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Língua Portuguesa A "Praga" do Gerundismo

02/12/2005 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

O Gerúndio é forma nominal do verbo, ao lado do infinitivo e do particípio. Usamos o gerúndio para expressar uma ação em curso ou uma ação simultânea a outra, ou para exprimir a idéia de progressão indefinida. Quase sempre, o gerúndio traz a reboque os auxiliares "estar", "andar", "ir", "vir", marcando uma ação durativa. Note os exemplos:
Estavam todos repousando;
Ele andava acordando sem ânimo;
Casos estranhos vêm surgindo na última semana.

E o "gerundismo"? O que vem a ser?
Trata-se de recente e condenável fenônemo lingüístico no Brasil, conhecido como "endorréia", que marca a inadequada comunicação, em razão da má influência do idioma inglês em nosso dia-a-dia. Pode-se afirmar que, "geograficamente", o foco de difusão da "praga" se deu nos ambientes de atendimento de "telemarketing". No afã de traduzir expressões como "I am going to do something" [literalmente: Estou indo fazer algo], ou "We will be sending you the catalog soon" [como "Nós estaremos lhe enviando o catálogo em breve"], passou-se a conviver com esse abuso de forma com forte vocação de propagação.
Pouco a pouco, a perigosa forma gerundial deixou o "ambiente de atendimento" e se alastrou, de modo incontido, alcançando o cotidiano dos escritórios, das reuniões, das conferências etc. Observe alguns exemplos de gerundismo:
Espero que você possa estar enviando a encomenda;
Eu vou estar passando por fax o documento;
Ela vai estar mandando pelo correio o memorando.

Note que as frases são prolixas. Usar o gerúndio pra quê? As orações poderiam ser mais bem escritas, sem prejuízo do sentido, abrindo-se mão da forma gerundial. Note:
Espero que você possa enviar a encomenda;
Eu vou passar (ou passarei) por fax o documento;
Ela vai mandar pelo correio o memorando.

Em hilariante passagem, satirizando com o humor que lhe é peculiar, o cronista Ricardo Freire comenta:
"Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito. Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está ficando a ponto de estar estourando."
(Ricardo Freire, in "Xongas", de O Estado de S. Paulo; 16-02-2001)

De qualquer modo, há que se distinguir o bom do mau emprego do gerúndio. Condenar o "gerundismo", indiscriminadamente, não é recomendável. Casos há em que se necessita transmitir a idéia de movimento, de progressão, de continuidade - portanto, recomendar-se-á seu uso. Todavia, abusivo será o gerundismo e, portanto, evitável, se a ação em comento se individualizar no tempo, sem necessidade de se protrair.
Um exemplo de gerundismo aceitável, marcando uma ação durativa: Os pagamentos das promissórias estarão ocorrendo nos dias 2 e 3 do referido mês.

Note que há a necessidade de demarcar a ação durativa do ato de pagar as promissórias, que se prolongará nos dois dias citados. Entretanto, quando a ação não for durativa, o uso do gerúndio será indevido: Vou aproveitar o 13º para estar pagando tudo. [devemos trocar por: para pagar]

Uma pergunta salta aos olhos: o que fazer, então, com a "praga" do gerundismo? Uns diriam: "- Não ligue!Todos falam...até mesmo pessoas instruídas!"; outros, menos tolerantes: "- É melhor corrigir, com educação, é claro!".

Na qualidade de professor, nutro maior simpatia pela segunda opção. Não há dúvida: o "gerundista crônico" precisa de correção. Seja educado e corrija-o. Ele pensa, desavisadamente, que está falando bonito... não faz por mal!

Como disse um amigo, em curiosa situação, a uma vendedora que lhe apresentava o produto, mas insistia na forma gerundial:
- "Só comprarei o produto se me prometer que..."

Será polido e divertido, no mínimo! Sejamos vigilantes e educadores!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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