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LÍNGUA PORTUGUESA As Dez Estranhezas do Acordo Ortográfico

04/05/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag

As aulas de ortografia e acentuação não são as mesmas. Antes do Acordo Ortográfico, todos - professores e alunos - entravam "em acordo". Agora, estes últimos, diante das regras que são expostas em sala de aula, mostram-se apreensivos, desconfiados e, o que é pior, mais resistentes à aprendizagem da "última flor do Lácio".

 

Diante desse cenário desafiador, cabe a nós, professores, convencê-los de que as estranhezas do Acordo Ortográfico "podem" se tornar algo corriqueiro. A bem da verdade, "deverão" assim se tornar, uma vez que não nos restaram alternativas: a partir de 1° de janeiro de 2013, o "estranho" passará a ser oficial.

 

Em razão disso tudo, tenho sugerido em sala de aula uma espécie de "gincana": a escolha pelos alunos das "dez mais" do Acordo. A expressão "dez mais" significa aquele rol de palavras modificadas que têm provocado maior grau de espanto; que tem levado o usuário a questionar "será mesmo?"; que o tem instado, em suma, a duvidar de que tudo aquilo possa ser verdade...

 

Deixei os alunos opinarem, o que para nós, professores, é muito importante. É claro que o recurso pedagógico tem um bom propósito: tornar mais "leve", com a dose certa de comicidade, o que tem se mostrado duro... "de roer": a nova ortografia imposta pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

 

Aproveito este momento para revelar o resultado que obtive, na última semana, em uma sala de aula de concursandos. Segue adiante a curiosa classificação, em ordem decrescente, conforme consegui apurar:

 

10° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

MICROONDAS

MICRO-ONDAS

COMENTÁRIO: antes do Acordo, escrevia-se "microondas", sem o hífen. Este sinalzinho apareceu para evitar "a briga" das duas vogais, separando-as, mas tem provocado maior confusão em sala de aula. Agora se escreve com hífen (MICRO-ONDAS)(1). O mesmo fenômeno ocorreu com o ultrapassado "microônibus", que agora cede passo à forma hifenizada "micro-ônibus" (2).

 

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 549.

(2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 549.

 

9° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

ELE PÁRA PARA VER.

ELE PARA PARA VER.

COMENTÁRIO: no campo do acento diferencial, não mais se distingue a forma verbal "PARA" - antes, com o acento agudo - da preposição "PARA". Agora ambas as formas são grafadas da mesma forma, sem o acento agudo que as diferenciava. Cabe ao usuário perceber, por conta própria, a função sintática dos termos e distingui-los. Que desafio! Perceba o exotismo da forma "ele para para ver"! Será que vai pegar? Preferimos "pagar pra ver"...

 

 

8° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

AUTO-ESCOLA

AUTOESCOLA

COMENTÁRIO: quem quer aprender a dirigir veículos, deve agora "se guiar" bem... Não mais há hífen para AUTOESCOLA (1). Tenho recomendado: "tire a carteira" na autoescola e aproveite para também "tirar o hífen"...

O mesmo raciocínio se estende para INFRAESTRUTURA (2): antes, grafada com hífen, mas agora grafada dessa forma.

 

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 92.

(2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 457.

 

 

7° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

PÁRA-QUEDAS

PARAQUEDAS

COMENTÁRIO: a curiosidade mostra sua força em PARAQUEDAS. Antes do Acordo, escrevia-se com o acento agudo no primeiro elemento ("pára-") e com hífen ("pára-quedas"). Agora devemos suprimir o acento e unir tudo em PARAQUEDAS (1).

O problema é que isso não vale para outras situações análogas, o que seria razoável: o "pára-lama", o "pára-choque" e o "pára-brisa" de ontem perderam o acento no primeiro elemento, mas mantiveram o hífen em PARA-LAMA (2), PARA-CHOQUE (3) e PARA-BRISA (4). Quanta uniformidade, hein?

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 620.

(2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 619.

(3) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 618.

(4) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 618.

 

6° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

ANTI-SOCIAL

ANTISSOCIAL

COMENTÁRIO: o hífen existia antes do Acordo no prefixo anti- quando a palavra posterior iniciava-se por -h, -r ou -s. Assim, escrevia-se "anti-social", para indicar os seres arredios de contatos sociais. A nosso ver, tais pessoas, geralmente "estranhas", ficarão bem mais esquisitas com a forma ANTISSOCIAL (1)... Você não acha?

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 65.

 

 

5° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

CONTRA-RAZÕES

CONTRARRAZÕES

COMENTÁRIO: o hífen existia antes do Acordo no prefixo contra- quando a palavra posterior iniciava-se por -h, -r, -s ou vogal. Assim, escrevia-se "contra-razões", ainda que se tratasse de um neológico termo jurídico, não aceito pela Academia Brasileira de Letras, no Vocabulário Ortográfico de Língua Portuguesa (4ª edição). Antes preocupávamos com o prazo delas, no ambiente forense; agora, devemos prestar atenção ao prazo e também à grafia: recomenda-se escrever CONTRARRAZÕES (1), sem o hífen e com a duplicação da letra -r.

O mesmo raciocínio se estende a outros prefixos, quando antecederem as letras -s e -r. Portanto, agora se escreve semissoberania e semisselvagem (1), arquirrival (2), contrarregra e contrassenso (3), ultrassom (4), entre outros casos.

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 749.

(2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 78.

(3) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 215.

(4) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 823.

 

 

4° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

CO-AUTOR e CO-AUTORA

COAUTOR e COAUTORA

COMENTÁRIO: as lides agora deverão ter "mais unidos" os integrantes do mesmo lado da relação jurídico-processual... Escrevem-se, sem hífen, COAUTOR e COAUTORA (1). Os operadores do Direito devem procurar se acostumar às formas, em plena "coautoria de esforço" para a assimilação da novidade...

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 199.

 

3° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

CO-RESPONSÁVEL

CORRESPONSÁVEL

COMENTÁRIO: aqui apareceu a "medalha de bronze". Este é mais um caso de supressão do hífen, que deu lugar a um termo de grafia pouco estética: CORRESPONSÁVEL (1). Na mesma linha, seguem os termos relacionados: corresponsabilidade, corresponsabilizar, corresponsabilizante e corresponsabilizável (2).

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 222.

(2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 222.

 

 

2° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

CO-HERDEIRO

COERDEIRO

COMENTÁRIO: os alunos escolheram a forma COERDEIRO, agora escrita sem o hífen e sem o -h, como a novidade merecedora da "medalha de prata" do exotismo... Tenho sugerido um macete: esquecendo-se da grafia imposta pela ABL, pense naquele carneirinho novo e tenro, chamado "cordeiro". Basta escrever este nome e inserir a vogal -e entre as letras -o e -r! Descobrirá a forma recomendada: COERDEIRO (1). Que estranha "herança" o novo Acordo nos deixou...

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 201.

 

 

1° lugar

O QUE ERA...

O QUE PASSA A SER...

CO-RÉU e CO-RÉ

CORRÉU e CORRÉ

COMENTÁRIO: e, como "medalha de ouro", houve uma unanimidade na escolha do termo mais extravagante. Todos escolheram as novas formas CORRÉU (1) e CORRÉ (2). De tão diferentes, dispensam comentários. Merecem, sim, que se dê "tempo ao tempo", a fim de que o operador do Direito possa acreditar que terá mesmo que as utilizar na lide. Paciência... Aliás, os latinos já diziam: "Com tempo e perseverança, tudo se alcança".

REFERÊNCIA:

(1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 222.

(2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 221.

 

Como se notou, a divertida "gincana" permitiu que se escolhessem as "dez mais" do Acordo, como indicadoras do sério desafio que nós, professores, estamos assumindo em sala de aula para continuar a demonstrar que Olavo Bilac tinha razão: nossa língua, apesar de "inculta", continua a ser bela...

Comentários

  • Belchior Alves da Silva
    15/12/2009 23:25:25

    O Mestre Sabbag ' muito mais que um disciplinador da L¡ngua Portuguesa, fala e escreve com leveza, elegƒncia, como poucos no of¡cio, tornando f cil e interessante as trilhas percorridas, antes "azedadas" por outros que o precederam! Parab'ns Mestre!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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