Página Inicial   >   Colunas

Língua Portuguesa As "medalhas" da Gramática nas Olimpíadas de Pequim

01/09/2008 por Eduardo de Moraes Sabbag

Em tempos de Olimpíadas, a mídia utiliza linguagem própria que, não raras vezes, surpreende o ouvinte menos atento. Têm-se noticiado, por exemplo, os êxitos dos usbeques nas Olimpíadas. Mas quem seriam eles? Diz-se, também, a palavra mascote, sem a devida preocupação como o gênero do substantivo. De outro lado, a pronúncia do substantivo recorde "não tem ocupado nenhum lugar no pódio". Por fim, a concordância verbal com o nome Estados Unidos continua "sonhando com medalha"...

 

É claro que a diversão que o esporte proporciona não ficará prejudicada com um erro de pronúncia aqui e com uma troca de concordância acolá... Entretanto, é fato que maior será nosso amor à pátria quanto mais cuidado tivermos com nossa língua.

 

Passemos, assim, às situações:

 

1. Usbeques: quem são eles?

O termo tem sido utilizado para se referir a atletas que representam o Usbequistão, um pequeno país da Ásia Central, com pouco mais de 28 milhões de habitantes, que enviou uma modesta delegação de atletas a Pequim, todos "bons de briga", por se destacarem nos esportes de luta.

 

Curiosamente, o termo "usbeque" é o adjetivo pátrio (ou termo gentílico) que pode indicar o habitante do mencionado país, bem como o substantivo que expressa o idioma falado por este povo túrcico. Assim, temos o cidadão "usbeque" -  "usbequita" ou "usbequistanês", se preferir -, bem como o idioma "usbeque". Em comparação oportuna, temos o cidadão brasileiro e o idioma português.

 

Ademais, discute-se a grafia do termo: se "usbeque" (com -s) ou "uzbeque" (com -z). O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, na edição de 2004, destaca que a grafia com -s (uSbeque) pode indicar o adjetivo e o substantivo (membro do povo), todavia a Academia Brasileira de Letras, ao registrar o termo no VOLP, também abona a grafia com -z (uZbeque), mas apenas para o substantivo (membro do povo).

 

Assim, resumidamente, teremos, segundo o VOLP: (I) a comida usbeque / o prato usbeque (adjetivos); (II) o/a cidadão(ã) usbeque ou uzbeque (membro do povo túrcico; substantivo de dois gêneros); e o usbeque (língua túrcica do povo; substantivo masculino).

 

Resumidamente, podemos dizer: O/A atleta usbeque (ou uzbeque), falando o idioma usbeque, disse que prefere a comida e bebida usbeques à comida chinesa.

 

2. Mascote: gênero masculino ou feminino?

A palavra "mascote" é feminina. Deve-se dizer "a mascote" e "uma mascote". No caso dos jogos de Pequim, não houve grande desafio, pois o símbolo indicava cinco bonecas, intituladas "Fuwa", representando pequenas crianças. Diversamente, nas Olimpíadas de Moscou, em 1980, o ursinho "Misha", cujo "choro" na cerimônia de encerramento dos jogos emocionou o mundo, gerou alguma controvérsia quanto ao gênero do substantivo. Era "um" ursinho, na condição de "a" mascote. Agora, em Pequim, as "bonequinhas" fulminaram qualquer possibilidade de troca de substantivo no vocábulo mascote - são as cinco pequenas mascotes, cada uma com a cor dos cinco anéis olímpicos.

 

3. Recorde: qual é a pronúncia adequada?

Tenho recomendado, insistidas vezes, em sala de aula, uma necessária padronização na pronúncia e grafia da palavra recorde.

 

Na palavra trissílaba "recorde", a sílaba tônica se dá em "cor" (como em concorde), e não em "ré", como se imagina.

 

Aliás, de imaginação em demasia dispõem inúmeros jornalistas que insistem no insonoro "récorde", vocábulo inexistente em nosso vernáculo. As Olimpíadas - e tantos outros campeonatos - têm ratificado a equivocada opção de boa parte da mídia. Escolhe-se uma pronúncia não existente em nosso idioma, em nítida subserviência à pronúncia da palavra inglesa ("record").

A propósito, acresça-se que o termo pode ser usado como substantivo ou adjetivo, mantendo-se a pronunciação recomendada em ambas as acepções:

Como substantivo, teremos:

 

Há um livro de recordes: o "Guinness".

O nadador bateu todos os recordes nas provas de natação.

 

Como adjetivo, podemos citar:

Chegaremos a patamares recordes no fim do ano.

"Fez o percurso em tempo recorde." (Aurélio)

 

 

4. Estados Unidos: bateu ou bateram os recordes?

Quando se quer utilizar o nome "Estados Unidos", deve-se notar que o sujeito da oração será formado por um nome próprio que só aparece no plural. Neste caso, trata-se de um nome locativo, ou seja, um nome de lugar, no plural.

 

A regra da boa concordância verbal é bem simples: se o nome locativo, na condição de sujeito, não for antecedido de artigo, o verbo ficará no singular, em uma "concordância ideológica", na qual se dá primazia à idéia sugerida. Caso venha antecipado de artigo, o verbo com ele concordará, ficando no plural.

Exemplos:

 

Estados Unidos é uma nação poderosa. / Os Estados Unidos são uma nação poderosa.

 

Estados Unidos intervém na questão. / Os Estados Unidos intervêm na questão.

 

Estados Unidos manteve o ritmo no jogo. / Os Estados Unidos mantiveram o ritmo no jogo.

 

Estados Unidos quebrou o próprio recorde mundial na prova.  / Os Estados Unidos quebraram o próprio recorde mundial na prova.

 

 

 

Essas são algumas boas dicas para assistirmos aos jogos olímpicos com "gramaticalidade". Como se notou, não "se ganham medalhas" com um "corde" ou com "um mascote". Nem aqui, nem na China...

 

 

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

Site | Facebook / Twitter

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br