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FILOSOFIA Apolo, Quíron, Asclépio e Hipócrates - Mito Grego da Medicina

02/02/2011 por Luciene Félix

No cerne de toda pedagogia grega (Paidéia) observamos a atenção aos limites, contrapondo o que há de mais caro ao homem: a liberdade. No mito da Medicina, valorosa é a própria vida.

Dentre os temas recorrentes, a deformação, a banalização e a superação de distúrbios tanto da alma (psyché) quanto do corpo (soma). Na linhagem das figuras simbólicas da cura destacam-se Apolo, Quíron e Asclépio (Esculápio, na romana).

Nesta tríade divina, solar e supremo é Apolo, que presidindo a harmonia da alma, personifica a saúde e simboliza o princípio de toda cura. Quíron é seu fiel sacerdote. E o filho, Asclépio tem como mais famoso descendente Hipócrates (460-377 a.C.), renomado expoente de uma família que praticara a medicina por muitas gerações, considerado "Pai de Medicina".

Narra Homero que Asclépio realmente existiu (em cerca de 1.200 a.C.) e que foi abençoado com a luz de Apolo. Atentos aos psicossomáticos, enquanto o pai presidia a sanidade da alma, o filho se empenhava em presidir a saúde do corpo. O predomínio da atenção sobre um em detrimento do outro é desarmonioso e é desse interdito que trata o mito. Há inúmeras versões dessa alegoria, inspiraremo-nos em Píndaro (518-441 a.C) e Ovídio (43-18 a.C.).

Reza um antiqüíssimo relato que na Tessália ninguém superava a jovem Corônis em graciosidade e formosura. Impressionado pela rara beleza da mortal, o deus da harmonia, Apolo, filho legítimo do soberano do Olimpo, Zeus, se apaixona perdidamente pela moça.

Mas a donzela, entre envaidecida por ter despertado a paixão de um imortal e o temor de se ver abandonada na velhice, mesmo grávida de Apolo, decide se casar com um jovem chamado Ischys.

Inconformado com a traição, Apolo assassina o rival e pede a sua irmã, Ártemis, que fulmine a infiel. Desconcertado, ao ver o corpo da amada em chamas sobre a pira, Apolo se apressa a arrancar-lhe do ventre seu filho Asclépio.

O deus da saúde, da música e da harmonia, confia a educação da criança ao sábio Quíron, que por ser filho do titã Chronos, também era imortal. Este brilhante centauro fora gerado enquanto seu pai metamorfoseara-se num cavalo, daí sua aparência híbrida.

Extremamente inteligente, culto e bondoso, Quíron, por sua vez, foi adotado por Apolo, que o ensinou a arte do divinatio (adivinhação), música, ética, ciência e thaerapéia (do grego, servir ao divino), dentre muitas outras technai. O centauro foi professor e tutor de heróis famosos tais como: Aristeu, Ajax, Enéas, Teseu, Aquiles, Jasão, Peleu, Héracles e, claro, de Asclépio.

Portador de uma ferida incurável, Quíron entendia a dor e o sofrimento dos enfermos e ensinava a alquimia das ervas extraindo poderosas drogas, infusões, ungüentos, banhos medicinais, dietas, sangrias, cirurgias, além dos benefícios da exposição ao sol, de caminhadas com os pés descalços, abstinência sexual, higiene, dos exercícios físicos e etc. Espantosamente dedicado e habilidoso, Asclépio recebeu da tia Palas Athena, um poderoso pharmakón: o sangue de Medusa, que conforme a dosagem, tanto curava quanto matava.

E foi assim, por ter como pai Apolo e preceptor Quíron que Asclépio reuniu as duas tendências da arte médica, curando tanto corpos quanto almas.

Quando surpreendidos com a notícia de uma enfermidade (própria, num familiar ou amigo) é reconfortante saber que se está sob os cuidados dos mais renomados especialistas. Conformados, suspiramos: "Agora está tudo nas mãos de Deus". E era assim que Asclépio desempenhava suas funções: ferrenho seguidor dos ensinamentos de Quíron e subalterno a seu pai Apolo, que roga que o doente seja tratado como um todo.

 

"A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experiência enganosa, o julgamento difícil" - Hipócrates

 

Paul Diel relata que na antiga Grécia, recomendava-se que o enfermo pernoitasse no templo de Apolo para que, exposto à influência do sagrado, se concentrasse em seu sofrimento. No dia seguinte, os sacerdotes procuravam interpretar os sonhos para vislumbrar uma terapêutica adequada. Este procedimento era repetido tantas vezes quanto julgassem necessário.

Numa anamnése (do grego, trazer mnemósyne, a memória à tona), como ocorre até os dias atuais, procurava-se saber de todo histórico pessoal e dos antepassados, doenças físicas e angústias psíquicas, abarcando tanto o corpo quanto a alma.

Muitas vezes o enfermo estava acometido por uma doença hereditária, ao qual era frágil ou mesmo a uma doença oriunda de uma desarmonia psíquica que não era necessariamente sua, mas que por hamartía (marca de nascença) o afetava.

Orgulho de Apolo e de Quíron pela competência em representar a ciência, Asclépio não tardou a alcançar fama e glória. Até que um dia, arrebatado pela vaidade, com formidável empenho e arrogância decide abolir a morte. Ressuscita defuntos e alcança sucesso extraordinário.

Hades, soberano do reino dos mortos, constatando o despovoamento de seu império, queixa-se com Zeus e este, temendo que a ousada maestria de Asclépio revertesse à ordem do mundo, fulmina-o imediatamente com seu raio. Desolado, Apolo suplica a Zeus que o coloque entre as estrelas (constelação do Serpentário, Ophiucus).

Viver para o corpo e morrer para a alma é contrário ao sentido da vida. Asclépio se esquece que o princípio vital de sua missão não é a de somente conservar o corpo, mas fortificar a alma. Hipócrates, fidedigno a este interdito, ao iniciar seu solene juramento invocando-os, tributa-lhes honras e glórias: "Eu juro, por Apolo, médico, por Asclépio (...)" (Confira na íntegra em meu Blog).

Competentes, mas falíveis, médicos vivenciam a apolínea necessidade de harmonia na morada da alma traduzida na máxima do poeta satírico romano Giovenale: "Orandum est ut sit mens sana in corpore sano" (Reze para que a mente seja sã dentro de um corpo são).

A cidade de Epidauro, onde se desenvolveu a primeira escola de medicina, reivindica para si o local de seu nascimento. Seu símbolo é a serpente envolta num cetro (na bandeira da OMS), seu animal é o cão e sua oferenda é o galo: "Pague um galo a Asclépio", são as últimas palavras de Sócrates. Diz-se que se casou com Epione (deusa da anestesia) e dentre os filhos gerados citamos: Machaon (cirurgião), Podaleirus (diagnóstico clínico), Panacéia (ervas medicinais), Iaso (deusa da cura), Aglea (boa forma) e Higeia (deusa da higiene e do asseio).

Semideus, Asclépio "não está no Olimpo nem habita o Hades, mas caminha entre os homens, ensinando a medicina", inspirando magnânimos e virtuosos asclepíades como os inesquecíveis Zerbini (Machaon) e Décourt (Podaleirus) aos quais tantos devem a vida e eu, minha formação.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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