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FILOSOFIA Destino, Liberdade e Ética

03/01/2012 por Luciene Félix

Provavelmente, em algum momento de extrema angústia, perplexo, você ergueu os olhos aos céus e, munido da mais aguda e desperta ratio, empreendeu uma luta hercúlea, buscando explicação lógica para uma pequena ou portentosa tragédia pessoal.

Os tragediógrafos gregos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, versaram sobre as atemporais mazelas da vida. Esses premiados literatos registraram de forma magistral o inexorável peso do Destino e dos caprichos Fortuna (Tyché) sobre o Homem.

 Do alinhavar da predestinação implacável à paulatina descoberta do Homem enquanto portador de uma alma (psyche) em relação com os demais a tragédia grega assinala a aurora do Ethos - hábito, conduta - que culmina em nosso "e;habitat"e;.

 Será então, embalada por esse avanço (ainda que tímido) na liberdade de agir que emergirá um novo Ethos. Como reitera o filósofo Henrique Claudio de Lima Vaz, "a descoberta da alma assinala a emergência de uma nova figura do indivíduo no centro da reflexão ética.". Ao presunçoso, mas desamparado filho da physis (natureza), logra êxito o lógos verdadeiro. Tornamo-nos também, filhos da virtude e da razão.

 Em contraponto às inescrutáveis razões da physis, onde o indivíduo sofístico erige e circunscreve o palco do Ethos movido pela cega vontade de poder (subjugado pela hybris, a desmedida e, portanto refém do Destino), desponta o herói (ou heroína, como Antígona) e, na sequência, emerge o ponderado indivíduo socrático, cujo Ethos é circunscrito no agir virtuoso, na ação justa, portanto, razoável.

 Lima Vaz aponta que na ação razoável, "que é igualmente a práxis justa e virtuosa, deverão conciliar-se desejo, razão e liberdade." Essa possibilidade fora negada ao herói trágico, pois, encapsulado por seus desejos e paixões, o não deliberar restringia seu potencial de liberdade.

 Os "nós" desse entrelaçamento são didaticamente expressos pelo filósofo Mario Sérgio Cortella: "Ética é o conjunto de princípios e valores que usamos para decidir as três grandes questões da vida: quero [desejo]? devo [razão]? posso [liberdade]?".

Cortella então prossegue, chamando a atenção para o fato de que: "Tem coisas que eu quero, mas não devo; que eu devo, mas não posso e que posso, mas não quero (...). Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve." Seria perfeito!

E, se mesmo agindo somente depois de prudente deliberação, de forma sensata, segundo a excelência do Bem, a "realidade enigmática e hostil do mundo e da vida", o Destino, se opor à ação virtuosa, revelando-se cego e fatal? Noutras palavras, "como ousar prolongar o caminho da Ética como ciência do ethos no interior da obscuridade impenetrável que envolve a temerosa montanha do Destino?", indaga Henrique Claudio de Lima Vaz.

Essa interrogação, diz ele, encontrará no mundo antigo a resposta da mais impressionante grandeza e da mais desoladora resignação: "quando o Estoicismo tiver elevado a razão do Sábio à própria altura do Destino, então transfigurado em pronoia, providência racional.".

O que a reflexão ética platônico-aristotélica busca estabelecer é o melhor ajuste possível entre lógos e Ethos. Destino e Fortuna acabam obscurecendo esse ajuste, pois são duas faces incompreensíveis da realidade: "de um lado, a rígida cadeia da necessidade [Destino] que parece ligar seres e acontecimentos nos vínculos de uma infringível ordem universal; de outro, a Fortuna volúvel que distribui de maneira imprevisível a sorte de cada um."

Quando o imponderável se apresenta, mesmo diante da conduta sensata do justo, espantados indagamos: "por quê?" é que "a primeira face [Destino] ergue-se enigmática", diz Lima Vaz. Já a segunda face (Fortuna), também por não obedecer a uma lógica alcançável "ameaça com a sem-razão de uma total contingência as razões do agir segundo a virtude".

Como garantir àqueles que agem virtuosamente o justo direito a uma felicidade "que se sobreponha à inelutabilidade do Destino e à inconstância da Fortuna?".

As primevas reflexões sobre Destino e Fortuna nasceram no mito arcaico ANTES "de encontrar no discurso filosófico o seu desaguadouro natural". As tragédias explicitam o confronto "entre o pungente sentimento de impotência em face do Destino e da Fortuna e a inquebrantável energia e a força criadora com as quais o homem grego enfrenta os desafios da ação (práxis)". Desde então, o homem segue "plasmando a sua existência e organizando o seu mundo segundo as normas da razão (lógos) e o alvo da excelência (areté)".

Quando a Paidéia (pedagogia) das tragédias tem por alvo a excelência (areté), diz Werner Jaeger, "mostra que a experiência do Destino e da Fortuna, longe de alimentar um resignado fatalismo na alma grega, estimulou todas as suas energias para responder, com a criação da Ética e da Política, à ameaça do niilismo moral (...)".

Nas tragédias áticas trava-se o embate entre Razão X Destino/Fortuna. Ou, como poeticamente se expressa Lima Vaz: "o entrecruzamento da linha horizontal da vida traçada pelo precário e trabalhoso saber humano e a linha vertical do majestoso desígnio divino que desce das alturas de uma inalcançável transcendência". Eis a essência de nossas pequenas ou grandes tragédias.

A famosa inscrição no Templo de Apolo, em Delfos: "Conhece-te a ti mesmo", diz ele, "conduzirá ao recesso mais íntimo do indivíduo, que a tradição consagrará com o nome de "e;consciência moral"e;".

 Mas, quais são os remédios capazes de curar dos males da existência quando, mesmo sendo razoáveis, virtuosos e dignos, surpreendidos pelo Destino (Moira), deparamo-nos com assombrosos obstáculos, aparentemente instransponíveis?

 Lima Vaz afirma que essas interrogações são decisivas e que acompanham a formação do pensamento ético e em torno das quais se adensa, pouco a pouco, a ideia de uma "e;vida interior"e; do virtuoso, da alma (psyche) no sentido socrático e, será no âmbito dessas ideias que o Destino e a Fortuna serão finalmente compreendidos pelas razões de uma "Razão superior".

Para o filósofo, é possível "descobrir no homem aquela parte de seu ser - a melhor - pela qual ele é capaz de libertar-se da cadeia dos males e elevar-se à verdadeira eudaimonia [felicidade] (...) pela convicção de que a práxis obediente à norma do lógos torna-se capaz de vencer os males advindos do Destino".

Consciência moral, responsabilidade dos homens, não somente capricho dos deuses embasa consciência tranqüila, assim, alcançamos o que ele chama de "uma nova e superior forma de felicidade que tenha a sua sede na interioridade racional da psyche e seu fundamento no lógos verdadeiro".

Será na estrutura lógica do agir humano que a liberdade - contraprova do Destino - terá assegurado seu lugar: "À luz do Sol do Bem (...) a sombra do Destino recua (...).", da instabilidade e do fluxo dispensador de penas e alegrias é possível que emirja a grandeza e nobreza inata do homem, capaz de aprender com o sofrimento. Porque faz parte.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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