Página Inicial   >   Colunas

ENSAIO Carta ao advogado de sucesso

 

            Estimado Colega,

 

            Não temas, porque esta não é uma carta aberta. Tu a receberás selada em vermelho, à moda de alguém como eu, que acaba de cumprir muitos anos de idade. Setenta e quatro. E pela máquina que acabo de revisar e lubrificar, esta antiga Remington que registra no sulfite a pressão de meu humor. A grande arte da datilografia, aprendi há tempos, é fazer com que todas as letras apareçam padronizadas, o que implica a difícil tarefa de lançar a mesma força em cada dedo. Mas tu não te interessas por estes detalhes, porque és jovem, ao menos se comparado comigo.

 

            Deves intuir o tema desta missiva. Pois, na nova sala de reuniões do teu escritório, semana passada me chamaste de cachorro. “Cachorro”, assim, como quem menospreza, o que é sinal de teu caráter. Se conhecesses mesmo os cães, saberias que teu impropério foi na verdade um potente elogio, porque, digo eu, fidelidade e coragem caninas são hoje as mais raras virtudes ao homem. O que até me lembra, nestes tempos de carnaval, uma gafieira que nós bailávamos e que dizia... Não lembro exatamente o que dizia, mas era sobre cães.

 

             Voltemos, se me permites, ao início da cena, da qual pinçarei dois aspectos, a meu arbítrio. Diante de teu cliente, apresentaste-me como “o criminalista”, e fizeste os comentários de praxe nas apresentações, reveladores novamente de tua personalidade: que acabaras de pagar cerca de trinta mil dólares pela reforma e mobiliário daquela iluminadíssima sala de reuniões, e que tua esposa te trouxera, da Suíça, o reluzente relógio que trajavas. Logo depois, me chamaste de ‘cachorro’.

 

            Pois vou te contar uma história sobre relógios. Já reparaste no meu? Claro que sim: um velho relógio japonês, que vale muito pouco, o que indica que seu usuário não é um burguês como tu, conquanto te auto-consagres homem das esquerdas. Regressando: o relógio nipônico guarda um interessante segredo, jamais revelado. Presta atenção.

 

            Décadas atrás estava eu na Colômbia, uma viagem para pacificar a desavença de um cliente meu com um sócio de lá, se é que me entendes. Eu, mais jovem, mas com terno puído, meu sapato desgastado, a gravata de crochê e um gordo maço de dólares no bolso. Em um almoço que tive por Bogotá, meu comensal abriu sobre a mesa do restaurante um feltro negro. Sobre o feltro, uma dúzia de diamantes, grandes. Disse que conhecia um relojoeiro o qual, se eu assim desejasse, encravaria dez diamantes daqueles em um relógio barato, o que me permitiria vender aquelas pedras, na Europa, com lucro absurdo. [Antes que me prediques de ‘contrabandista’, lembra, nobre paladino da Ética, que o Rolex que trazes no pulso também suprimira todos os tributos de importação].

 

           Entendeste aonde chegarei? Talvez não, porque és um tanto obtuso. Eu comprei em Bogotá meu discreto relógio e nele mandei incrustar sete diamantes. E o que fiz com os diamantes depois disso? Nada. Eles seguem há anos no meu pulso, sem que ninguém, a não ser eu e agora tu, o saibamos. O valor monetário de, ao menos, vinte relógios como o que exibes tu está atado à munheca deste... deste cachorro.

 

            Algo análogo ocorre em meu escritório, que jamais visitaste porque fica no centro da metrópole, a cidade baixa. Pois em minha sala de reuniões, que coincide com minha sala de trabalho, há apenas uma mesa de jatobá maciço, que paguei a prestações quando recém formado. E, atrás de mim, pende uma tela a óleo húngara, a qual, se vendida a um colecionador, pagaria algumas reformas como a que fizeste em tua sala de reunião, com teus milhares de dólares investidos para deixar aquele espaço com a qualidade estética de uma recepção de dentista, com assentos duros como Cadeira do Dragão. Não sabes o que é a Cadeira do Dragão, caro comunista? Não te preocupes: nada me deves por eu haver sentado nela algumas vezes, para garantir a democracia de que desfrutas hoje. Esta missiva não é uma carta de cobrança.

 

            Bem dito, deixemos de lado as idiossincrasias do passado e falemos desse “hoje”.

 

            Hoje. Caso não o tenhas notado, meu aspecto empobrecido é parte efetiva do meu trabalho. Para ser teu cachorro, para ser o homem que anda nas delegacias e nos tribunais negociando malas e envelopes, devo aparentar austeridade. Do contrário, aumenta o preço da propina. Quem tem de demonstrar que necessita bancar uma vida de luxo é a parte contrária, com seu Camaro novo parado à porta do Distrito, ou a foto do gado na fazenda de Sua Excelência. Sinalizações propositais dos ganhos incompatíveis, que todos, à exceção da Corregedoria e da Receita Federal, notamos à distância.

 

            Mas tampouco quero destilar rancores. Apenas noticio que estou para me aposentar, e isto te trará um problema algo importante. Porque, sem meu trabalho - salvo que tenhas que adotar uma única conduta, de que falarei depois – teu escritório está fadado à bancarrota.

 

            Tu não o pensaste assim, mas creio que o intuis, porque és um homem do comércio também.  Ainda que disfarces essa condição vomitando ladainha socialista, enquanto tua copeira-nordestina-uniformizada nos serve café suíço de cápsula, com aquele perfume de baunilha delicioso. Perfume do café, não da copeira. Tu de fato não cobras parte da propina, ordenas a teu cliente “acerte direto com o cachorro”, mas sabes quanto lucras com a transação: a fidelidade de teu cliente, da empresa dele. Afinal, ele está feliz porque o inquérito contra seu filho, que atropelara o mendigo, evaporou-se, ou porque a sentença do magistrado veio, ao arrepio de qualquer previsão, favorável à empresa. Tudo culpa de autoridades corruptas, contra as quais lanças ofensas restritas ao interior de tua sala reformada. Como diria meu ruralizado pai, cavalo sabido não espanta boiada, correto?

 

            Serás tu então, na minha aposentadoria, como na história do pároco que pede à cafetina para que suspenda a greve das prostitutas, quando se dera conta de que elas, as meninas, eram a garantia da moral na família cristã (Jorge Amado, que jamais leste). Implorarás para que eu volte ao trabalho, que eu siga recolhendo o lixo moral pela porta dos fundos de teu escritório. Mas não mais poderei fazê-lo, porque estou velho.

 

            Restará então a alternativa que eu não quis enunciar antes. Na próxima vez que teu cliente empresário descer o braço no rosto da esposa, tu terás de ser o cachorro, o homem da mala. Deverias gostar disso, porque, em tese, segue tua tendência socialista: recolherás teu lixo com tuas próprias mãos. E, nesse dia, lembrarás desta carta, e eu estarei em descanso, em algum lugar da Costa Azul, discutindo Baudelaire e desfilando meu francês perfeito. Se quiseres, te dou minha gravata de crochê, que sempre funcionou muito bem, mas não te empresto meu relógio velho. Confiaria entregar meus diamantes a qualquer vira-lata, mas jamais a uma hiena.

 

             Falando em animais, veio-me a memória a gafieira que eu bailava. Salvo engano dizia “em cachorro morto eu também bato” ou algo por aí. Mas se referia apenas ao centro do tamborim, de couro de cachorro, entendes? Sim, entendes. Sequer em cachorro morto sabes bater direito, seu covarde.

 

            Feliz quarta-feira de cinzas.

 

 

 

 

 

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2018 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br