Página Inicial   >   Colunas

Filosofia Ares e Athena - Arautos da Guerra

02/06/2006 por Luciene Félix
"Para distintos tipos de desejos; do Corpo e da Alma, distintos deuses de conquista"

Na mitologia, Ares, associado ao vermelho planeta Marte, é o cruel deus guerra e da carnificina. Individualista, não titubeia em impor sua caprichosa vontade a quem quer que seja. Colérico e intratável, sob o signo do Fogo de ignição e ação, energia não lhe falta e sua afinidade com a morte, por ser seu maior semeador, é notória. Por razões óbvias, somente o Hades, soberano do Reino dos Mortos, o admira.

Impulsivo, Ares é um deus de caráter epimetéico: primeiro age, depois pensa. Pensar é atividade da mente, do elemento Ar, este sim, distingüe os homens das bestas. Daí a prudente razoabilidade ser tão necessária à evolução do espírito humano.

De gosto pelo desafio da conquista, Ares só se sente bem em pleno massacre pois ama a luta por si mesma, pela alegria feroz de destruir. Seu furor não obedece senão à brutalidade de seu instinto destruidor. Seu emblema é a coragem. Acompanham-no Éris (a Discórdia), que com seu archote em chamas acende o furor no coração dos soldados e seus filhos, Deimos (terror) e Phóbos (medo), também servidores fiéis desse funesto deus.

O espetáculo hediondo da carnificina que tanto horror causa à deusa Athena, nunca foi tão valorizado quanto durante o apogeu de Roma, civilização da qual Ares/Marte foi patrono. Num império erigido sobre a barbárie, ele foi um reverenciado deus. Eram-lhe consagrados os abutres, os lobos agressivos, os galos belicosos e os cães cujo ladrar lembra os bramidos dos combates.

Estimado pelos heróis romanos, não era bem-quisto pelos olímpicos deuses gregos que preteriam-no à sábia, justa e também guerreira Athena, deusa da sabedoria e da justiça, filha da razão do soberano do Olimpo, que sofrera terríveis e dilacerantes dores de cabeça até seu nascimento (enquanto a justiça não se faz, as dores de cabeça são inevitáveis). Como Ares, irá também patrocinar a guerra e nascerá fortemente armada, trajadamente pronta para ela. Mas trata-se da guerra feita com inteligência e motivada por um ideal honroso, guerra somente enquanto último recurso, quando torna-se insuficiente a lúcida resolução diplomática e pacífica de qualquer polêmica. Uma batalha também pode ser encarada como última e importante argumentação na defesa da justiça quando todas as outras falharam. Suas primeiras palavras ao nascer fora: "a Compaixão é a parte mais bela da Sabedoria".

Fruto de Métis, a Prudência, a mais astuta das deusas, filha poderosa de um pai onipotente, Zeus, eis Palas Athena: atenta coruja, símbolo da sabedoria, cujo pescoço gira 360° de olhos luminosos que, como seu pai, enxergam o todo; um elmo de ouro cintila em sua cabeça; em sua mão, uma lança resplandescente; seu poderoso escudo de bronze brilha e reluz como um espelho. Ela emprestou-o ao herói Perseu que trouxe-lhe de presente a cabeça da rainha das Górgonas. Incrustada no peito de sua armadura, a égide, Medusa possui serpentes em lugar dos cabelos e petrifica qualquer um que a fite diretamente em seus olhos ou reivindique justiça por colérica ira oriunda de uma vaidade pessoal.

Desde os primórdios a figura da serpente é associada a maléfica vaidade do espírito. Os antigos gregos carregavam a cabeça da Medusa, o "gorgonae" no peito a fim de afastar o mal. No cristianismo temos a ardilosidade do réptil sobre Adão e Eva incidindo sobre nosso destino e a Mãe de Deus, Nossa Senhora, é retratada tanto em imagens quanto no Livro do Apocalipse esmagando uma cobra com seus pés. Na obra "O Leopardo" de Lampedusa, o príncipe de Salinas arremata sua toilette prendendo em sua gravata de cetim negro, um broche com a cabeça da Medusa com dois flamejantes olhos de rubis.

Sempre às turras com seu inimigo Ares, pois nem sempre encontram-se do mesmo lado na batalha, Palas (a donzela) será a única mulher a imiscuir-se aos homens, sendo sempre respeitada por eles. Antes do começo da batalha, eles sentem sua presença inspiradora e com isso anseiam mostrar seu heroísmo. Segundo Walter Otto: "sacudindo a terrível égide, a deusa corre veloz entre as fileiras convocadas à batalha. Um momento atrás, esses homens haviam aplaudido com júbilo a idéia de voltar para sua pátria; agora a esquecem por completo: o espírito da deusa faz agitar-se todos os corações com ardor bélico". Renomados heróis como Tideu, Hércules, Ulisses e Aquiles dobram-se aos seus sábios conselhos. Quanto ao herói Tideu, Athena foi sua fiel companheira de batalha, até quis torná-lo imortal. Aproximou-se do herói ferido de morte trazendo na mão a bebida da imortalidade. Mas ele estava a ponto de fender violentamente o crânio do adversário morto para chupar-lhe o cérebro. Horrorizada, a deusa retrocedeu e o protegido para quem ela cogitava o mais elevado destino mergulhou na morte comum, pois tinha desonrado a si mesmo. Ainda conforme Otto, "Athena seria mulher porque os orgulhosos heróis que se deixaram conduzir por ela não se submeteriam tão facilmente a um varão, mesmo que fosse um deus". Quando em fúria cega Aquiles está prestes a liquidar Agamêmnon, Athena toca seu ombro e o aconselha a dominar-se, contentando-se em ofender o Atrida somente com palavras, o herói prontamente guarda a espada já desembainhada.

Sábias leituras fez o homem ao observar a ordem, Kosmós, inscrita na abóbada celeste. Como afirmado por Heráclito; "A guerra é Pai de todas as coisas". A "mãe" pode ser o desejo pois na observação da rota dos astros, Marte (Ares) parte para conquista do que Vênus (Afrodite) tende a dar valor.

Desde a antigüidade, o planeta Vênus, a famosa estrela dÁlva, esplendorosamente visível à olho nu aqui da terra, desponta no céu em duas apresentações bem distintas:

a vênus matutina (denominada Afrodite Urânia, desejo da alma em alcançar prazeres celestiais) e

a vênus vespertina (denominada Afrodite Pandêmia, desejo do corpo aos prazeres terrenos).

Somente esta deusa do eterno milagre amoroso pode brindar a paz interior e exterior. A violência só pode ser aplacada pelo amor. Mas eis que a distinção entre dois tipos de desejos, da matéria e do espírito acarretará igualmente em distintos patronos de luta: Ares e Athena.

Em sua dupla apresentação Afrodite (Pandêmia/Urânia), nasce do esperma dos órgão genital de Urano (Ouranós) ceifado por Chronos: o Céu é seu Pai. A deusa da atração é das mais antigas e reina sobre o coração de todos os homens, pois o que é belo inspira o amor. Afrodite, pelos sublimes desejos com que nos inflama pode, à sua vontade, fazer nascer em nós o amor, trazer-nos felicidade ou nos fazer experimentar males intoleráveis.

Elegendo por sua "vênus", a Afrodite Pandêmia, pois é nos braços sedutores desta que o viril guerreiro Ares se deleita e se refaz, é sempre cego seu desejo de impor a vontade pessoal desconsiderando a instância imortal do amor celestial: é o desejo cego e caprichoso que acarretará a guerra pela guerra. Poderosa, o feitiço desta vênus exerce uma força que faz esquecer todos os deveres, rompendo os mais honrados laços de fidelidade, levando a decisões que, mais tarde parecem inconcebíveis ao próprio enfeitiçado.

Por sintonizar-se com Afrodite Urânia/Celestial, Athena luta pela supremacia da lúcida clareza mental acima da instintiva libido física. Sempre haverá o embate: Ares x Palas Athena. No entanto, à donzela do lógos, é sempre destinada a acompanhia de Níke (a Vitória).

Em termos astrológicos, encabeçando a roda zodiacal, Áries (Fogo de Ação) que possui a dádiva da coragem, ao dirigir aos céus toda sua impetuosa e potente energia faz com que a balança da justiça (Libra, seu oposto/complementar) se equilibre e Athena experimenta a paz.

 

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br