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FILOSOFIA CONSUMO versus CONSUMISMO ? Zygmunt Bauman (Parte II)

03/01/2013 por Luciene Félix

“A nossa felicidade depende muito mais do que temos em nossa cabeça, do que nos nossos bolsos”.   Arthur Schopenhauer

 

A sociedade de consumidores (doravante “SC”) projeta uma cosmovisão que nos contagia, direcionando nosso olhar sobre a felicidade e a infelicidade. Estamos conscientes dessa contaminação?

Os valores com os quais a sociedade se compromete motiva os comportamentos individuais. Hoje, a tal ‘busca da felicidade’ move, alimenta e alavanca o PIB. Busquemos elucidar, no intrincado engodo de nossa SC, aonde a melancolia encontra refúgio.

O ‘Pai da Psicanálise’, Sigmund Freud, apontou que, basicamente, o ser humano busca o prazer e evita a dor, ao que Zygmunt Bauman corrobora: “desejam a felicidade e evitam a infelicidade”. E esclarece: “os dois conceitos assinalam a distância entre a realidade tal como ela é e a uma realidade desejada (...)”.

A atual SC orquestra uma ‘renegociação do significado do tempo’, perpetuando o prazer que, incansável e incessantemente, queremos repetir. Dogmática, a ‘obrigação’ de ser feliz, o tempo todo, tornou-se vício.

O valor supremo da SC está numa vida feliz e é a essa ‘vida feliz’ que todos os outros valores são instados a justificar seu mérito: “A sociedade de consumidores talvez seja a única na história humana a prometer a felicidade na vida terrena, aqui e agora e a cada ‘agora’ sucessivo. Em suma, uma felicidade instantânea e perpétua”, afirma o sociólogo.

Ser feliz a todo instante se tornou tão imperativo que “(...) a infelicidade é crime passível de punição, ou no mínimo um desvio pecaminoso que desqualifica seu portador como membro autêntico da sociedade (...)”. Até a lua é de fases, mas nós, nem por um instante, podemos minguar.

Habitando uma sociedade que tem como télos (propósito, objetivo, finalidade) reforçada imposição do prazer, somos levados a nos autoavaliar ininterruptamente, sem perspectiva histórica, pela acumulação e repetição de momentos apoteóticos “em um grau desconhecido e dificilmente compreensível a qualquer outra sociedade de que se tem registro”. Prima-se pela constância em felicidade, sempre atrelada ao poder de consumo, proporcionada por maiores rendimentos.

Mas, quanto ao impacto do dinheiro sobre o sentimento de felicidade, Bauman cita que Richard Layard recolheu evidências de que isso só ocorre até o patamar que coincide com a satisfação das necessidades básicas, de sobrevivência, essenciais ou naturais.

Ocorre que a SC induz à ampliação desse patamar: “tenta afastar, ou pelo menos marginalizar, substituindo-os por desejos mais flexíveis e grandiosos e por vontades mais caprichosas e impulsivas”, afirma o sociólogo.

Contrariando o que os marqueteiros insistem em garantir e as crenças mundanas endossam, ganhar mais não garante, necessariamente, aumento no volume da felicidade: “o consumo não é um sinônimo de felicidade nem uma atividade que sempre provoque sua chegada”. Atentemos ao fato de que, inócuo o consumo como ‘fator de felicidade’, naufraga quando se trata das necessidades do ser ou das realizações pessoais.

A infelicidade – melancólico desconforto – que a SC acarreta, parece notória. O estudioso destaca alguns sintomas evidentes: extenuantes jornadas de trabalho, falta de autoconfiança, conflitos e fracassos nas relações amorosas e/ou familiares, insegurança sobre estar ou não estabelecido de maneira razoável, a necessidade de ‘ter razão’ e o excesso de informações, que tendem a crescer em frequência, volume e intensidade.

De fato, com tantas as informações disponíveis, se faz necessário desenvolver a habilidade de filtrar as indesejadas. Segundo Ignacio Ramonet: “Nos últimos 30 anos se produziu mais informação no mundo do que nos 5 mil anos anteriores (...) Um único exemplar da edição dominical do New York Times contém mais informação do que a que seria consumida por uma pessoa culta do século XVIII durante toda a vida”.

Entretanto, por ser mais capaz de discernimento, desconfio que uma pessoa ‘culta’, consuma com qualidade, alcançando maior plenitude.

Bauman esclarece que o conceito de ‘melancolia’ representa, em seu uso atual “não tanto um estado de indecisão, uma hesitação, entre seguir um ou outro caminho, mas um recuo em relação às próprias divisões. Ele representa um ‘desenredamento’ em relação à ‘estar atado a qualquer coisa específica’”.

Paralisante, a melancolia é “um distúrbio resultante do encontro fatal entre a obrigação e a compulsão de escolher/o vício da escolha e a incapacidade de fazer opção (...) e pela indisponibilidade de critérios fidedignos capazes de separar o relevante do irrelevante e a mensagem do ruído”.

A ser afugentada a qualquer custo, a infelicidade constitui a matéria-prima da SC que, paradoxalmente, “prospera enquanto consegue tornar perpétua a não satisfação de seus membros (...)”. Curiosamente, o pharmakon que essa sociedade oferece gera ainda mais daquilo que se diz combater, a insatisfação.

O renomado sociólogo alerta que o medo é a principal causa da variedade líquido-moderna de infelicidade e que uma economia orientada para o consumo “promove ativamente a deslealdade, solapa a confiança e aprofunda o sentimento de insegurança.”.

Como uma Hydra, a SC satisfaz cada desejo, cada vontade com tal incompletude que a pseudo-satisfação fomenta mais do mesmo, outros novos desejos e vontades: “O que começa como um esforço para satisfazer uma necessidade deve se transformar em compulsão ou vício”.

Vício encorajado, avidamente perseguido e propositalmente aporético, pois a promessa deve ser enganadora, ou ao menos exagerada: “O domínio da hipocrisia que se estende entre as crenças populares e as realidades das vidas dos consumidores é condição necessária para que a sociedade de consumidores funcione de modo adequado”.

O tempo todo, somos bombardeados com mais opções e ‘incríveis’ ofertas: “É o excesso da soma que neutraliza a frustração causada pelas imperfeições ou defeitos de cada uma delas e permite que a acumulação de experiências frustrantes [try again] não chegue a ponto de solapar a confiança na efetividade essencial dessa busca”.

Apostando na irracionalidade, a viciante ‘economia do engano’, como nomeia Bauman, não cultiva a razão, estimula emoções consumistas, relega o afeto. A fragmentação e o enfraquecimento dos vínculos humanos promove a maior atração da SC: outra rodada de compras!

Vislumbra-se uma vida de abundantes novos recomeços, novas chances e oportunidades de renascimento: “(...) a construção e reconstrução da autoidentidade, com a ajuda dos kits identitários fornecidos pelo mercado [confira a lista em nosso blog] continuará sendo a única estratégia plausível ou ‘razoável’ que se pode seguir num ambiente caleidoscopicamente instável no qual ‘projetos para toda a vida’ e planos de longo prazo não são propostas realistas, além de serem vistos como insensatos e desaconselháveis”.

O espaço que os consumidores líquido-modernos necessitam, diz Bauman, só pode ser conquistado expulsando outros seres humanos – em particular os que não se enquadram, os tipos que se preocupam ou podem precisar da preocupação dos outros.

Dotada de instrumentos de coerção e meios de persuasão ocultos, a SC avalia, recompensa e penaliza segundo a prontidão da resposta ao consumo, nos levando a perseguir esse objetivo de vida como sendo o alfa e o ômega de nossa existência.

Sórdido, desumano, o status de excelência ou inépcia ao consumo é reforçado como principal fator de estratificação e no maior critério de inclusão e exclusão.

Pautada por uma dinâmica perversa, a SC, além de orientar a distribuição do apreço e dos estigmas sociais (reduzido a poder ou não poder TER), confunde o ser humano, fazendo-o sentir-se inadequado, indigno, incapaz de SER.

Tags: Filosofia

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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