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MEDIDAS DE SEGURANÇA Caso Glauco: e agora, falar o quê?

03/10/2014 por Antonio José Eça

Novamente, corro o risco de ter as orelhas “puxadas” pelo meu editor, porque ele está querendo que eu discuta outros pontos da Psiquiatria Forense que não o aspecto criminal, com aliás já falamos antes; mas é como nas minhas aulas, quando os alunos perguntam: qual caso vamos discutir agora? E eu respondo : “calma que a cidade, o estado ou o país já já dão algum caso para a gente discutir”.

 

E não tem sido diferente desde sempre, quando à todo tempo estão acontecendo coisas que acabam por fazer o pensamento desviar da ideia original de discutir algo não criminal nesta nossa coluna; tal é o que está acontecendo novamente agora.

 

Se os leitores forem lá na relação dos meus artigos, (no site do jornal isto é possível), vão encontrar em março de 2013, um deles que fala sobre o eventual fato de alguém ter alta da medida de segurança muito “cedo”. O artigo se chama “mas já vai ter alta”, e discutia a possibilidade de que se concedesse alta precocemente para um delirante criminoso que havia matado um cartunista famoso da capital, no caso que ficou conhecido como “Caso Glauco”.

 

E naquela oportunidade já havia quem na opinião publica ficasse alarmado com o eventual fato de que tal indivíduo poderia vir a obter alta da medida de segurança à qual estava submetido.

 

Ingenuamente, discutimos vários argumentos que haviam sido dados para sua soltura e rebatendo todos eles, dizíamos que tal indivíduo não poderia obter alta, por uma serie de motivos psiquiátricos sérios e até perigosos!

 

Mas, o que aconteceu? Mesmo com a preocupação de parte da sociedade, a Juíza do feito e os psiquiatras da instituição na qual “Cadú” estava internado, acharam que ele estava bom para sair... e o liberaram....

 

O resultado todos já sabem: Cadú solto, cometeu um latrocínio! isto é matou mais um!

 

Nestas horas, pergunta-se: de quem, é a responsabilidade? Claro que os médicos daquela clínica vão dizer que “foi a juíza quem o soltou”, e esta, por sua vez, vai falar que ‘os médicos é quem deixaram”! Quer dizer, empurra-se a responsabilidade para o outro, já que, como sempre, vai ficar por isso mesmo!

 

Pois é, o que entristece é que fica por isso mesmo sempre! Existem mais coisas acontecendo neste país que ‘ficam sempre por isso mesmo’ e, como falava Chico Buarque em uma música, “a gente vai levando...”

 

Às vezes pensamos: será que vale a pena brigar tanto por uma seriedade de pensamento que envolva a Psiquiatria Forense, se parecemos mais um ‘’Don Quixote” lutando sozinho contra moinhos de vento do desinteresse em se levar a sério tal área do conhecimento e que faz parte das ciências afins ao Direito, que ‘tem como fim principal, fornecer subsídios para que seja bem e fielmente cumprida a lei, da maneira que o deve ser’ (pelo menos é o que ensinamos aos nossos alunos)....

 

Cremos que temos estado um pouco desolados, pois sempre tem quem critique, sempre tem quem nos ache exagerado....será exagero? Ou será apenas conhecimento da área, (coisa que alguns psiquiatras clínicos comuns não tem - destes que trabalham em clinicas psiquiátricas comuns e correm o risco de permitir a soltura de um doente incurável), e coisa que alguns Juízes de Direito também não tem (destes que acham que podem permitir a soltura de um doente mental incurável, criminoso de morte com apenas três anos de internação)...

 

Como já falamos inúmeras vezes, se precisaria de técnicos que entendessem de Psiquiatria Forense na sua acepção real, séria e verdadeira, fossem estes operadores do Direito, fossem eles médicos  psiquiatras ......Enquanto isto, a ‘coisa vai’, a vida vai, ‘a gente vai levando’...  

 

E vai levando até quando? Naquele artigo havia falado que

 

‘...lembrem da minha velha máxima: se acredita tanto na ‘cura’ do indivíduo, leve-o para sua casa....’

 

Mas não, a Juíza do feito não o levou para casa...os médicos do hospital em que estava internado, não o levaram para casa....e quem levou foi o taxista.....taxista este que não voltou para casa!

 

Pensem nisto....

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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