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FILOSOFIA Adam Smith - Autodomínio sobre o Orgulho e a Vaidade

05/07/2010 por Luciene Félix

 

Não há como estimarmos nosso próprio valor (e o de nossos pares), aferir mérito e demérito, êxito ou fracasso, sem que estabeleçamos critérios. Estamos inseridos e amarrados a esse jogo.

 

Dirigimos nosso olhar àqueles que alcançaram o que valoramos e almejamos em termos de virtudes, sucesso, fortuna e felicidade. Espelhamos-nos nas pessoas que o ordinário senso comum, elege propaga como sendo os mais magníficos.

 

Insuficientemente racionais, não somos naturalmente predispostos a avaliar nossa conduta considerando arquétipos de perfeição. Sensíveis ao que nos chega pelos sentidos, atemo-nos ao mundano e nessa seara, o princípio da autoestima pode ser tanto muito elevado quanto muito baixo. Alguns de nós se considera superiores, muito superiores ou inferiores aos demais.

 

Ao intentar realizar uma auto-avaliação, isenta e imparcial, de nosso comportamento, dispomos de dois critérios de julgamento. Sob essa sensível percepção, Adam Smith nos explica o Orgulho e a Vaidade, ambos provenientes de um excesso de autoestima.

 

Para Smith, há dois padrões diferentes com os quais - ora um, ora outro - nos comparamos. Seremos mais ou menos orgulhosos e/ou vaidosos, conforme o adotado.

 

O primeiro padrão, afirma que: "é a ideia de exata conveniência e perfeição, na medida em que cada um de nós é capaz de compreender essa ideia".

 

O homem sábio e virtuoso se empenha nesse ideal: "Imita, contudo, a obra de um divino artista, que jamais poderá ser igualada". Consciente de suas fraquezas, esse homem se constrange e se aflige quando "por falta de atenção, de discernimento e moderação, violou em palavras e ações, em conduta e conversa, as regras exatas da perfeita conveniência (...)".

 

Esse extraordinário padrão de auto-avaliação (platônico) impede que a arrogância e a presunção se instalem: "o mais sábio e melhor de nós nada pode ver em seu próprio caráter e conduta senão fraqueza e imperfeição (...), inúmeras razões para humildade, remorso e arrependimento".

 

O segundo padrão (mais aristotélico) é da excelência do mundano, real, mais ordinário; segundo Smith "é aquele grau de aproximação com essa ideia que habitualmente se obtém no mundo, que a maior parte de nossos amigos e companheiros, rivais e competidores, pode ter realmente atingido".

 

Ambos os padrões cultuam, por exemplo, o sucesso. Mas nunca um sucesso a qualquer preço; coroam o êxito profissional, mas jamais em qualquer "atividade" profissional; anseiam por aplausos, mas não de qualquer platéia.

 

Se pautarmos nossa conduta tendo em mente o ideal de perfeição, jamais estaremos plenamente satisfeitos com conquistas efêmeras. Isso nos torna mais condescendentes e humanitários. Modéstia, humildade e acurácia da sensibilidade impedem a prepotência de arrogarmos para nós um valor acima de nosso próprio mérito.

 

Se balizarmos nossa autoestima, nosso sentimento de valor unicamente através do grau de excelência que nossos amigos e conhecidos atingiram, podemos de fato, entrever alguma superioridade: "(...) há algumas que real e justificadamente se sentem acima dele, e que assim são reconhecidas por todo espectador inteligente e imparcial", salienta.

 

Dentre os riscos de julgarmos nosso caráter nos atendo ao segundo padrão de excelência, está o de nos tornarmos patéticos, sobretudo quando (mesmo com inteligência acima da média) nos deixamos levar pela admiração da multidão: "o próprio rumor dessas tolas aclamações contribui muitas vezes para confundir o entendimento (...) a grande populaça está naturalmente predisposta a erguer os olhos com uma admiração espantada, muito fraca e tola", nos adverte.

 

E assim, enredados na teia dos vícios do orgulho e da vaidade, com o risco de nos cercarmos de muitos bajuladores e (pior) ardilosos traidores. Smith salienta que "Uma vez que esses dois vícios freqüentemente se mesclam no mesmo caráter, necessariamente suas características se confundem; e às vezes encontramos a ostentação superficial e impertinente da vaidade reunida à mais maligna e ridícula insolência e orgulho". É por isso que, muitas vezes, não sabemos se classificamos um caráter.

 

Orgulhoso é o indivíduo que "se acha", e está convencido que é o tal. Realmente tem uma autoestima inquebrantável. Para ele, todos os demais são mesmo inferiores; talvez apenas não tenham percebido isso. Despreza os que o criticam. É alvo de críticas, pois censuramos àqueles que arrogam uma superioridade que não possuem.

 

O Vaidoso é inseguro, precisa que afiancem seu valor. Insiste em destacar suas qualidades: "(...) tua autoestima, fica feliz em cultivá-la, na esperança de que em troca cultives a dele. Lisonjeia para ser lisonjeado; estuda como agradar (...) para que tenhas boa opinião dele", revela Adam Smith.

 

Prestamos reverência a talentos e virtudes, bem como que respeitamos posição e fortuna. Quando o vaidoso deseja usurpar esse prestígio, se endivida por grifes, automóveis sofisticados, viagens e restaurantes caros; reféns dos signos de status, Smith alerta que: "(...) anunciam uma posição e uma fortuna maiores do que as que realmente possuem; e, a fim de manter, essa tola impostura (...) se vê reduzido à pobreza e aflição (...)".

 

O orgulhoso não paga esse mico: "Seu senso da própria dignidade o torna cauteloso na conservação de sua independência e, caso sua fortuna não seja grande, ainda que deseje apresentar-se com decência, estuda meios de ser frugal e atento em todas as suas despesas".

 

Cultivar uma elevada autoestima é salutar: "É tão agradável julgarmo-nos favoravelmente, e tão desagradável julgarmo-nos medíocres (...)", diz Smith.  Quanto à ausência de autoestima, postarei a análise do autor sobre o idiota em meu Blog.

 

Ter-se em alta conta é fundamental para o progresso, pois, como diz o estudioso, grande êxito no mundo, autoridade sobre sentimentos e opiniões, imortalidade na memória da humanidade, raramente foram obtidos sem algum grau dessa excessiva admiração de si: "os mais bem-sucedidos guerreiros, os maiores estadistas e legisladores, os eloqüentes fundadores e líderes (...) - não se distinguiriam mais por seu intenso mérito do que por um grau de presunção e admiração de si inteiramente desproporcional até mesmo em relação a esse imenso mérito".

 

Ao olhar de um sábio, somente a análise diante do imortal e não da transitória fama é que se revela o verdadeiro valor de um homem. O sábio é extraordinário; por mais enaltecido que seja, é consciente do quão distante está da verdadeira excelência.

 

Com baixos padrões de comparação, resvalamos ao orgulho e vaidade. Com altos padrões de comparação (a ideia de perfeição) saberemos quem realmente somos e nos empenharemos cada vez mais a atingir esse ideal. Sempre abaixo do divino, mas seguramente, muito acima do mundano.

 

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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