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ENSAIO Amanhecer dourado: 2017 como marco do movimento neo-hippie

Ilustração Chico Scarpini

 

A piada é quase engraçada, Vai andar com hamsters!, eu achei bem ilustrativa quando o amigo me contou. Essas metáforas de ratos antropomórficos. Ilustra porque começamos um novo ano, e só quem tem interesses em financiamentos escusos ou em sua própria manutenção no poder é que não percebe que começamos no País uma nova e melhor era. Com todos os vícios, com os coronéis que ainda têm autoridade para desobedecer a Suprema Corte, com as delações mostrando que o Presidente ganha mais propina que a rainha deposta, o futuro é de uma noite de frio e tempestade, mas muito doce. Porque a mudança já veio com ela.

 

Os ratos velhos, na tal piada, teriam a missão de ensinar o rato jovem a roubar o queijo, apesar da permanente vigília do gato. E o rato jovem e ousado lá foi enfrentar o perigo. Fábula, o rato jovem arrisca a vida para driblar o felino e trazer da despensa à toca um pedaço enorme de queijo. Nesse ritual de iniciação nas ratazanas, o rato jovem chega ofegante mas feliz com seu queijo, um troféu que tinha de converter-se em alimento para todos. Deveria converter-se. No mundo humano, impossível esperar que não houvesse reações contundentes à quebra da maior tradição da nossa República: de que político ou empresário não vai preso jamais. Acusações de perseguição política, de estado neonazista, gritos daqueles clamam pela falta de oportunidade de defesa de seus clientes, talvez porque ‘im(p)unidade’ tenha mudado de nome; até a vaidade excessiva de algumas figuras que protagonizam a mudança, tudo isso é consequência natural do processo de câmbio. Que a reação tenha chegado a extremos de alguns levantarem a voz contra a prisão do Presidente da Câmara, apenas por nela divisar uma quem-sabe-futura-remota escusa para a prisão de um correligionário, isso também é parte do processo. Visto com muitíssima largueza de espírito, é parte do processo.

 

No covil dos ratos, o jovem roedor toma uma surra e vê seu queijo – note, objeto de crime – ser-lhe tomado pelos anciãos, que devoram a comida e o deixam sem uma lasca dela, Pôxa!, diz o rato jovem, e nosso espírito fraternal? Ele existe, mas apenas na forma de quem cria um discurso exclusivamente para policiar o comportamento alheio. Discurso de lealdade absoluta e honestidade relativa que se faz sedutor, e então foi o objeto encontrado para manipular a juventude, com o uso das redes sociais. Também um câmbio que pensei que não teria nesta vida, mas que é, sim, personagem da trama, o neoconservadorismo digital. Digo que não imaginei que fosse assistir à juventude ativa a ministrar sonoras lições da moral sexual mais rígida, acompanhada de patrulhamento ideológico-vocabular. Novas regras que, disfarçadas de progressistas, alicerçam princípios mais conservadores que das religiões, estas que por sua vez se renovam.

 

Como toda ortodoxia, mesmo velada cria segregação, a divisão em castas, a fronteira bem desenhada entre os que alcançam e os que não alcançam os princípios morais apregoados. A única novidade é que nos tempos de Face esse processo é absurdamente rápido: feministas já ofendem os gays, gays se revelam ideologicamente diversos da minoria racial, e a minoria racial acusa as demais de tirar injusto proveito de sua luta e sua cultura. Enquanto isso, aqui no meu bairro, os imigrantes chineses – apartados das ações afirmativas - são objeto de racismo diário, mas quem se importa com brancos-contrabandistas-falsificadores que mal falam nosso idioma? Sem contar que, nos seus restaurantes imundos, dizem que esses chineses comem roedores. O intragável cardápio da Liberdade é o rato ao molho.

 

Canibais, os ratos. O puritanismo do discurso daqueles que caem no jogo de defender regras morais aplicáveis somente ao extraneus então não tardará, com essa catálise da web, a evidenciar sua base anacrônica. Insustentável, a reação será ou uma guerra generalizada, ou, muito mais provável, antes dela um movimento de paz e liberação. Um neo-hippie, o qual eu estaria disposto a encabeçar, que denunciasse nosso museu de grandes novidades: o museu da divisão; da usurpação dos governos que são os corruptos de sempre, ou os novos corruptos que se dizem representantes dos anseios populares, quando o povo mesmo os rejeita rotundamente; dos intelectuais e novos pensadores que gritam por condições de trabalho, sem jamais haverem, nesta existência terrena, buscado um emprego. Sem um emprego, mas de olho no tempo para aposentadoria; dos que lutam contra o preconceito racial propondo classificação de tons de pele. Contra tudo isso, um On the road remasterizado, um novo bardo como nosso Nobel de Literatura, que coerente foi ao não se render ao capitalismo interesseiro da Academia.

 

O rato jovem continua a queixa por ficar sem sequer migalha do alimento que ele sozinho conquistara, queijo tomado de assalto pelos ratos venerandos, Esperava ao menos lealdade!, queixou-se e ouviu a princípio apenas aquelas risadas estridentes, e roucas, dos velhos. A resposta viria depois de uma pausa nos risos. Uma limpeza geral-absoluta de ratos no nosso governo comprometeria a democracia, mas os tempos turbulentos são sim o sinal do amanhecer dourado. Não será lento, mas será gradual o movimento que levará à síntese desse processo, a desradicalização da Liga das Senhoras Católicas e a derrocada dos relativistas da honestidade, com a união pelo que realmente interessa: ocaso do consumismo que destrói nosso planeta, fim da hipocrisia de nossos julgadores, distribuição justa do alimento, da terra, do trabalho. E amor livre, muito livre, entre todos, de todos os gêneros e cores.

 

Para 2017 eu já comprei até meu perfume de patchouli, só pra fazer o trocadilho de que, com a mudança natural em relação tempos de Dylan, meu movimento neo-hippie mantém a essência do original. Colocar o pé na estrada e ir-se embora, espalhando a boa nova do governo mínimo, do fim das guerras e do desprezo ao poder constituído. Só abandonarei minha peregrinação, claro, se Sua Excelência o Presidente voltar atrás e me nomear para o Supremo, porque isso resolveria minha vida, que afinal é o que importa. Para estar no Areópago, eu aceitaria até vestir uma gravata, Quer lealdade, vai andar com os hamsters!, disse o rato velho ao ladrãozinho jovem. Um gênio, o velho, desta nova visão de mundo.

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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