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CRÔNICAS FORENSES ASA BRANCA

05/07/2010 por Roberto Delmanto

Ele viera do Nordeste há muitos anos em um pau-de-arara, como o Presidente Lula. Aqui em São Paulo, dormiu em bancos de jardins públicos, conseguiu seu primeiro emprego como servente de pedreiro, depois foi pedreiro, e, por fim, empreiteiro de obras.

Acabou se tornando um dos mais importantes da Capital, disputado por grandes construtoras e participando da construção de alguns dos maiores prédios residenciais.

Graças à sua dedicação, competência e honestidade, ficou muito rico. Por volta dos 70 anos resolveu se aposentar, doando tudo que tinha para os filhos, os quais lhe davam, mensalmente, o necessário para viver com dignidade.

Já aposentado, recebeu uma intimação da Polícia Federal. Tratava-se de uma denúncia anônima contra ele (provavelmente de  um engenheiro civil cujas falcatruas revelara), em virtude da qual instaurou-se um inquérito.

A apócrifa acusação chegava às raias do absurdo, dizendo que o empreiteiro desviava em seu proveito a aposentadoria da mãe idosa; que simulara a própria morte para obter uma certidão de óbito, e, depois, uma certidão de nascimento com nome falso; que era "laranja" de empresários da construção etc.

Sua inquirição foi hilária. Compareceu à Polícia Federal de roupa esporte, mas impecavelmente vestido, trajando uma vistosa camisa de diversas cores.

Disse ao Delegado que adorava sua mãezinha, a qual falecera há poucos meses, e que, recebendo a aposentadoria dela como seu procurador, a enviava todos os meses por via bancária, acompanhada de uma mesada; que "estava vivo e com boa saúde", como podia ver a autoridade policial, não morrera nem simulara sua morte, continuando a usar o mesmo RG; que jamais fôra "laranja" de ninguém e dela só conhecia e apreciava a fruta; e, assim por diante...

Durante seu depoimento o celular do empreiteiro tocou; a música era a mais famosa do Nordeste, Asa Branca, celebrizada por Luiz Gonzaga, cuja letra diz que, na região da seca, o último ser a ir embora é aquela ave ("Até mesmo a Asa Branca bateu asas do sertão...").

Pedi que desligasse o celular, mas o aparelho era novo, o empreiteiro não sabia usá-lo corretamente, e ele tocou uma segunda vez.

Após nova tentativa de desligá-lo, a inquirição prosseguia, pois dissera o denunciante anônimo que os filhos do empreiteiro não tinham condições de sustentá-lo. Ao que ele respondeu que o filho mais velho já tinha 50 anos e plenas condições de ampará-lo.

Foi quando, em tom bem alto, soou mais uma vez na pequena sala de audiências o celular que se recusava a silenciar, tocando a Asa Branca...

Segurando o riso, o Delegado resolveu encerrar a inquirição, dizendo que iria relatar o inquérito e manifestando sua opinião de que ele certamente seria arquivado em Juízo.

Foi, de fato, o que veio a acontecer alguns meses depois. E, ao que se sabe, a Asa Branca não mais tocou nas dependências da Polícia Federal em São Paulo...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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