Página Inicial   >   Colunas

FILOSOFIA AMOR LÍQUIDO - Sobre a fragilidade dos laços humanos

01/04/2010 por Luciene Félix

"É da natureza do Amor ser refém do destino".  Lucano/Francis Bacon


É sobre a desesperadora dificuldade de se perpetuar os vínculos no mundo de hoje que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman se debruça na obra que dá título a esse artigo, e a respeito da qual tecemos breves considerações.

 

Eterno e em constante mudança, o amor é dos deuses mais antigos, a maior dýnamis (potência) do universo. Concilia a permanência de Parmênides (o Ser É) e a mudança de Heráclito (Tudo Flui), o que não surpreende se considerarmos que sua areté (excelência) é justamente essa: unir.

 

Desde "e;O Banquete - sobre o Amor"e;, de Platão (vide artigo já publicado na CF), onde nada de relevante deixou de ser dito acerca do Amor, o que há de novo em nossa líquida sociedade moderna alterando essa potestade? É possível que ainda existam ligações indissolúveis e definitivas? Ou o veloz virtual mundo líquido em que vivemos dificulta o perene, nos obrigando a estar sob a égide de uma absoluta ausência de vínculos?

 

Quando as relações virtuais (conexões) estabelecem um padrão, um novo molde/paradigma de relacionamento se impõe. E em nosso cotidiano, o virtual tem se tornado cada vez mais real.

 

E o que é a realidade? Segundo a clássica descrição de Émile Durkheim (1858-1917): algo que fixa, que "e;institui fora de nós certas formas de agir e certos julgamentos que não dependem de cada vontade particular tomada isoladamente"e;; algo que "e;deve ser reconhecido pelo poder de coerção externa"e; e pela "e;resistência oferecida a todo ato individual que tenda a transgredi-la"e;.

 

Quanto aos vínculos, atentemos para o fato de que o de parentesco goza de um status privilegiadamente singular: é de nascença, incondicional, irrevogável e indissolúvel. É pura e simplesmente, querendo ou não, uma coisa dada. Passíveis de serem mais estreitados ou nem tanto, vínculos de parentesco não são precedidos por escolha (escolher qualifica), daí serem bênçãos ou maldições, dádiva ou sina.

 

É precisamente a inabalável solidez, que o parentesco pressupõe, que tanto almejamos quando, por desejo, nos unimos a alguém. Obviamente, ao exercermos a liberdade de escolher a quem nos vincularmos, priorizamos nossas afinidades - Verwandtschaften.

 

É no reduto das escolhas amorosas que, exercendo nosso livre arbítrio, ao sermos correspondidos, vislumbramos o valor do nosso "e;eu"e;. E de quanto mais virtudes, predicados, distinções e de atributos singulares a pessoa escolhida for dotada, mais glória tributamos a nós mesmos: "No brilho ofuscante da pessoa escolhida, minha própria incandescência encontra seu reflexo resplandecente". Estejamos atentos a mais essa doce cilada de Eros. Convém não fazer do amado, objeto: "uma simples extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim (...)."

 

Parentescos, cultivados ou não, estarão sempre à mão, já a escolha deliberada "diferentemente da sina do parentesco, é uma via de mão dupla. Sempre se pode dar meia volta". Exceto, talvez, pela adoção de um (a) filho (a), cujo cordão umbilical é duplamente alicerçado, nas demais "A menos que a escolha seja reafirmada diariamente e novas ações continuem a ser empreendidas para confirmá-la, a afinidade vai definhando, murchando e se deteriorando até se desintegrar".

 

O "e;regar todos os dias"e; é algo que soa extremamente extenuante para nós, já avessos e desacostumados a sólidos e duráveis, hipnotizados pelo instantâneo, descartável e de menor esforço possível: "nem mesmo os casamentos, ao contrário da insistência sacerdotal, são feitos no céu, e o que foi unido por seres humanos estes podem - e têm permissão para - desunir" como nos alerta Bauman.

 

O cultivo de uma relação, amorosa ou de amizade - real ou virtual - pode se revelar árduo e enfadonho. Quer seja nos tempos d"e;outrora, ou nos dias de agora, é exigir demais a um casal apaixonado o cumprimento da promessa de que o amor dure e perdure até que a morte os separe.

 

O tragediógrafo grego Sófocles (496 a.C. - 406 a.C.), em sua atemporal obra "Antígona" é certeiro: "O que é a vida do homem? Algo que não é orientado para o bem ou para o mal, nem moldado para louvar ou censurar. A oportunidade leva o homem às alturas, a oportunidade o arremessa para baixo e ninguém pode prever o que será a partir daquilo que se é".

 

Mesmo que essa imprevisibilidade nos assombre, Bauman nos alerta também que "ninguém pode suportar com leveza essa impossibilidade. (...) é o futuro, assustadoramente desconhecido e impenetrável, e não a dignidade de um passado que, embora venerável, se oculta por trás do dilema (...)". O fato é que talvez nunca tenha havido tantas oportunidades - leiam-se incertezas - quanto agora.

 

Se diante dum oráculo, pudéssemos indagar sobre o futuro de nossos amores, por qual das seguintes possibilidades de resposta optaríamos: A) Durará para sempre; B) Não durará ou C) Não há como saber?

 

Misteriosamente "barrando o acesso, negando o ingresso, inatingível e eternamente além do nosso alcance", a última opção é a divina. Assim é o amor.

 

Fascinante, Eros não desagrada a ninguém, imprevisibilidade é outro de seus desconcertantes e sedutores atributos. Sentimentos de insegurança fomentam desejos conflitantes que culminam na dilacerante alternância entre "apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos".

 

Por mais que desejemos ser um só - e o amor permite a fusão, repetidas vezes - há a intransponível dualidade dos seres: "Tentativas de superar essa dualidade, de abrandar o obstinado e domar o turbulento, de tornar prognosticável o incognoscível e de acorrentar o nômade - tudo isso soa como um dobre de finados para o amor."

 

Será que, quando se trata de amor, posse, poder, fusão e desencanto são mesmo, "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse" como aponta o estudioso? Zygmunt Bauman diz que Odo Marquad atentou para o fato que "do parentesco etimológico entre zwei e zweifel ("dois" e dúvida", em alemão) e insinuou que o elo entre essas palavras vai além da simples aliteração. Onde há dois não há certeza".

 

Reduzindo drasticamente as pressões, em nenhum outro ambiente os vínculos, as relações são tão agradáveis e descartáveis quanto no mundo virtual: "As relações virtuais se encaixam como uma luva na atual vida moderna. Diferente dos compromissos "e;reais"e; e, mais aprisionantes ainda, dos compromissos de longo prazo, essas relações são indolores, são fáceis de entrar e sair, aparecem e desaparecem num clique: "e;Em comparação com a "e;coisa autêntica"e;, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear (...)".

 

Perturbadores, constrangedores e/ou inconvenientes, muitas vezes é grande a dificuldade de romper vínculos/relações "e;indesejáveis"e;, mas romper uma "e;conexão indesejável"e; não requer prática nem tampouco habilidade: "conexões podem ser rompidas, e o são, muito antes que se comece a detestá-las", diz Bauman. Existe algo mais simples que não responder a um email (que pode ter ido parar na caixa de "e;spam"e;)? E o "e;Delete"e; no teclado, além de tempo, não nos poupa também da enfadonha necessidade de inúmeras e incômodas  máscaras?

 

Mas não se iludam! No mundo virtual, embora sejam inúmeros os "contatos", ter acesso não significa (e muito menos garante) relações prazerosas, vínculos estreitos: "Manter-se em alta velocidade, antes uma aventura estimulante, vira uma tarefa cansativa".

 

Obviamente há o risco de, não favorecendo êxito no aprofundamento (leia-se qualidade) das relações, buscarem-se compensações na velocidade com que eles surgem (entenda-se quantidade). No virtual, substituição é a palavra de ordem: "quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade". Nada mais confuso, irritante e perecível.

 

Lúcido, Zygmunt Bauman diz que "Não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer (...) chegado o momento, o amor e a morte atacarão - mas não se tem a mínima idéia de quando isso acontecerá. Quando acontecer, vai pegar você desprevenido".

 

É curioso que o mundo virtual favoreça e muito a idealização do amor, realizando o platônico. Enquanto os vínculos reais e as relações físicas estão sujeitas às alterações de conceitos pré-concebidos (preconceitos), afinidades por ideias e ideais são autênticas, estão além e acima de mundanidades. Pleno é reunir corpo e alma - Pandêmia e Urânia - duas modalidades de Afrodite. Priorizar a primeira oferece mais garantia de sucesso. Talvez seja por isso que Nietzsche tenha recomendado que nos unamos com quem seja prazeroso... conversar!

 

Tão inescapável quanto à morte, reais ou virtuais, não há receita para desfrutar dessa dádiva que é o amor. Como a própria vida, não há garantia de prazo. Seu destino é enfeitiçadoramente inconcluso, exatamente como proferido pelo oráculo. Divino, quando não gera no corpo, gera na alma. E pode até ser eterno.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br