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Língua Portuguesa Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar." Pergunta-se: o mesmo está aí dentro?

03/05/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

 

Hoje em dia, tem sido recorrente a utilização equivocada do pronome "mesmo". Ouve-se com freqüência o vocábulo no lugar do nome de uma pessoa (ou coisa) ou substituindo um pronome pessoal. Tal prática virou moda, e a "praga" parece ter espalhado, aparecendo com as repetidas expressões "o mesmo" e "a mesma". Trata-se de modismo que empobrece o texto e fragiliza o discurso. Em bom português, não se deve dizer:

 

Conversei com o professor, e o mesmo me confirmou o ocorrido.

 

No intuito de evitar a expressão, há boas soluções:

 

1ª. Elimine a forma:

"Conversei com o professor, e me confirmou o ocorrido."

 

2ª. Substitua o pronome por palavra equivalente:

"Conversei com o professor, e o mestre me confirmou o ocorrido."

 

3ª. Substitua o pronome por outro pronome equivalente:

"Conversei com o professor, e ele / o qual me confirmou o ocorrido."

 

 

Deve-se registrar, todavia, que as expressões "o mesmo" ou "a mesma" podem ser toleradas, nos casos abaixo discriminados:

 

1. Quando seguidas de substantivo:

"O professor ensinou a mesma regra."

 

2. Como forma masculina invariável, no sentido de "a mesma coisa":

"O professor ensinou a regra; esperamos que os demais façam o mesmo."

"Disse a ela o mesmo que disse ao irmão."

"Acatar não é o mesmo que acolher."

 

 

Não perca de vista, ademais, que a palavra "mesmo" pertence a diversas categorias gramaticais, sendo empregada, corretamente, conforme se nota abaixo:

 

a)       Como adjetivo, na acepção de "exato, idêntico, próprio":

- Foi sempre pelo mesmo caminho.

- Eles mesmos retornaram à escola.

- Eles feriram a si mesmos (= a si próprios).

- Os professores mesmos foram à festa.

 

b) Como advérbio, na acepção de "justamente, até, ainda, de fato":

- É lá mesmo que comprei o carro.

- Esta moto é mesmo veloz?

- Há mesmo necessidade disso?

 

 

É perceptível, conforme se nota nestes exemplos, que o vocábulo "mesmo" está bem empregado, ao acompanhar substantivo, adjetivo ou pronome. Entretanto, não os substitui. Em nenhum caso de boa redação, permitir-se-á tal substituição, embora saibamos que muitos estudiosos da língua portuguesa, mais liberais em seus ensinamentos, aceitem o uso do "mesmo" como pronome substantivo, isto é, substituindo um termo anterior.

Não obstante, estamos que se deve evitar seu uso. Ainda que não seja "erro", caracteriza pobreza de estilo. Muitas vezes usa-se a palavra "mesmo" porque falta vocabulário ou porque não se sabe usar outros pronomes.

Aliás, os edifícios da cidade de São Paulo, na porta de seus elevadores, estampam uma deplorável "plaquinha", fruto da Lei nº 9.502/97, na qual consta conhecida recomendação:

"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar."

Em sala de aula, tenho recomendado a meus alunos, com certa dose de gracejo, que, antes de entrarem no elevador, perguntem para a ascensorista ou para os passageiros que ali se encontram:

- Por acaso, o "mesmo" está aí? Tenho medo do "mesmo"...

Com efeito, a brincadeira só comprova que o uso de "mesmo" como pronome prejudica a clareza e a elegância da frase. Além disso, a equipe de redatores municipais demonstrou desconhecer as regras de colocação pronominal. É que há vício na forma "se o mesmo encontra-se". Nesse caso, impõe-se a próclise, isto é, a antecipação do pronome. Procedendo à colocação pronominal adequada:

"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra parado no andar."

Resta, agora, finalizar a frase, com clareza. Observe as sugestões de correção:

1ª. Substitua a forma pelo pronome pessoal:

"Antes de entrar no elevador, verifique se ele se encontra parado no andar."

2ª. Faça a inversão e elimine o pronome:

"Antes de entrar, verifique se o elevador está parado no andar."

3ª. Utilize forma mais concisa:

"Não entre sem ver se o elevador está no lugar".

Assim, insistimos na necessidade do estilo adequado, ao lado do pensamento preciso. Aristóteles já nos ensinava que "a primeira qualidade do estilo é a clareza".

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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