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MEDIDA DE SEGURANÇA A Psiquiatria Administrativa

02/12/2014 por Antonio José Eça

Dentro da nossa ideia de escrever um pouco sobre outras áreas da “psiquiatria forense”, ocorreu-nos a de falar um pouco sobre psiquiatria administrativa.

 

A Psiquiatria administrativa difere um pouco da psiquiatria clínica, pois está voltada mais para uma participação na administração de uma empresa ou repartição pública; como tal, nem sempre vai agradar aos indivíduos que sejam foco de sua atuação.

 

Sim, porque basicamente, a psiquiatria quando participa do encaminhamento de coisas que digam respeito à administração de uma empresa, vai se andar por um caminho que nem sempre agrada: é que, sob o ponto de vista da empresa, estará incumbida de “defender” a mesma de indivíduos inadequados, psiquicamente falando.

 

Vamos exemplificar: uma empresa, ou repartição pública (de qualquer área, de qualquer um dos poderes constituídos), está a realizar exames de ingresso de candidatos a um cargo nestas; o foco principal costuma ser o do eventual conhecimento que o indivíduo pode ou não possuir daquela área. Na empresa particular, se um indivíduo não corresponder aos anseios, será desligado pura e simplesmente; mas na empresa pública, onde os exames podem deixar o funcionário capacitado para ficar 30, 35 anos na mesma colocação, então aí a coisa pode ficar mais complicada; sim, porque deste exame, pode participar um indivíduo com, por exemplo, uma alteração de personalidade, apesar de conhecer profundamente a matéria; então, como conhece a matéria, em não sendo examinado psiquicamente, entrará para os quadros da instituição e deixará, sejam os outros servidores, seja o público, sujeito aos seus destemperos mentais, por vezes com consequências funestas!

 

Foi com um médico mais velho que nós mesmos aprendemos sobre isto, pois quando este estava fazendo um determinado exame para ingresso de candidatos à repartição onde ele trabalhava, um deles, que não era o maior conhecedor da matéria é quem foi o escolhido, ao que lhe perguntamos por quê; então, de sua sapiência, o velho médico nos disse: a matéria ele aprende no decorrer do tempo, mas a personalidade do outro (aquele tal que conhecia tecnicamente mais a matéria), nós não vamos conseguir mudar!

 

Foi então que começamos a ter uma ideia melhor do que seria a atividade administrativa da psiquiatria, para concluir, neste sentido, que a psiquiatria pode ajudar a triar mais adequadamente os indivíduos que pretendam uma posição, principalmente aquelas mais duradouras; nestas, a personalidade do agente vai ter peso muito influente em seu comportamento e no atendimento que vai dar ao usuário do serviço, por exemplo, como em corporações policiais, onde o contribuinte vai estar a mercê da maneira de ser do policial, seja ele militar ou civil.

 

Mas há mais: a psiquiatria administrativa também vai precisar agir “do outro lado da moeda”, pois às vezes, o psiquiatra vai ser chamado a opinar sobre um determinado funcionário que esteja apresentando alteração de comportamento, que pode ou não ser fruto de doença ou alteração mental de qualquer ordem. Então, estará o psiquiatra, “do outro lado da moeda”, porque desta vez, corre o risco de ouvir da administração, que estaria protegendo “vagabundos”, quando eventualmente licenciasse do serviço um indivíduo inadequado para tal função, por ser possuidor de alterações mentais.

 

É que a maioria das pessoas, ainda pensa que louco é aquele que come cocô ou rasga dinheiro, quando em verdade, isto é uma bobagem grandiosa! E o pior, se não estiver mesmo comendo cocô ou rasgando dinheiro, não será compreendido como alguém que não pode exercer, por problemas mentais, tal função! Passa então o psiquiatra a ser admoestado para que devolva determinado indivíduo ao serviço pleno, pois o administrador não compreende que tal pessoa não pode trabalhar, ainda mais em uma função de atendimento ao público!

 

Quer dizer, o psiquiatra, na função administrativa, estará sofrendo de todo lado: por um, se não deixa entrar determinado candidato, pode sofrer represálias jurídicas deste, que entra com habeas corpus, mandados de segurança e tudo a mais, que caibam (ou que não caibam); por outro lado, sofre com a administração, que passa a julga-lo com se fosse o “defensor de vagabundos”, que só servem para receber o holerite em casa!

 

Tal função é espinhosa e o pior, algumas áreas da administração preferem não ter tal profissional psiquiatra, para não precisar levá-lo na exata conta, em face do eventual trabalho que vai dar não aceitar este ou aquele; mas, se fosse levada a sério tal área, talvez a população não ficasse tão a mercê de, por exemplo, policiais truculentos, daqueles que se fala que se tem “mais medo do policial do que do bandido”, ou pior, de funcionários bem mais graduados do que meros policias de rua, que se acham ‘deuses’, que acham que podem tudo, em suas repartições ou fora delas.

 

Pensem nisto.

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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