Página Inicial   >   Colunas

Crônicas Forenses A Santa

03/10/2006 por Roberto Delmanto

 


Dizem, no interior da Bahia, que quando um santo é furtado de uma igreja, cai uma "praga" sobre o ladrão e o santo acaba voltando ao seu altar.

 

Certa feita, um conhecido restaurador de móveis e imagens de São Paulo recebeu a visita de um vendedor que lhe oferecia uma belíssima santa, de mais de um metro de altura. A peça era autêntica e a documentação parecia perfeita, com declaração em Cartório do próprio pároco da pequena cidade baiana autorizando a venda.

 

Apesar do preço caro, o restaurador a adquiriu, revendendo-a, meses depois, para uma colecionadora que ficara encantada com a imagem.

 

Tempos após, a pedido da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, a polícia paulista apreendia a imagem na casa da colecionadora, instaurando um inquérito. Por solicitação desta, assumi a sua defesa e a do restaurador, marcando o dia seguinte para que ele fosse ao meu escritório me conhecer.

 

Na data aprazada, ao chegar do Fórum, fiquei sabendo pela minha secretária que, enquanto o restaurador me aguardava na sala de espera, dois investigadores tinham aparecido, levando-o para a Delegacia.

 

Indignado, telefonei para meu amigo José Carlos Dias, então Secretário da Justiça, a pedido de quem foi imediatamente instaurada uma sindicância.

 

Dias depois, fui acompanhar a colecionadora à Delegacia. O Delegado Titular estava uma "fera" com a minha "queixa" ao Secretário, ameaçando indiciá-la e ao restaurador por receptação.

 

Pouco tempo após, todavia, o Delegado Assistente que presidia o inquérito da santa me procurou, propondo um "acordo", receoso que estava com o que pudesse lhe acontecer: não indiciaria meus clientes, fazendo a final um relatório favorável a ambos; em contrapartida, o restaurador não faria "carga" contra os policiais na Corregedoria.

 

Por questão de praticidade e por achar que o "castigo" pelo abuso de poder já fora suficiente, aceitei a proposta.

 

Tanto o inquérito quanto a sindicância acabaram, então, sendo arquivados.

 

Mas a santa, como era de se esperar da "praga", voltou para seu altar na pequena igreja do interior baiano...

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br