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LÍNGUA PORTUGUESA Concorde com a Concordância

01/09/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag

A concordância verbal é um tópico gramatical que demanda uma boa dose de dedicação do estudioso que pretende dominar a sua extensão.

Nota-se que, diante de uma mesma regra, os gramáticos defendem posicionamentos diversos - às vezes, antagônicos -, existindo, também, aqueles que adotam soluções conciliatórias, à luz do que seria "mais recomendável".

No dia 10 de agosto de 2009, o jornal "Folha de S. Paulo", na chamada de capa, estampou uma importante construção frasal, afeta à temática da concordância verbal:

 

"33% do Senado é alvo de inquérito ou ação judicial."

 

O contexto político, em si, estampado na manchete, revela-se naturalmente inquietante a todos. Entretanto, ao deparar com a notícia, sem embargo de lamentar o problema político revelado, senti-me instigado a explorar o seu viés gramatical, analisando a construção oracional: será que "33% do Senado É alvo" ou "33% do Senado SÃO alvo"?

Quando o sujeito é representado por expressão indicativa de porcentagem, a gramática normativa impõe que o verbo deve concordar com o numeral OU com o substantivo a que se refere a porcentagem. Exemplos:

30% do país estão inadimplentes. (A concordância verbal de "estão" se fez com "30%"); ou

30% do país está inadimplente. (A concordância verbal de "está" se fez com "país");

e

40% do eleitorado se abstiveram de votar. (A concordância verbal de "abstiveram" se fez com "40%"); ou

40% do eleitorado se absteve de votar. (A concordância verbal de "absteve" se fez com "eleitorado").

 

Em 2007, a propósito, em item de concurso público, realizado pelo CESPE/UNB, para o cargo de Analista Judiciário do TST, considerou-se correta a frase abaixo:

"(...) Tudo indica que mais de 70% do trabalho no futuro vão requerer a combinação de uma sólida educação geral com conhecimentos específicos (...)"

Observe que a concordância verbal de "vão" se fez com "70%".

Da mesma forma, outros exemplos mostram-se pertinentes, ao reforçarem a regra anunciada. Note-os:

 

- "Cerca de 40% do território ficam abaixo de 200 metros". (Antonio Houaiss). Observe que a concordância verbal de "ficam" se fez com "40%".

- "Quase um milhão de homens se move naquelas ruas estreitas, apertadas e confusas." (Eça de Queirós, O Egito). Observe que a concordância verbal de "se move" se fez com "um milhão".

- "Um quinto dos bens cabe ao menino". (José Gualda Dantas). Observe que a concordância verbal de "cabe" se fez com "um quinto".

- "A sondagem revelou ainda que 73% da população acreditam que a situação do país piorou". (O Estado de S. Paulo, 29/01/92). Observe que a concordância verbal de "acreditam" se fez com "73%".

Por outro lado, frise-se que, se o termo especificador vier pluralizado, a concordância será única, ou seja, apenas no plural:

30% dos PAÍSES estão inadimplentes. (A concordância verbal de "estão" se fez com "30%" ou, indistintamente, com o termo especificador "países"); ou

40% dos ELEITORES se abstiveram de votar. (A concordância verbal de "abstiveram" se fez com "40%" ou, indistintamente,  com o termo especificador "eleitores").

 

Observe, ainda, um exemplo colhido da literatura que ratifica o entendimento:

"Na União, 90% dos homens andavam armados". (Povina Cavalcânti)

Nessa hipótese, a concordância verbal de "andavam" se fez com "90%" ou, de modo indistinto, com o termo especificador "homens".

 

Além disso, urge mencionar que, se o numeral vier com determinantes (artigos, pronomes, etc.), o verbo concordará, obrigatoriamente, com eles, quer no singular, quer no plural:

Os 10% da dívida foram pagos à vista. (A concordância verbal de "foram" se fez com o artigo "os").

Os comentados 8% da dívida foram perdoados. (A concordância verbal de "foram" se fez com o artigo "os").

Este 1% dos estudantes estudou pouco o tema da palestra. (A concordância verbal de "estudou" se fez com o pronome "este").

E, ainda: se o verbo vier anteposto à expressão de porcentagem, a concordância será feita com o número de percentagem empregado. Exemplo:

Serão importados 50% da produção chilena. (A concordância verbal de "serão" se fez com "50%").

Perderam-se 30% da produção vinícola. (A concordância verbal de "perderam" se fez com "30%").

Fizeram a prova, no domingo, 85% dos candidatos. (A concordância verbal de "fizeram" se fez com "85%").

Todavia, havendo menção a "1%", recomenda-se a forma no singular:

Compareceu à prova, no domingo, 1% dos candidatos. (A concordância verbal de "compareceu" se fez com "1%").

 

Destaque-se, em tempo, que, acerca desse último exemplo, desponta o item considerado INCORRETO, em concurso público realizado pelo CESGRANRIO, em 2008, para o cargo de Assistente Administrativo do INEA/RJ. Observe:

"Apresenta boa qualidade para consumo 2,5 % das águas do planeta."

Veja que a concordância verbal de "apresenta" não se fez com "2,5%". Como o verbo "apresentar" vem anteposto à expressão de porcentagem" (2,5%), a concordância deverá ser feita com o número fracionário empregado, portanto, no plural:

"Apresentam boa qualidade para consumo 2,5% das águas do planeta."

 

Aliás, no caso em apreço, o singular seria de rigor se a expressão de percentagem fosse, por exemplo, 1% ("Apresentou boa qualidade para consumo 1% das águas do planeta."), o que não aconteceu.

 

Prosseguindo-se na análise de mais situações, questionar-se-ia: como fica a concordância nas hipóteses em que o percentual aparece isoladamente, sem o especificador? Vale dizer "1% aprovou (ou aprovaram) as medidas do Congresso Nacional?"; e, ainda, "18% concordou (ou concordaram) com as novas leis?".

 

Nesses casos, a concordância verbal deve se dar com o numeral fracionário. Portanto, "1% aprovou", mas "18% concordaram".

 

É que, se não houver especificador para a expressão de percentagem informada, será o numeral que regerá a concordância: para o número um (por cento), prevalecerá o singular; nos demais casos (a partir de dois por cento), valerá a terceira pessoa do plural. Exemplos:

 

Enquanto 1% se ABSTEVE, 2% (ou mais) se ABSTIVERAM; enquanto 1% se SATISFEZ, 2% (ou mais) se SATISFIZERAM; enquanto 1% se MANTÉM, 2% (ou mais) se MANTÊM; enquanto 1% VEM, 1,5%, igualmente, VEM, mas 2% VÊM; e, por fim, à luz do novo Acordo Ortográfico, enquanto 1% VÊ, 2% (ou mais) VEEM (sem acento circunflexo).

 

Por derradeiro, quanto à manchete publicada no jornal Folha de S. Paulo, penso, definitivamente, que a frase em discussão ("33% do Senado é alvo de inquérito ou ação judicial") está gramaticalmente correta. A expressão de percentagem não veio acompanhada de determinante (um artigo, ou pronome, no plural), o que levaria o verbo obrigatoriamente para a terceira pessoa do plural ("OS 33% do Senado SÃO alvo(s) de inquérito ou ação judicial"). Daí se admitir com tranquilidade a construção realizada naquele veículo de comunicação.

Entretanto, é possível admitir como válida a outra construção para a manchete do jornal. Note-a:

"33% do Senado SÃO alvo(s) de inquérito ou ação judicial".

Evidencia-se, caro leitor, que o estudo da concordância verbal é desafiador! É necessário estar em dia com as regras gramaticais para que se possa responder às questões com um bom nível de informatividade gramatical.

 

Tenho dito, em trocadilho, que, se o termo "concordar" significa "pôr-se de acordo, conciliar", faz-se necessário muito estudo para que, de fato, "concordemos com a concordância".

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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