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Língua Portuguesa Abrindo e Fechando Parênteses...

02/02/2016 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Recentemente, recebi um interessante e-mail no qual o internauta expunha dúvida sobre pontuação, solicitando auxílio. Tratava-se de um verso de poema em que aparecia o uso concomitante de travessões e parênteses, o que provocou toda a celeuma. Note-o:

“Naquela manhã cinzenta,

tão vocacionada a ventos,

– (ventos fortes, fortes) –,

não desejei amanhecer,

sob pena de me perder

no uivo aterrorizante.”

 

Referindo-se a dúvida à pontuação do verso específico, acima negritado, ative-me apenas ao item questionado, não tecendo comentários sobre o uso da vírgula, por exemplo, nos demais versos. Observe a resposta enviada ao inquiridor:

 

Caro Amigo:

 

Os parênteses são usados num texto para intercalar uma explicação ou um esclarecimento. Isso se deu no poema apresentado quando o autor, depois de fazer menção aos ventos, esclarece que serão ventos fortes. Portanto, os parênteses aqui foram bem empregados.

 

Quanto aos travessões, estes são, às vezes, utilizados para um efeito semelhante ao dos parênteses: isolar, num contexto, palavras, expressões ou frases. A diferença é um tanto sutil, pois as palavras isoladas por meio de travessões não vêm normalmente ofertar um esclarecimento, mas, sim, evidenciar um aparte ou um comentário do emissor da fala, ou mesmo revelar uma frase realmente suplementar. Note o exemplo:

 

O que lhe disse – preste atenção – é um grande segredo.

O problema é que o verso em análise trouxe o uso simultâneo de parênteses e travessões, o que não se mostra adequado. Se o intuito é intercalar uma frase ou expressão, é erro valer-se de dois processos de pontuação tendentes a um mesmo objetivo. Tenho chamado o vício, em minhas aulas, de “bipontuação”. Assim, não obstante a beleza dos versos, sugiro que proceda à correção correspondente.

A questão, entretanto, levou-me a uma reflexão. Por achá-la de todo pertinente, resolvi escrever sobre o uso dos parênteses na escrita.

O artigo abaixo, concebido na forma de perguntas e respostas, visa esclarecer o usuário da Língua sobre alguns pontos ligados ao uso dos parênteses, trazendo questionamentos com os quais deparamos no dia a dia. O tema é fértil aos debates.

 

Artigo: OS PARÊNTESES EM PERGUNTAS E RESPOSTAS

 

1. Escreve-se “parêntesis” ou “parêntese”?

As palavras “parêntesis” e “parêntese”, derivadas do grego “parenthesis”, indicam a “ação de intercalar”. Ambos os vocábulos são considerados corretos e, por isso, encontram-se registrados nos dicionários de Língua Portuguesa.

No plural, o vocábulo “parêntesis” não sofre alteração, formando idêntica variante (um parêntesis; dois parêntesis). Já o termo “parêntese”, usado apenas no singular, forma o plural “parênteses” (um parêntese; dois parênteses). Daí, dizer-se:

 

No singular: Vou abrir um parêntese / um parêntesis.

No plural: A frase está entre parênteses / entre parêntesis.

Portanto, a resposta à pergunta é: escreve-se “parêntesis” (singular ou plural) e “parêntese” (neste caso, no singular).

 

2. Como sinal de pontuação, os parênteses servem para quê?

Há várias aplicações para os parênteses. Vamos conhecer algumas, abaixo negritadas:

 

I. Indicação dos nomes de autores, obras, capítulos, etc., relativos a citações feitas. Exemplo:

“Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” (ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas, Vol. 1, Rio de Janeiro, José Aguilar, 1962, p.615)

II. Indicação de uma parte independente de uma sentença ou parágrafo, não diretamente relacionada com o restante da oração. Exemplo:

Os operadores do Direito (advogados, juízes, promotores, procuradores, entre outros), não podem prescindir do conhecimento da gramática da Língua Portuguesa.

III. Inclusão de quantias ou números já expostos. Exemplos:

Em 2015, o bem custava duzentos mil reais (R$ 200.000,00).

Em 2015, o bem custava R$ 200.000,00 (duzentos mil reais).

IV. Inclusão de siglas de Estado. Exemplos:

Guaxupé (MG); Dourados (MS); Lucas do Rio Verde (MT).

Observação: esses parênteses podem ser substituídos pela barra diagonal /. Note: Guaxupé/MG; Dourados/MS; e Lucas do Rio Verde/MT.

V. Introdução do advérbio latino “sic”, indicativo, em transcrições, de que há erro no texto original do autor. Exemplo:

Amanhã haverão (sic) várias corridas de cavalos.

O correto, à luz da concordância verbal adequada, seria: Amanhã haverá várias corridas de cavalos.

VI. Isolamento de orações intercaladas com verbos declarativos, o que se faz mais freqüentemente por meio de vírgulas ou de travessões. Exemplo:

Uma vez (contavam) a polícia tinha conseguido deitar a mão nele. (A. Dourado)

 

3. Como sinal de pontuação, qual é a aplicação mais importante dos parênteses?

Considero que os parênteses possuem várias aplicações, conforme se demonstrou na resposta anterior, entretanto seu uso mais relevante se dá quando visa isolar palavras, locuções ou frases intercaladas no período, indicando que a expressão neles contida é acessória ou secundária, tendo um sentido à parte, como um suplemento da idéia expressa no discurso.

Nessa seara, os parênteses assumem o papel de separar uma explicação, reflexão, comentário ou observação, que pode até se traduzir em uma nota emocional, expressa geralmente em forma exclamativa ou interrogativa. Note os vários exemplos:

“O homem  saiu da tabacaria (metendo o troco nas calças?)” (Fernando Pessoa)

“Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz horror), finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses...” (Vieira)

Aquele deputado (líder da bancada de oposição) é o autor do projeto.

João Pessoa (Capital da Paraíba) é conhecida por Cidade Jardim.

 

4. Nessa aplicação mais importante, como o tema tem sido cobrado em vestibulares e concursos?

Há inúmeras solicitações em provas de concursos e vestibulares. Vamos rever algumas, com grifos nossos:

a) Note o uso dos parênteses, no excerto do poema “Circum-lóquio”, de Haroldo de Campos, que serviu de base para teste realizado no ITA:

[...]

um mundo privé

palácio de cristal

à prova de balas:

bunker blau

durando para sempre – festa estática

(ainda que se sustente sobre fictas

Palafitas e estas sobre uma lata

de lixo)

 

Observe, nos versos acima, que os parênteses, de cunho explicativo, vêm reproduzir, em irônico comentário do poeta, a precariedade em que se fundamenta uma sociedade que valoriza ao extremo o consumismo, intensificando as diferenças das desigualdades sociais.

b) Na prova do TRT/RJ, os parênteses, observados nos trechos do artigo de lavra de Arlindo Machado, devem-se à necessidade de um esclarecimento:

“(...) Instalado dentro do Media Lab, importante centro de pesquisas e de inovações no campo dos meios de comunicação, o laboratório, batizado de News in the Future (As Notícias do Futuro), deverá testar pilotos e protótipos de veículos jornalísticos informatizados, (...)”*;

“(...) Os motivos que conduziram à criação do News são fáceis de se avaliar. Estatísticas recentes têm demonstrado que as gerações mais jovens (ou seja, o público com menos de 35 anos) lêem cada vez menos jornal impresso em todo o mundo (...)”*.

*MACHADO, Arlindo. As comunicações sob o impacto da informática. In: Comunicação & Educação, n° 2 , jan/abr. 1995. Ed. Moderna, SP, pp. 14-21.

c) Em teste realizado pelo CEFET/RN, evidenciou-se o uso dos parênteses para ressaltar e explicitar o sentido da expressão anteriormente citada no texto:

“Deixemos bem claro: não se discute aqui a necessidade de P&D nas sociedades contemporâneas, mas a condição de que esta seja ambientalmente segura, socialmente benéfica (para todos) e eticamente aceitável.”

d) O TRT/1ªRegião, em prova para o preenchimento do cargo de Analista Judiciário, confirmou, em uma de suas questões de Língua Portuguesa, que “uma das funções dos parênteses é a de isolar explicações, indicações ou comentários em geral.”

5. O sinal de pontuação fica fora ou dentro dos parênteses?

Quem quiser usar o sinal de pontuação com os parênteses deve considerar a intencionalidade do que vai escrever.

O ponto ficará fora quando a expressão encerrada nos parênteses fizer parte da oração. Há possibilidade de o ponto ficar dentro dos parênteses quando estes englobarem toda a oração. Note o fácil exemplo nas frases (1) e (2):

(1) Estive na Síria e visitei Damasco. Andei por lá uns dez dias, mas não vi tudo. Visitei mesquitas, mercados, percorri os bairros mais antigos e de tudo gostei. (Damasco é a cidade mais antiga do mundo.)

Observe que poderia dizer a mesma frase, mas terminar de outra forma:

(2) ... e percorri os bairros mais antigos e de tudo gostei. Damasco é a cidade mais antiga do mundo (e dela nunca me esquecerei ).

No texto (1), o que está entre parênteses é uma oração independente. Apenas está ligada à anterior pelo sentido. Os parênteses não se encontram dentro dela, mas fora. O ponto final é o fim da frase “Damasco é a cidade mais antiga do mundo”, antecedendo o último parêntese com a forma .) .

No texto (2), o que se encontra entre parênteses não tem independência, ligando-se à oração anterior pela conjunção “e”. Os parênteses estão dentro da frase. Por isso, o ponto final vem depois do último parêntese da frase, na forma ). .

Estas são algumas respostas a algumas perguntas, sobre tão importante discussão. Como disse, o tema é amplo...quase não cabendo em meros parênteses! Porém, só estamos “abrindo parênteses e fechando-os”, rapidamente...

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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