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FILOSOFIA Do mito ao lógos: a descoberta da filosofia

03/05/2012 por Luciene Félix

O renomado historiador Jean-Pierre Vernant (1914-2007) afirma que pensamento racional possui registro civil. Data: século VI; Local: Grécia. E, se os pré-socráticos são seus pais, os poetas são seus avós.

Iniciando uma nova forma de reflexão sobre a natureza, "Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir", diz Burnet, apontando o pontapé inicial do que hoje chamamos pensamento científico.

Diferente de Burnet, Cornford fiz que a física jônia não corresponde ao que denominamos ciência, pois não é produto da observação e tampouco faz experimentos, mas na verdade "Transpõe, numa forma laicizada e em um plano de pensamento mais abstrato, o sistema de representação que a religião elaborou." É sobre essa transposição do mito ao lógos que versaremos.

Considerando que o pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio, Vernant afirma que foi na Escola de Mileto que o lógos se libertou do mito.

Inteligência, raciocínio e espírito de observação são qualidades que o distanciamento permite entrever no milagre grego: "através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do lógos introduziria, portanto, na história uma descontinuidade radical.".

O pensamento racional interroga seu passado tentando "estabelecer o liame que une o pensamento religioso e os começos do conhecimento racional.".

Os arcaicos mitos cosmogônicos (a palavra cosmos em grego significa ordem), ou seja, que buscam ordenar a origem (gens) da physis (natureza) são retomados pelos filósofos que estabelecerão a partir daí suas cosmologias (ordem lógica).

Os primeiros filósofos utilizaram um material conceitual análogo ao dos poetas inspirados pelas musas (Homero e Hesíodo) e deram uma resposta externamente distinta ao mesmo tipo de pergunta: como pode emergir do caos [ápeiron] um mundo ordenado?

Enquanto o mundo dos aedos (poetas) é ordenado através da partilha dos domínios das instâncias da natureza entre os deuses (Zeus, o Fogo; Hades, o Ar; Poseidon, a Água e Gaia, a Terra), o cosmos dos jônios organiza-se "segundo uma divisão das províncias, uma partilha das estações entre forças opostas que se equilibram reciprocamente.". Não nomeiam divindades.

Vernant esclarece que por detrás dos elementos dos jônios (ar, fogo, terra e água), perfila-se a figura de antigas divindades da mitologia: "Ao tornarem-se natureza, os elementos despojaram-se do aspecto de deuses individualizados; mas permanecem as potências ativas, animadas e imperecíveis, sentidas ainda como divinas.".

Chamando a atenção para o fato de que não se trata de uma vaga analogia, Vernant diz que entre a filosofia de um Anaximandro e a Teogonia [obra sobre a origem dos deuses] de um poeta como Hesíodo (séc. VIII a.C.), as estruturas se correspondem até no pormenor.

Eis então, no mito e no lógos nascente, duas formas de traduzir níveis diferentes de abstração, explicitando o mesmo tema de ordenamento do mundo.

Para o historiador, esse novo "processo de elaboração conceitual [ao invés de deuses, são o úmido, o seco, o quente, o frio] que tende à construção naturalista do filósofo já está em gestação no hino religioso de glória a Zeus que o poema hesiódico celebra".

 

 

A filosofia tem um começo absoluto? Teria surgido no mundo sem nenhum passado, sem pais, nem família?

 

 

O mito da Teogonia, por exemplo, é a ilustração de um drama ritual, um modelo da festa real da criação do Ano Novo babilônico, no mês de Nisan: "Através do rito e do mito babilônicos, exprime-se um pensamento, que não estabelece ainda entre o homem, o mundo e os deuses, uma nítida distinção de planos." No mito, natureza (deuses) e sociedade (homens) estão confundidas.

Noutra passagem da Teogonia, a emergência do mundo prossegue com sucessivos nascimentos que se operam SEM a intervenção de Eros, ou seja, não por união, mas por segregação, tal como o que relata o aparecimento do mar, que surge da terra.

Eros, esclarece Vernant, é o princípio que aproxima os opostos - como o macho e a fêmea - e que os une: "Enquanto não intervém, a gênese processa-se por separação de elementos previamente unidos e confundidos", como se dá quando, no mito, Gaia (terra) gera Ouranós (céus).

Na Teogonia, diz Cornford, reconhece-se a estrutura de pensamento que serve de modelo a toda filosofia nascente, a física jônia:

no começo, há um estado de indistinção onde nada aparece;

desta unidade primordial emergem, por segregação, pares de opostos: quente e frio; seco e úmido, que vão diferenciar no espaço quatro províncias: o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido;

os opostos unem-se e interferem, cada um triunfando por sua vez sobre os outros, segundo um ciclo indefinidamente renovado, no nascimento e na morte de todo ser vivo (plantas, animais e homens), na sucessão das estações do ano, enfim, de todo fenômeno.

Vernant aponta que a obra de Cornford tinha por preocupação essencial restabelecer, entre a reflexão filosófica e o pensamento religioso que a tinha precedido, o fio da continuidade histórica: "marca uma virada na maneira de abordar o problema das origens da filosofia e do pensamento racional. Intentando combater a teoria do milagre grego que apresentava a física jônia como a revelação brusca e incondicionada da Razão (...)".

Procurou então, os aspectos de permanência e a insistir o que aí se pode reconhecer de comum: "De tal sorte que, através da sua demonstração, se tem por vezes o sentido de que os filósofos se contentam em repetir, em uma linguagem diferente, o que já dizia o mito".

Resta agora, não mais buscarmos na filosofia o que há de mais antigo, mas de destacar o que há de verdadeiramente novo: "aquilo que fez precisamente com que a filosofia deixe de ser mito para se tornar filosofia.".

Faz surgir um pensamento atrelado a uma nova gramática, com amplitude, limites e condições diversas. Se o conhecimento das coisas, na mitologia, é poeticamente inspirado pelas musas, na filosofia ele é provocado pela racionalização, ou seja, toma a forma de um problema a ser resolvido. O conhecimento de saberes que o mito explicita está dado; na filosofia, deve ser buscado.

A cosmologia (ordenamento do lógos, portanto lógico) dos primeiros filósofos revela que suas noções fundamentais (segregação a partir da unidade primordial, luta e união incessante dos opostos, mudança cíclica e eterna) emergiram de um pensamento mítico, cosmogônico: "Os filósofos não precisaram inventar um sistema de explicação do mundo: acharam-no já pronto.".

O portentoso abismo entre o Céu (Ouranós) e a Terra (Gaia), amainado pelo mito foi aberto pelos pré-socráticos. Da agonia, nos consolam melhor os deuses; À aventura, nos inquieta mais a filosofia.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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