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ENSAIO Cruel diálogo da Delação Premiada

 

Entrou na luxuosa sala da presidência da empresa, sem ser antes anunciado. Gravata azul marinho, quase da cor do paletó, que, apesar de seu corpo grande, estava folgado. Sentado à mesa, o Presidente assustou-se, claro, quando ele fechou a porta detrás de si. com a mão na maçaneta, sem bater. Um silêncio tão intenso no ambiente quanto no próprio rosto do visitante, pois dizer que seu semblante era inexpressivo era pouco. O Homem simplesmente não tinha rosto.

 

            _ Eu sei que você está armado, apesar de toda a segurança aí fora. Eu tenho as mãos livres, disse o Presidente da Companhia. O delator.

 

            O Homem-visitante simplesmente caminhou sobre os tapetes felpudos até a mesa do delator, sentando-se em uma das cadeiras de couro branco.

 

            _ Nós sempre traficamos armas, como te deves lembrar. Quem já colocou um fuzil suíço dentro do presídio pode tranquilamente entrar com uma pistola no gabinete presidencial de uma Companhia qualquer. Alemã.

 

            _ Nossa Companhia é de capital cem por cento nacional. Não há alemães.

 

            _ Minha pistola é alemã – retrucou o Homem que, se tivesse feição, teria dado um sorriso.- Mas não te preocupes, porque não serás atacado. Eu vim falar brevemente.

 

            O Presidente pareceu abalado, mas logo recostou-se, os cotovelos pegados ao encosto de sua poltrona giratória, para fingir firmeza.

 

            _ Você fala demais, neste mundo tecnológico. Eu posso estar gravando você falar sobre fuzis.

 

            _ Tu estás me gravando, típico. Mas isso realmente não nos intimida.  Ao contrário, talvez nos sirva de algo. Porque comprovar que te passamos este recado será uma garantia nossa. Da nossa honra, digo. Não deveríamos avisar nada, mas o fazemos em nome da velha amizade, fissurada.

            _ Fazer o quê?

            _ Alertar de que estou conversando com um cadáver. Bom, todos seremos cadáveres, mas tu tens hora marcada.

 

            _ É uma ameaça?

 

             _ Um comunicado de que tens data para morrer, como um peru de Natal. Com isso, podes planejar teus dias.

 

            O Presidente levantou-se devagar, as mãos alçadas como para demonstrar inércia. Tentava disfarçar o pânico, mas tremia enquanto caminhava pela ampla sala, e sua voz saía embargada:

            _ Eu não sou um rato, como você pensa.

 

            _ Tens razão. Não és um rato, és um hamster. Ratos podem ser individualistas, mas eles tem instinto de sobrevivência muito mais aguçado. És um hamster pronto para ser sacrificado no laboratório da Justiça, na experiência da Nova Lei de Delatores e Traidores.

 

            O Presidente seguia de pé:

            _ Entenda, eu não sou um delator qualquer. Tecnicamente, sou um colaborador,  alguém que se cansou da corrupção, das coisas erradas deste País. Por isso denunciei nosso esquema.

 

            _ Sim, e coincidentemente tiveste tua pena perdoada – o Homem falava bem pausadamente – Perdoada, claro, à custa...

 

            _ À custa da minha nova amizade com o Estado, entende? Minha pena foi diminuída porque o Estado compreendeu que cumpro meu dever de cidadão brasileiro, um dever para com a Nação, não com um grupo criminoso. Por isso não sou um animal, sou um homem honrado.

 

            _ Estranho, Presidente. Porque jamais vi o Estado perdoar quem cumpre dever, nem mesmo presentear súditos fiéis, que pagam impostos anos a fio. Os amigos do Estado eram presentados no nosso esquema. Outra história.

 

            _ Eu me converti. Sou um cidadão converso ao bem.

 

            _ Eras nosso líder e, quando nos convocaste a todos, esse Estado era teu adversário. Parecia que odiavas as leis da República, e essa condição não mudou: o Estado aplica suas leis, nós aplicamos as nossas. Nesse sentido, minha visita é algo assim como uma intimação legal. Um comunicado de que nossa lei, a lei do nosso grupo, será cumprida, porque anuíste a elas.

 

            O Presidente voltou a sentar-se. Colocou os cotovelos sobre sua ampla mesa e tentou falar mais pausadamente. O Homem sem rosto escutava:

            _ Eu  me converti ao bem, e estou agora diante de um novo acordo, algo que pôs fim ao nosso esquema, mas inaugura uma nova sociedade. Por que vocês não podem me perdoar?

 

            _ Não sejas apelativo, sabes que o perdão não é virtude, quando viola a isonomia. Tu não desejas perdão, queres apenas uma vantagem pessoal, como uma cobaia chorona. Então ouve: não te perdoamos porque nossa lei vige, e vige para todos igualmente.

 

            Os olhos do Presidente brilhavam, como iniciando a lacrimejar. Era sua última tentativa:

            _ Veja, coloquemos as coisas assim: eu apenas mudei de lado, e gostaria que vocês viessem para ele também. Para o futuro, de uma sociedade melhor.

 

            O interlocutor sem rosto apenas moveu a mão direita, fechando-a com força. Sua voz era grave:

            _ Pois então permite-me dizer que escolheste o lado errado, meu caro Jedi. Como dizia aquela canção, haveria que tomar conta da amizade, mas já não há tempo. Porque nós sempre te mantivemos protegidos do Estado; porém o Estado, como visto, não te protege de nós. Prova maior: que aqui estou eu. Mas, com todo o respeito, não vim bater boca.

 

            _ O Estado me dá direito de defesa, sabia?

 

            _ Se acreditasses em Direito de Defesa,  farias exercício dele, em lugar de aceitar acordos espúrios. Se eu fora tu, apenas assumiria, neste instante exato, que fostes convertido de traidor a traído. Progressivamente, te dás conta de que a República te passou a perna, usando de tuas informações e te devolvendo ao mar de tubarões, depois de botar a pique tua nau. Triste.

 

            _ Triste demais.

 

            _ Estás a nosso alcance, a não ser que creias que serás ainda resgatado. A não ser que creias que, neste País de banquetes e calabouços, haverá verba para um Programa de Proteção a Testemunhas. Não caíste nessa, não?

 

            O Presidente baixou a cabeça, repousando-a entre os braços. Ao erguê-la, pouco depois, via-se que chorava:

            _ Não, eu não acredito em proteção. Eu fui traído mesmo.

 

            _ Melhor ouvir isso, do contrário começaria a duvidar de tua inteligência. Difícil, porque foste sempre o mais astuto, o mais erudito, o mais veloz de todos nós. Nosso líder, nosso chefe, aquele que sempre dissera que seríamos únicos testemunhas e juízes de nós mesmos.

 

            _ Eu fui traído, entende? – gritou mais alto e em prantos, mas o interlocutor ignorou.

 

            _  Ser o mais inteligente não te concede mais moral, mais ética e, menos ainda, mais direitos que qualquer outro de nosso clã. Eu já disse o que deveria, não mates o mensageiro. Tu nos guiavas e éramos teu rebanho.

 

            _ Vocês são os meus amigos de verdade.

 

            O Homem sem rosto apenas levantou-se:

            _ O bom pastor não abandona suas ovelhas, não é assim? Então, é chegada a hora de dar a vida por elas – encheu os pulmões e soltou o ar com sonoridade – Onde foi mesmo que eu li isso?

 

            Os sapatos de pelica negra do Homem sem rosto pressionaram o tapete, porque se levantava.

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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