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LÍNGUA PORTUGUESA As "encruzilhadas" do Acordo Ortográfico

04/11/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag

(Autópsia / Necrópsia ou Autopsia / Necropsia?

Tão-somente ou Tão somente? Dia-a-dia ou dia a dia? À-toa ou À toa?)

 

A 5ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), lançado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), em março deste ano, provocou importantes modificações na grafia de certos termos.

 

Neste artigo, serão expostas as alterações nos vocábulos e expressões que constam do título em epígrafe. Vamos a elas:

 

1. Qual a forma correta: "autópsia" ou "autopsia"? E quanto à outra: "necrópsia" ou "necropsia"?

A acentuação do substantivo feminino "autópsia" sempre gerou grande polêmica: seria "autópsia", com acento agudo e sílaba tônica em "-tóp" (au-tóp-sia: paroxítona acentuada, com terminação por ditongo) ou "autopsia", sem acento agudo, na forma polissílaba (au-top-si-a: paroxítona, não acentuada graficamente)?

A par da discussão, a propósito, outro termo designativo do exame cadavérico - necrópsia (ou seria necropsia?) - sempre se mostrou propenso a gerar dúvidas nos falantes.

Já tive oportunidade de escrever aos amigos leitores sobre este tema. Entendo pertinente retomá-lo, uma vez que a nova edição do VOLP trouxe interessante possibilidade. Vamos recordar:


A trilha da lexicografia do Aurélio registrava, antes do Acordo, "autopsia" ou "autópsia". Para o Houaiss, entretanto, a única forma aceitável seria "autópsia", com acento agudo. O VOLP (4ª edição, de 2004) abonava este último entendimento.


Não é demasiado ressaltar que, à luz da etimologia, são eles termos insuficientes e inadequados para exprimirem o exame médico-legal, pois indicam o "ato de ver a si próprio", o que não ocorre de fato. Essa é a razão pela qual sempre recomendei a forma "necropsia" (ne-crop-si-a: sem acento, para o VOLP/2004 e dicionários em geral). O outro termo - "necrópsia" - não era vernáculo.


Diante desse quadro, seguindo a indicação da Academia Brasileira de Letras, recomendava em sala de aula que se adotasse a grafia oficial: autópsia ou necropsia, com preferência para esta última.


Ocorre que a 5ª edição do VOLP, publicada em março deste ano, chancelou também as formas que até então não eram aceitas pela ABL: autopsia e necrópsia. Dessa forma, os substantivos femininos passaram a ser "de dupla prosódia": autópsia ou autopsia e necrópsia ou necropsia.


Portanto, ao se fazer menção ao exame médico-legal, que implica a visão pormenorizada do morto, podem ser utilizadas, na dupla prosódia, "autópsia e autopsia"* ou "necrópsia e necropsia"**

* LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 93.

** LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 577.

 

2. Qual a forma correta: "tão-somente" ou "tão somente"?

Até o início da vigência do recente Acordo Ortográfico, admitia-se a forma hifenizada, para indicar o advérbio: "tão-somente". Como sinônima, aparecia a outra expressão, igualmente com hífen, "tão-só".
Com a 5ª edição do VOLP, as duas formas adverbializadas perderam o hífen, passando a ser tão somente e tão só*.

* LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 781.

3. Qual a forma correta: "dia-a-dia" ou "dia a dia"?

Antes do Acordo, as duas formas eram vernáculas. A primeira ("dia-a-dia"), com hífen, indicava o substantivo masculino ("O dia-a-dia do atleta é disciplinado"). A outra expressão - "dia a dia" (sem hífen) - representava a locução adverbial, sinônima de "diariamente" ("O atleta se esforça dia a dia"). Aliás, não raras vezes, o uso inadequado das expressões se dava, aqui e acolá, exteriorizando o pouco cuidado do escritor com a ortografia.

Com o Acordo Ortográfico, passamos a ter, com exclusivismo, a expressão dia a dia*, sem hífen e válida para as duas possibilidades morfológicas (substantivo e locução adverbial). 

* LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 280.

 

4. Qual a forma correta: "à-toa" ou "à toa"?

À semelhança do confronto "dia-a-dia versus dia a dia", as expressões "à-toa" e "à toa" eram plenamente aceitas e dicionarizadas, antes do Acordo. A primeira ("à-toa"), com hífen e acento grave, indicava a locução adjetiva ("O homem foi tachado de "e;à-toa"e;"). A outra expressão - "à toa" (sem hífen e com acento grave) - representava a locução adverbial ("O homem, tachado de "e;à-toa"e;, não se ofendeu à toa").

Com o advento do Acordo Ortográfico, passamos a ter, com exclusivismo, a expressão à toa*, sem hífen e válida para as duas possibilidades morfológicas (locução adjetiva e locução adverbial). 

* LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 89.

 

Essas são algumas das "encruzilhadas" com as quais deparamos quando nos inteiramos das novidades do Acordo Ortográfico. A título de revisão, memorize as novidades:

1. Autópsia ou Autopsia (palavras de dupla prosódia); e Necrópsia ou Necropsia (palavras de dupla prosódia);

2. Tão somente e Tão só (sem hífen);

3. Dia a dia (sem hífen);

4. À toa (sem hífen).

 

Em sala de aula, tenho dito a seguinte frase mnemônica para reforço das palavras que perderam o hífen:

 

"Não erre à toa: agora escreva, tão somente, dia a dia!"

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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