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FILOSOFIA A vontade em Thomas Hobbes

04/08/2015 por Luciene Félix

Sabemos que nossas ações (decisões, atitudes) são precedidas de uma espécie de sensação que denominamos “vontade”, que ela nos move, pois sem a mínima vontade não há empenho sequer para deixar os lençóis pela manhã, que dirá empreender tarefas mais árduas, mesmo que urgentes.

 

O matemático, teórico político e filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em sua obra Liberdade e necessidade ponderou sobre o que estaria por trás da vontade, que é último elo na cadeia de deliberação (reflexão) a condicionar nossas ações diante das opções que enxergamos. Ah, a vontade, o querer ou não querer...  Queres refletir?

 

Diante de um impasse, de uma questão que exija que reflitamos e que ponderemos sobre as opções existentes estaremos também, por um momento que seja, num estado de indeterminação em relação ao fim de nossas escolhas, ou seja, os resultados, as consequências de nossos atos ainda não estarão dadas ao nosso entendimento.

 

Nesse estado de indeterminação, de certa “liberdade” que Hobbes denomina de “estado cinético” ainda não prevalece a expressão que o inglês chama de “conatus”, que é uma sensação constituída como vontade. Conatus então é a palavra que o estudioso usa para designar a prevalência, a supremacia de uma sensação sobre as demais.

 

Antes de agirmos, ponderamos e, em relação a um objeto (ou situação), percebemos que uma determinada sensação – conatus – prevalece sobre as demais, findando o processo de deliberação e decorrendo daí, a ação escolhida. Essa escolha é livre? O que determina ou induz nossas predileções, o que suscita nossa VONTADE?

 

Hobbes diz que mesmo nas ocasiões em que agimos por medo de alguma represália, num determinado sentido, somos livres sim, porque sempre podemos contar com a opção de agir de outro modo: “Assim também, às vezes, só se pagam as dívidas com medo de ser preso, o que, como ninguém impede a abstenção do ato, constitui o ato de uma pessoa em liberdade”. De fato, embora convenha liquidar os débitos que contraímos, somos livres para não fazê-lo.

 

No entanto, segundo Hobbes, uma ação é considerada livre na medida em que o seu transcurso não é obstaculizado. Entretanto, salienta que a ação é determinada por uma causa imediata, a vontade, isto é, por uma sensação que preponderou sobre as demais (conatus) no processo deliberativo. Sendo que a deliberação é concebida como uma cadeia de sentimentos antagônicos – desejos e aversões – causadas por um objeto do querer.

 

As sensações (medo, desejo, aversão, etc.) suscitadas pelos objetos que nos cercam são como imagens reproduzidas na faculdade da sensação pela memória que temos de nossas experiências com eles: “Pois se um homem está deliberando sobre qual melhor estratégia, ou conjunto de ações, para obter a vitória em um combate [por exemplo], está necessariamente ponderando sobre elementos relativos à sua experiência passada em combates”. E esses elementos serão acompanhados de desejo ou aversão conforme o que tiver sido preservado na memória sobre determinado objeto ou situação.

 

Suponhamos que, ao rememorar fatos e ações passadas que nos trouxeram algum sofrimento ou fracasso, surja determinada imagem acompanhada por sentimentos ou sensações de medo e temor. Nesse caso, a aversão imperará.

 

No caso da suposição acima descrita, podemos constatar que a liberdade não significa autonomia da vontade frente às relações causais, pois a sensação de medo (ao culminar em aversão), determinará o sentimento da vontade: aversão.

 

O que quer que tenhamos vivenciado no passado (tanto nosso, privado – enquanto indivíduos –, ou seja seres únicos, indivisíveis, quanto – enquanto membros de uma sociedade) comporá aquilo que chamamos de experiência. Aqui vislumbramos o entrelaçamento entre nossas ações (fruto de nossa vontade) atrelada às nossas experiências.

 

O filósofo nos explica que “A sensação que conformará a vontade ao término da deliberação tem necessariamente sua causa em fato ou fatos repetidamente vivenciados e resguardados, como uma corrente de sensações na memória, o que compõe a sua experiência”. O que significa que deliberamos (refletimos) no presente ponderando sobre fatos e sensações passados preservados em nossa memória.

 

É que somente à partir da experiência é que os objetos (ou situações) são assinalados com as qualidades de sentimentos e sensações que serão como marcas em nossa psique. Isso porque os sentimentos ou sensações produzirão efeitos sobre nosso aparato sensível (Homero, o maior poeta grego diria, nos phrenas).

 

Graças a esse aparato sensível, esquivamo-nos de situações que insinuem desarmonia, denotem belicosidade ou promovam algum risco ao nosso conforto, à nossa segurança e tranquilidade, sem falar de tudo o que ameace a preservação da própria vida.

 

Segundo Hobbes, agimos sempre orientados pelo impulso primordial que é o de preservação da vida: “Assim sendo, a causa imediata da ação – a vontade – sofre uma determinação interna e natural”. Trata-se do conatus ao qual nos referimos acima, da supremacia de uma sensação.

 

Entretanto, ele ressalta que se realizarmos o percurso contrário e, partindo dos efeitos (as ações), ascendermos em direção às causas de nossas ações, passando pela causa imediata (a vontade) e chegarmos às causas que produziram as sensações que compõem o expediente de deliberação, obteremos uma cadeia de causas e efeitos que acabará por se inscrever em outra cadeia causal maior, que conforma o mundo. Nossa vontade é livre sim, porém, circunscrita num todo maior.

 

Quanto ao estatuto da natureza da ação humana, Hobbes insiste que quando um homem manifesta desejo por alguma coisa pela qual não tinha antes desejo e vontade, a causa dessa vontade não é a mera vontade em si mesma, mas alguma outra coisa (ou causa) anterior, que atuou sobre ele e da qual ele não tem consciência imediata.

 

Sendo assim, a tese que Hobbes defende é a de que a ação humana não é livre, no sentido de ser derivada de uma vontade absolutamente incondicionada, porque nossas ações são condicionadas pela ordem causal (sucessões de causas/efeitos) dados pela natureza e seus imperativos, a saber, o medo maior, que é o de morrer.

 

O medo da morte é tão evidente que geres, a decrépita velhice (indício líquido e certo da proximidade de finitude) suscita a vontade pelo combate. Não surpreende que um dos maiores investimentos humanos seja – cada vez mais – na promoção da saúde e da juventude.

 

Ao romper com a relação de causalidade, romperíamos com a geração e, onde não há geração, diz ele, não há, correlativamente, a possibilidade de conhecimento filosófico.

 

Concluindo, somos livres para agirmos conforme nossa vontade, claro. Mas ela, a vontade, não está desvinculada dos sentimentos e sensações suscitados pela memória que temos de nossas experiências passadas, registradas em nosso (Freud será leitor de Hobbes) inconsciente.

 

Cada um de nós mantém, no interior de nossa vida em sociedade, a liberdade de decidir sobre os desígnios de nossas ações. Somos livres, inclusive, para optar pela recusa em obedecer e seguir as normas já conformadas em nosso meio social. A fundação do Estado subjaz justamente nessa liberdade (no risco constante de desobediência), zelando para que (pelo seu poder) a incompatibilidade entre o que queremos e o que nos é permitido querer seja minimizado.

 

É esse acordo entre as vontades dos agentes – nós, enquanto indivíduos, repletos das mais diversas (lícitas e ilícitas) vontades – e a sociedade (na pessoa do Estado) que permite que realizemos nossas atividades, desfrutemos de conforto e tranquilidade. Com toda liberdade possível, é claro.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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