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ATUALIDADES Cafusa: Carnaval, Futebol, Samba, Corrupção e Violência

03/01/2013 por Luiz Flávio Gomes

A bola da Copa das Confederações, de 2013, se chamará “Cafusa”, que é o acrônimo formado a partir de três palavras: Carnaval, futebol e samba. Foi apresentada pelo jogador Cafu, capitão do pentacampeonato conquistado pelo Brasil. A palavra “Cafusa” não tem nada a ver com cafuzo, que é o filho de índios com negros. A bola vai se chamar “cafusa” com “s” (porque, repita-se, é um acrônimo). Três fortes elementos da cultura brasileira estão sendo prestigiados neste conglomerado de sílabas: carnaval, futebol e samba.

 

Lamentavelmente, para expressar a realidade cultural brasileira com mais precisão teríamos que agregar ao acrônimo mais duas sílabras: “co” de corrupção e “vi” de violência. “Cafusacovi”, hoje, expressaria com mais fidelidade a realidade (o retrato em branco e preto) do nosso país, que não é só alegria (carnaval, futebol e samba), senão também corrupção e fraudes (mensalão do PT, mensalão do PSDB e do DEM, Rosegate) e muita violência (o Brasil é o 20º país mais violento do mundo e terceiro da América Latina, com cerca de 53 mil mortes em 2012, conforme previsão do nosso delitômetro, no institutoavanteabrasil.com.br). Quando o tema é violência contra a mulher, o Brasil ocupa a 7º posição, dentre 87 países pesquisados (Mapa da Violência 2012).

 

Para a Copa de 2014 será lançada uma nova bola, com o nome de “Brazuca” (palavra que relaciona algo com a cultura brasileira), que lembra “bazuca”, “arma portátil antitanque, usada pelos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial (a partir de 1942) e cujo cano de 75 mm de calibre lança o projétil a cerca de 60 m”. E arma, claro, traz consigo a ideia de violência.

 

O mascote do mundial, um tatu-bola, vai se chamar “Fuleco”,  que seria, como zombeteiramente alguém difundiu na internet, um dos incontáveis apelidos do ânus. Exemplos (anedóticos) do uso da palavra Fuleco (encontrados na internet): “Vai tomar no fuleco!”; “fuleco de bêbado não tem dono”; “Quem tem fuleco tem medo”; “Passarinho que come pedra sabe o fuleco que tem”; “fuleco não tem acento”. Fuleco, de outro lado, lembra a palavra fuleiro, que significa coisa ou pessoa de baixa qualidade, que bem descreve o Brasil em termos de corrupção e de combate a ela.

 

De 0 a 10, nosso país tem nota 3,7 na escala da corrupção (em 2011), tendo caído quatro posições e ocupa o 73º lugar na lista com 183 nações elaborada pela Transparência Internacional. No que diz respeito ao controle e à prevenção da corrupção, como se vê, o Brasil, quando comparado aos países nórdicos, por exemplo, é bastante fuleiro.

 

O grave problema da corrupção enraizada na nossa tradição é que não se muda uma cultura por decreto (sim, pela exemplaridade). O vírus da corrupção se irradiou por todos os órgãos públicos, sobretudo os políticos, e hoje atinge (como enfatizou Gaudêncio Torquato – O Estado de S. Paulo de 02.09.12, p. A2) o custo estratosférico de R$ 80 a R$ 100 bilhões, segundo estudo da Fiesp, algo em torno de 1,4% do PIB, que significa uma parcela significativa no total dos recursos movimentados pela corrupção no mundo, que a Transparência Internacional calcula em US$ 1 trilhão por ano.

 

No Brasil a chance de um funcionário público responder a um processo por corrupção é de menos de 5%, conforme a Controladoria-Geral da União. Mais de 70% da população, segundo o Ibope (pesquisa contratada pela Fiesp), se diz tolerante com a corrupção, enquanto o percentual que admite ter cometido algum deslize ético e poderia cair na malha corruptiva, caso fosse nela jogado, é até maior. Nosso atraso social (conclui o articulista) está intimamente ligado ao nosso “individualismo amoral”, ou seja, “nossa ética joga os interesses de curto prazo sobre os de longo prazo”. O povo brasileiro, sob essa ótica, de um modo geral, seria fuleiro. Claro que existem incontáveis exceções.

 

Nada foi intencional, muito provavelmente, mas a Fifa acabou retratando traços marcantes da cultura brasileira de hoje (e de sempre) com o nome da bola da Copa das Confederações (Cafusa: carnaval, futebol e samba), somado ao nome dado ao tatu-bola, “fuleco” (que constitui um nome bastante fuleiro) e ao nome da bola da Copa do Mundo (brazuca), que lembra bazuca (arma): todos esses elementos conjugados forma um retrato da cultura alegre, pujante, mas ao mesmo tempo zoneada e trágica do Brasil: carnaval, futebol, samba, corrupção e violência.

 

Claro que o Brasil não é só isto: “Cafusacovi”. Mas parece indiscutível que esse acrônimo traduz traços marcantes da nossa alegre e, ao mesmo tempo, triste e preocupante realidade. Preocupante porque nos faltam os elementos sólidos mais importantes para a construção de uma nação civilizada e realmente avançada.  

Comentários

  • Queite Araujo
    25/04/2013 14:15:22

    Ainda assim, não é pelo fato de que o Brasil receberá a copa que se deve esconder a poeira ao londo de práticas embaixo do tapete. E olha que o tapete nem encobre mais tamanha quantidade de poeira. Ela é formada há muito tempo, com práticas repetitivas. O subconsciente acaba mostrando o que o consciente quer esconder, como o autor diz: "Cafusacovi". Claro, o Brasil não é só isso, mas é o que se sobressai aos olhos críticos!

  • Paulo Ricardo Guimarães
    05/01/2013 13:09:29

    Apesar de uma enorme quantidade de críticas, nosso país tem se mostrado, cada vez mais, capaz de receber um evento como a Copa do Mundo. Poderiamos pensar um pouco mais em elogiar do que em criticar esse país que é um dos mais queridos do mundo.

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LUIZ FLÁVIO GOMES

Luiz Flávio Gomes

Deputado Federal eleito. Criador do Movimento Quero um Brasil Ético.
Doutor em Direito. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil e coeditor do atualidadesdodireito.com.br. Foi Investigador de Polícia, Delegado de Polícia, Promotor de Justiça. Juiz de Direito e Advogado.
www.ProfessorLuizFlavioGomes.com.br

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