pressas, entre outras. Exemplo: O filho vive à custa do pai; À medida que os juros baixaram, as condições de vida melhoraram.

 

Dica 3. Um efeito bastante prejudicial à precisão do texto consiste no abusivo emprego da locução “sendo que”, com valor conjuncional.

Esta expressão pode ser bem empregada quando for sinônima de “uma vez que”, “pois” etc., haja vista representar morfologicamente uma locução conjuntiva causal. Exemplo: O homem disparou quatro tiros, sendo que duas balas atingiram a vítima. Prefira a forma: O homem disparou contra a vítima quatro tiros, dos quais dois a atingiram.

 

Dica 4. Não esqueça a acentuação adequada. 

O termo júri, por exemplo, recebe o acento agudo – trata-se de uma paroxítona terminada em -i, à semelhança de biquíni, safári, táxi, beribéri etc. Por outro lado, o vocábulo item não é acentuado, uma vez que não se acentuam as paroxítonas com terminação por -em. Além disso, cabe esclarecer que o termo juiz não recebe o acento agudo, enquanto o plural juízes leva o acento, por se tratar de hiato.

 

Dica 5. A concordância adequada é fundamental.

Se utilizar a forma “dado o” ou “dada a”, saiba que tais expressões são regidas pelo nome a que se referem. Exemplo: Dado o documento, decidi agir. Com o substantivo no plural, teremos: Dados os documentos, decidi agir.  A mesma regra vale para o vocábulo no feminino. Exemplo: Dada a circunstância, tomei a providência. E, no plural: Dadas as circunstâncias, tomei a providência.

 

Dica 6. O verbo “chegar”.

Trata-se de verbo que requer a preposição “a”, como verbo transitivo indireto. Do ponto de vista da norma culta, devemos evitar a utilização da preposição “em” com este verbo. Portanto, prefira ele chega ao aeroporto. Evite, assim: ele chega no aeroporto (no = em + o). Aliás, deve haver cautela com a inversão: Este é o terminal a que/ ao qual cheguei (e não Este é o terminal em que cheguei ou Este é o terminal no qual cheguei);

 

Dica 7. A concordância nominal da palavra “meio”.

O vocábulo “meio” pode apresentar-se como numeral fracionário ou como advérbio. Nesse último caso, ficará invariável. Exemplos: Ele está meio nervoso; Elas estão meio nervosas.

Por outro lado, como numeral fracionário (na acepção de “metade”), haverá a normal concordância. Exemplos: É meio-dia e meia. (A concordância nominal de “meia” se faz com “hora”);  Ele veio com meias palavras. (A concordância nominal de “meias” se faz com “palavras”)

 

Dica 8. A concordância nominal da palavra “ bastante”.

O vocábulo “bastante” pode apresentar-se como pronome (indefinido), como adjetivo e como advérbio.

Como pronome indefinido (na acepção de “incontáveis, muitos”), haverá a normal concordância: Havia bastantes candidatos no concurso; Fui à padaria e comprei bastantes pães.

Por outro lado, como adjetivo (na acepção de “suficiente”, sendo variável), teremos: O advogado apresentou razões bastantes para defender o réu.

Por fim, como advérbio, ficará invariável: Elas estão bastante tristonhas.

 

Dica 9: Requer-se cuidado com o uso de expressões latinas, que devem ser grafadas com aspas, dando-lhes o destaque necessário.

É oportuno lembrar que não se acentuam as palavras latinas. Portanto, grafe “data venia”, sem acento circunflexo, ao indicar a forma polida de manifestar seu pensamento. Entretanto, pertence a nosso idioma o vocábulo “vênia”, com acento circunflexo – uma paroxítona terminada em ditongo, na acepção de “licença que, por deferência, pede-se a outrem”. Exemplo: Com a devida vênia dos senhores, vou me retirar.

 

Dica 10. Com relação à utilização dos parônimos – palavras parecidas na grafia, mas com acepções distintas –, tome os devidos cuidados. Exemplos:

I. vultoso: volumoso (prêmio vultoso)

vultuoso: ruborizado, vermelho (bochechas vultuosas)

II. incipiente (com a letra “c”): principiante, iniciante (desidatração incipiente)

insipiente (com a letra “s”): ignorante (pessoa insipiente)

III. eminente (com a letra “e”): nobre, elevado (professor eminente)

iminente (com a letra “i”): aquilo que está prestes a acontecer (data iminente)

IV. seção: repartição (seção do tribunal)

sessão: apresentação (sessão do júri)

cessão: ato de ceder (cessão de direitos)

V. discriminar (com a letra “i”): separar (discriminar os itens, as pessoas)

descriminar (com a letra “e”): descriminalizar (descriminar o aborto)

VI. retificar (com a letra “e”): consertar (vou retificar a data)

ratificar (com a letra “a”): confirmar (ele ratificou a participação no evento)

VII. dispensa (com a letra “i”): desobrigação (dispensa do serviço militar)

despensa (com a letra “e”): compartimento da casa
(a despensa está repleta de comida)

 

Além disso, destacam-se, também, as palavras de dupla prosódia, que são plenamente aceitas, em todas as suas formas. Exemplos:

protocolar ou protocolizar

projétil ou projetil

xérox ou xerox

autópsia ou autopsia (si-a)

necrópsia ou necropsia (si-a)

veredicto ou veredito

aterrizar ou aterrissar

muçarela, muzarela ou mozarela

infarte, enfarte ou enfarto

 

É isso. Agora é com você! Treine, estude bastante os rudimentos gramaticais e produza seus textos! Só assim a sua redação poderá se tornar uma “Redação Nota 10”.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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