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FILOSOFIA A queda de Faetonte - quando o exibicionismo é fatal

02/10/2017 por Luciene Félix

 

“Estão em risco de queda as coisas que cresceram sem base." Sêneca

 

Atemporais, as narrativas mitológicas revelam o que há de “humano, demasiado humano”, em nós, como diria o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Tão antigo quanto o homem, por conta da “vanitas”, o exibir-se, faz parte de nossa “natureza”.

 

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em sua obra “Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens”, também chamou a atenção para esse fato, ilustrando que, mesmo em situação, aparentemente, de igualdade, como um grupo animado, dançando em torno de uma fogueira, por exemplo, há algo que faz com que alguns se empenhem em dançar mais e melhor que os outros, a fim de se sobrepor aos demais, angariando mais “likes”: olhares, aplausos, mais admiração.

 

Talvez nem convenha mesmo combater – de todo – a vaidade, pois como afirma Bastos Tigre: "A vaidade profissional [por exemplo] é virtude merecedora do máximo respeito. Ela é que estimula o obreiro a aperfeiçoar o seu trabalho para não se deixar vencer pelos concorrentes."

 

Orgulhoso, Faetonte é um belo e corajoso jovem criado por sua mãe Climene. Noutras versões é filho da ninfa Rodes, que nomeia a ilha a qual o deus Apolo (Hélio, na mitologia romana) preside.

 

Certo dia, cansado do constrangimento de ser constantemente desafiado por seu mui amigo Épafos, filho de Zeus com Io, que vivia a provocá-lo afirmando sarcasticamente que ele não tinha pai, Faetonte confronta sua mãe, inquirindo-a sobre sua paternidade: “Eu não me envergonharia de ser filho de um mortal, mas o que me deixa triste é que venho sendo enganado por minha própria mãe! ”.

 

No entanto, além das juras de sua mãe, assegurando que ele era sim, filho do deus Apolo, Faetonte desejava algo mais: provar para o amigo Épafos, o quão divino e poderoso era seu pai e, por conseguinte, ele também.

 

Faetonte decide então procurar Apolo, o deus da harmonia, saúde e da música, para que, confirmada sua paternidade, ele o atenda num pedido que lhe confira distinção.

 

Recebido com festa, Faetonte sente-se acolhido por seu divino pai e o desafia a atender seu ousado e temeroso pedido: dirigir o carro do Sol. Ao ouvir o que o jovem pleiteava, Apolo recusa-se a atendê-lo.

 

Cônscio da inexperiência do jovem, Apolo declina, mas como já havia jurado pelo rio Stix que atenderia a qualquer pedido do filho, se vê obrigado a manter a palavra diante de todos.

 

Aos prantos, é em vão que Climene roga que o filho desista de tão perigosa façanha. Faetonte está decidido! Após mil recomendações à imponente parelha de corcéis, Apolo lastima: “Não é justo que a coragem de meu filho acabe para sempre nas profundezas do Tártaro.”. E, apressa-o, pois já passava da hora do Sol nascer.

 

Deslumbrado, é com altivez que Faetonte dá início a sua majestosa jornada, a fim de mostrar a seu amigo Épafos e os demais moradores da aldeia onde vive, quem ele é: o brilhante e invejável Faetonte, filho do próprio deus Apolo!

 

De fato, o jovem viu e ouviu – lá do alto – a quão poderosa e venerada era a posição que agora ocupava. Ainda de longe, os poucos, via cada vez mais e mais pessoas admiradas, muitas ainda em trajes de dormir, bocejando, erguendo os olhos aos céus, alardeando sua chegada, enaltecendo sua beleza: “O dia hoje está lindo!”; “Radiante!”; “Magnífico!”. Isso era o que mais ele ouvia enquanto proclamavam seu surgimento, ou melhor, do resplendoroso carro do Sol que, precedido pela deusa Aurora, trazia um novo dia, repleto de luz, de promessas e esperanças, da dádiva da vida. Acima das nuvens, Faetonte sente a glória de ser reverenciado como um deus.

 

Como previsto por Apolo (sim, ele também é o deus da profecia!), no afã de exibir-se para Épafos, o jovem não detém maestria para dominar a indômita parelha de corcéis que, desgovernada, sai da rota e aproxima-se demais da terra, começando a causar danos aterrorizantes: florestas, colheitas e cidades inteiras incendiadas, tanto os animais quanto os seres humanos, aflitos, correndo desesperados, de um lado para outro, agonizando em chamas, sem nada compreender do fenômeno que os acometia.

 

Ao constatar tamanha tragédia, Faetonte, agora assombrado, ergue as rédeas dos cavalos do carro do Sol para o alto, o que também não ajuda, pois, a terra tornava-se escura e congelada, sem o calor do Sol.

 

Diante do caos desses nefastos efeitos – da superfície às entranhas –, Gaia (a terra) decide, então, apelar a Zeus, para que interrompa toda aquela temeridade: homens e animais padeciam, ora carbonizados, ora congelados, por conta dos extremos de elevada e de baixa temperatura.

 

Sem titubear, o soberano do Olimpo dispara um raio certeiro, mesmo sem saber que fulminava o sobrinho, que precipita numa queda mortal. Desolado, Apolo abraça Climene, que sem cessar pranteia a morte do filho.

 

O exibicionismo, por conta da insolente vaidade, causou a morte do jovem que –, mais que estar cônscio ser filho legítimo de um deus – ansiava mostrar a todos sua singularidade.

 

Não é muito diferente de como agimos, sobretudo na web. Nem precisa ser a exibição de algo de inequívoca envergadura, de espetacular supremacia como comandar a LUZ, detendo o poder que Faetonte ambicionou e ousou mostrar.

 

Na atual “Idade Mídia”, somos todos “faetontos” quando insistimos em alardear nossas – tantas vezes tão prosaicas e quase sempre ordinárias – façanhas (lugares, vestes e alimentos, etc.), bombardeando a todos o tempo todo, com nossos reais e/ou supostos méritos, gabando-nos, só para provar aos inúmeros duvidosos “amigos” como Épafos – o quanto somos ilustres, singulares e abençoadamente prestigiados e aclamados pelo “theós” (divino).

 

Curiosamente, mas não por acaso, “Nada em excesso” alerta o frontispício de Apolo, em Delfos. Quando passamos da medida – o métron grego – também “caímos do cavalo”. E, embora a queda não seja mortal como a de Faetonte, não deixa de ser patética.

 

PS: Confira gigantesco afresco da queda de Faetonte na Galleria Borghese (Roma) e demais pintores em meu blog e também no Insta: lufelixlamy.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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