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FILOSOFIA Apolo e Dafne ? o mito da origem do amor não correspondido

03/06/2013 por Luciene Félix

É possível que em algum momento de nossas vidas tenhamos amado sem que fôssemos correspondidos. Mas isso não é motivo para constrangimento, pois até mesmo um deus foi irremediavelmente preterido: Apolo vivenciou a dilacerante dor da recusa e transmutou aflição em glória.

 

O poeta romano Ovídio (43a.C.-17d.C), que inspirou Dante Alighieri, William Shakespeare e tantos outros, expõe esse mito com ampla riqueza de detalhes. Vamos ao relato, tão apropriado nesse mês dos namorados.

 

O brilhante Apolo ou Febo (do grego, phobos = luz e vida) é também conhecido por Hélios (SOL). O deus da harmonia, saúde e profecia, filho de Júpiter (Zeus) e Latona (Leto) ousou subestimar um aparentemente inofensivo garoto, Cupido (Eros), detentor de poderosas flechas, tomando-o por inferior.

 

Desde o nascimento, Júpiter entreviu as perturbações que a imaturidade do filho da mais bela divindade – Vênus (Afrodite) – causaria.  De fato, o Amor é poderosíssimo e, aleatórias, as flechas de Cupido também causam danos terríveis.

 

Ao avistar o menininho (de cerca de sete ou oito anos) carregando um arco, Apolo provoca: “Ó jovem tolo, o que você está fazendo com uma arma dessas? Isso é para gente grande!”.

 

Aproximando-se com imponência, relata ter acabado de subjugar a terrível Píton, que nunca falha e, orgulhoso, desdenha: “O archote, meu garoto, é o melhor brinquedo para você, para pôr fogo no coração dos apaixonados. Não tente igualar proezas que são minhas!”, proibindo-o de intrometer-se com seu tipo de arma.

 

Percebendo a provocação, Cupido atenta que Apolo incorreu em hýbris (desmedida) e abanando suas asinhas protesta: “Seu arco acerta todas as coisas, Apolo – talvez –, mas o meu acerta você! Você se coloca acima de todas as criaturas vivas, e só por essa distância sua glória é menos que a minha”. 

 

Ovídio relata que depois disso, Cupido desceu até as sombras de Parnasso e de lá trouxe diferentes tipos de flechas: as douradas, afiadas e cintilantes, para inspirar e despertar o sentimento de amor; e outras com ponta de chumbo, grossas e rombudas, que provoca repulsa e aversão ao amor.

 

Apontou a de ouro para Apolo e disparou-a, perfurando-o até a medula, através dos ossos e, com a de chumbo, mirou acertando a graciosa ninfa Dafne, filha do deus dos rios, Peneo.

 

Dafne tornou-se a primeira donzela amada por Apolo, mas ela estava acometida por uma forte aversão ao deus, horrorizando-se à ideia de amar, de submeter-se a um senhor.

 

Da parte de Apolo foi amor à primeira vista. Imediatamente queria desposá-la. Inebriado pela beleza da jovem, imaginava como ela ficaria se ricamente adornada, o quanto belas vestes a tornariam ainda mais encantadora. Enlevado pelo brilho, displicência e sedosidade de seus cabelos, sonhava acordado: “Como seriam eles penteados?”.

 

Contempla os olhos de Dafne, que brilham como as estrelas, seus lábios, e sabe que a contemplação não é suficiente. Maravilha-se com seu corpo, com os ombros nus, e o que ele não vê pensa que deve ser melhor ainda do que o que enxerga.

 

Mais fugidia que o vento, a ágil e casta donzela escapa dele. Quando Apolo a chama, Dafne esquiva-se de seu clamor, nem ouve. Em desespero, implora que não corra, diz que a ama, admira e que, se a persegue, é porque o amor o fez seu seguidor. Mas a jovem dispara, cada vez mais apavorada.

 

Roga que ela corra mais devagar, prometendo também reduzir a corrida, que não fuja dele como a ovelha do lobo, pois teme que se machuque.

 

“E mesmo que esteja passível
de cometer um engano, um erro de pessoa, quem ama verdadeiramente é digno de nobreza”. Pausânias,
n’O Banquete, de Platão.

 

Esclarece que não é um rude camponês ou grosseiro pastor cheirando a gado, mas legítimo filho de Júpiter: “Eu sou o senhor de Delfos (...) sou aquele que revela o presente, o passado e o futuro; pelo meu poder, a lira e a canção se harmonizam; minha flecha tem certeza de seu objetivo – só existe uma flecha assim, a que fere meu coração.”. Mas, se não amamos, que importa os atributos de quem nos ama?

 

Refém de uma espécie de “doença”, Apolo se vê fragilizado, impotente: “O poder da cura é descoberta minha; todas as ervas são minhas súditas. Mas, para minha desgraça, o amor não se cura com nenhuma erva; a arte que cura os outros não faz a mim, seu senhor, nenhum bem!”.

 

Dafne assustada e em fuga, com seus braços nus ao vento, suas vestes esvoaçantes e seus longos e macios cabelos revoltos, tornava-se, aos olhos de Apolo, mais linda do que nunca.

 

Ovídio relata que assim corriam o deus e a ninfa, ele, veloz e esperançoso, ela, aterrorizada: ela, com asas do medo, ele, no entanto, cada vez mais rápido, pois era “Levado pelas [incansáveis] asas do amor”.

 

O desespero de ambos permanece até que, totalmente esgotada, Dafne sente suas forças se extinguirem: “De longo voo, mortalmente pálida, olha para o rio de seu pai e grita: ‘Ajuda-me! Se existe algum poder nos rios, que ele transmute e destrua o corpo que despertou tanta adoração”. Roga então, ser livre e poder ignorar os deveres do himeneu.

 

Mal terminou de implorar, sentiu suas extremidades transformarem-se como nas de uma árvore de loureiro: seus cabelos viraram folhas, seus braços em ramos se alongaram, seus pés criaram raízes: “Tudo se transfigurou, exceto sua graça, seu brilho”. A cena inspirou muitos artistas, confira as imagens em nosso Blog.

 

Apolo presenciou a transformação com grande tristeza e a amou mesmo assim, afirma o poeta.

 

Colocou as mãos sobre seu coração ainda pulsando, beijou a madeira e sentiu vibrar a mais bela de todas as virgens: “Já que você nunca poderá ser minha noiva, (...) deixe que os louros adornem, doravante, meus cabelos, minha lira, minhas conquistas: deixe que os vitoriosos romanos, numa longa procissão, usem as folhas de louro para o triunfo e a aclamação”. 

 

Num último apelo: “E, já que minha cabeça é sempre jovem, deixe que os louros sejam sempre verdes e brilhantes!”. Arrebatada, Dafne parecia consentir.

 

Acredita-se que a romana Dafne de Ovídio corresponda à diáfana grega Aurora, que foge sempre que a luz do sol (Apolo) surge e seus primevos raios a tocam, fazendo-a desmaiar sob os olhos do deus imortal.

 

Ondulando suavemente sua copa, inclinando-a em sinal de gratidão, ela concordou com as intenções de Apolo e manteve suas folhinhas de louro imperecíveis.

 

Ornamento a cingir a augusta fronte dos poetas e dos valorosos guerreiros que triunfam, “Apolo e seu loureiro (Dafne) estarão juntos para sempre, onde quer que se cantem canções e se contem histórias”.

 

Amar é tão nobilitante que mesmo quando não correspondido, tem mérito. Por isso Apolo consagrou os louros à vitória, coroando-se pela glória de ter amado.

 

Em memória do querido e inesquecível Mestre, Antônio Medina Rodrigues (1940-2013), doutor em Língua e Literatura Grega pela FFLCH (USP), poeta, crítico, tradutor e professor de Mitologia Greco-romana.

 

Tags: Filosofia

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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