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LÍNGUA PORTUGUESA Dê voto àquele que o português devota!

01/09/2014 por Eduardo de Moraes Sabbag

É tempo de eleições. Ninguém está livre do horário político. A todo instante, surge a voz de um candidato, no rádio ou na tevê. Vendo os programas dedicados a tal horário, perceberá o espectador que não são graves apenas as promessas vãs lá difundidas, mas os crassos erros de português. Se a fala do candidato se apresenta dissonante do bom português, a legenda parece ser pior. As letrinhas propõem-se a traduzir a fala dos anunciantes, porém revelam uma verdadeira “conversa entre loucos”: os candidatos não sabem falar; a legenda não corresponde ao que falam; e nós não sabemos o que dizem, pois tudo atenta contra o idioma!

 

Há poucos dias, sentado ao sofá de minha casa, vi-me na presente situação: estava diante da tevê, exercitando o que minha avó recomendava de há muito – a boa escolha do candidato, à luz de suas propostas políticas. Em pouco tempo, a “escolha” se transformou em hilária aula de português. Anotei tudo. Nas linhas seguintes, passarei a revelar o que ouvi.

 

Um trecho de certa legenda trazia “perceguido” (com -c) e “falças pesquisas” (com -ç). Por acaso, tais políticos conhecem o dicionário?

 

Outro mostrava “pesso seu voto” (com -ss) e “fraldulentamente” (com -l). Teve até candidato à Presidência que soltou um tal de “heTAcombe”, em vez de “hecatombe”! É inacreditável! Seria cômico se não fosse sinistro!

 

De fato, é duvidosa a importância desse tipo de propaganda. Há candidatos que não conseguem se comunicar! Há outros que são deselegantes e grosseiros! É pouco aquilo que se aproveita, sem contar o descaso com o idioma, tradutor de falta de civismo, o que talvez não saibam...

 

Enquanto anotava as cincadas, fui surpreendido com mais “curiosidades”: “empobresse” (com -ss) e “obcessão” (com -c). Acreditam? Aliás, no programa político seguinte, a legenda voltou corrigida, porém só retificaram a primeira palavra – escreveram, finalmente, “empobrece”. Que bom! A outra palavra manteve-se com a grafia errada! Teria sido “demais” para eles?

 

Não é possível que os eleitores tenham que passar por isso: escolher pessoas, para representarem seus anseios nas casas legislativas, as quais não dominam a palavra. Por acaso, atuarão “fazendo gestos”, como os primatas, sem usar a linguagem?!

 

O fato é hilário e triste, ao mesmo tempo. “Hilário” porque se trata de pessoas que se propõem a defender interesses alheios sem que possuam a instrução adequada; “triste” porque são elas o retrato fidedigno da ignorância do povo brasileiro, que recebe educação a conta-gotas...Uma pena!

 

Narrando tal episódio no trabalho, um funcionário logo me trouxe um envelope que havia recebido em casa. Era uma cartinha de político – a tal mala direta. A propaganda começava com o seguinte atentado às regras básicas de concordância: “Fazem oito anos que...”. Será que tal “santinho” serve pra rascunho? Acho que nem pra isso...Há que se conhecer a regra: “Faz oito anos que...”!

 

Outro funcionário narrou-me que captou no rádio as seguintes pérolas:

(I) “cidadões do meu Brasil!”, (II) “a gente podemos melhorar nosso país” e (III) “quando trabalhamos tudo juntos nós somos mais fortes...”

A corroborar as burlescas passagens, peço vênia para narrar o que ouvi em certa palestra proferida por um político:

Com o apoio que o povo está me dando, SINTO-ME JÁ no governo...

 

Muitos que estavam na platéia começaram a rir. Qual o motivo? O vício é conhecido por “cacófato”. Deve ser evitado. Perceba o sentido dúbio da frase, em razão da sonoridade desaconselhável. A sequência “me já” provoca um som ligado à pronúncia de verbo sinônimo de urinar – o tal “mijar”, aliás, acolhido pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e por dicionários famosos.  Note que os políticos, quando não se acautelam, tornam-se toscos, quando não ridículos, em seus discursos.

 

Sem pretender justificar a apresentação dos candidatos, saindo em sua defesa, vale registrar que a tevê possui uma linguagem específica. Figuradamente, seriam duas doses de emoção para uma de razão. É sabido que quem a procura quer, sobretudo, distração. O candidato, quando se vale de tola verborragia, quer enaltecer a sua identidade, o modo como fala – certo ou não –, em detrimento do conteúdo de sua proposta. O prejuízo, naturalmente, daí advém.

 

O problema é que há excesso de erros! A situação já virou piada. Outro dia, presenciei um diálogo entre jornalistas que, diante de um texto repleto de erros, perguntavam-se: “será que isso vai passar em algum horário político?

 

Que triste! Quando tal horário se torna o “palco de diversão”, as coisas parecem não andar muito bem...

 

Uma pergunta que não cala: seria possível fazer algo?

 

Não arriscaria propor uma solução, entretanto é sabido que, atualmente, busca-se fortalecer a língua portuguesa no mundo. A comunidade dos países lusófonos procura caminhar nessa direção. Nosso idioma é uma das línguas mais faladas no planeta. A postura caricata desses políticos, incautos candidatos a uma nobre missão, apresenta-se estranhamente inconcebível. É necessário cautela. Se o erro linguístico depõe contra quem o cometeu, temos mais um motivo para votar com consciência.

 

Proponho, pois, um trocadilho: “Dê VOTO àquele que o português DEVOTA!”

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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