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Medida de Segurança A luta anti "Santacasial"

04/05/2015 por Antonio José Eça

Alguém deve estar falando:

 

-    o Dr. endoidou de vez, não está escrevendo coisa com coisa.

 

Mas não é bem isto e eu explico: alguém já viu esta expressão em algum lugar? Claro que não, ela não existe! No máximo, se não explicada, é um neologismo esquizofrênico, se explicada, então se entende; e é o que pretendemos fazer, explicá-la.

 

Vamos lá: é sabido e conhecido que no Brasil, por estes rincões afastados (e, como atalhou um aluno, até na cidade de São Paulo), existem instituições chamadas “Santas Casas” que se chamam realmente “Santa Casa de Misericórdia”, uma instituição que surgiu com o intuito de ajudar aos necessitados de atendimento médico e que não tivessem recursos.

 

Vieram elas cumprindo seu papel até que razoavelmente; a derrocada gradativa do sistema de saúde foi deixando algumas delas em situação de penúria econômica, a ponto de a própria santa casa precisar sair pedindo auxilio para não sucumbir; e se tem visto que os governos saem em socorro das mesmas, como, aliás, se assiste acontecer na cidade de São Paulo, que possui uma das mais tradicionais instituições deste tipo, responsável até por uma das mais conceituadas faculdades de medicina do país.

 

O que quero concluir é que, instituições de atendimento de saúde têm sido socorridas, salvas e se investe em não deixa-las ruir....; instituições de saúde? Nem todas, meu caro, nem todas!

 

Sim, e aí é que entramos na discussão do titulo do artigo: não se vê uma luta “antisantacasial” quando uma Santa Casa esta mal das pernas, pois são importantes na manutenção da saúde de grande parcela da população. Quando uma destas instituições está mal, procura-se salva-la e se investe em transformá-la novamente em um estabelecimento adequado de atendimento de saúde!

 

Ora, dirão, mas não é isto que se espera de um poder publico consciente e sério? É, diriam outros; então porque o Dr. esta falando tudo isto? Estamos falando neste assunto, principalmente em face da existência de uma tresloucada (embora, admito, até agora vitoriosa) luta anti manicomial!

 

Agora se entende porque criei o neologismo do titulo! Se não existe uma luta anti “santacasial”, porque uma luta anti manicomial?

 

Dizem os puristas’da saúde mental (a qual creio cada vez mais, que eles próprios não possuem) que os hospitais psiquiátricos eram pardieiros, pocilgas, sem condição de atender aos pacientes portadores de problemas mentais.

 

E saíram em uma cruzada para fechá-los! Interessante, havia Santas Casas que tinham cães andando por seus corredores, (eu cheguei a ver tal cena), não tinham gaze, não tinham papel higiênico e que nem por isto foram fechadas! Pelo contrário, estão passando por franco processo de recuperação!

 

Mas com o hospital psiquiátrico não foi assim: lutaram por fechá-lo, pura e simplesmente, sob a alegação de que colocariam alguma coisa melhor no lugar; por exemplo, uma das coisas a ser colocada no lugar, seriam os CAPS (Centros de Atendimento Psico Social) que deveriam assumir o papel que outrora era (mal) feito pelos hospitais psiquiátricos que fecharam.

 

Então cabe discutir uma série de pontos:

 

-    primeiro: patologias mentais existem que não podem apenas ser tratadas em regime de ambulatório; é necessário um local para manter o paciente internado, principalmente em sua fase aguda (ou alguém sabe de casos de, por exemplo, apendicites agudas que foram tratadas apenas em um ambulatório de cirurgia geral?);

 

-    segundo: (e seguindo a mesma linha de raciocínio) tratamentos médicos (psiquiátricos ou não), passam pela possibilidade de um atendimento hospitalar inicial, para somente depois ser dada a continuidade do mesmo em regime ambulatorial; não por acaso, cirurgias e partos, para ter dado um exemplo, são feitos em hospitais e posteriormente o paciente continua seu tratamento em ambulatórios. 

 

-    terceiro: quem conhece psicopatologia, sabe que alterações mentais existem que exigem cuidado no trato com este paciente, seja pelo risco que oferecem a si próprios, seja pelo risco que podem oferecer a terceiros. Dentre estes terceiros, se acham seus familiares, por vezes velhinhos sem condição de se defenderem de um eventual surto de agressividade que a doença faça o paciente ter;

 

-    quarto: houve certa vez, um rei na Judéia, chamado Herodes, que ouviu falar que nasceria um menino que viria a ser Rei e ele (esse rei Herodes) tomou a providência de mandar matar todos os meninos nascentes; pergunta-se: adiantou? Parece que não, não é?

 

O exemplo que se segue é o do indivíduo que possuía um pouco de poder e que foi traído pela esposa, que o traiu com um padeiro: muito bem, o tal poderoso, para resolver seu caso, mandou fechar todas as padarias! Também, não resolveu seu caso.

 

O que pensamos é exatamente o seguinte: o hospital psiquiátrico talvez não seja o maior primor em hotelaria (e realmente não costuma ser), mas são necessários, seja porque a patologia que vai ser alocada nele não pode ser colocada em outro hospital qualquer; (ou alguém que me lê, quer seu parente recém operado, internado ao lado de um doente mental agitado e agressivo?) Também, há de se considerar que o pessoal técnico do atendimento de saúde mental tem sua formação totalmente diferente do pessoal técnico de clinicas médicas gerais, não sendo eles pura e simplesmente intercambiáveis; ou, novamente, alguém quer ser atendido em sua cirurgia oftálmica de colocação de lentes de cristalino, por um enfermeiro psiquiátrico?

 

O erro é conjuntural: alguns profissionais de saúde mental, por absoluto desconhecimento de psicopatologia e da realidade própria da doença mental, acham que podem tratar tudo com “flores” e na base apenas da psicoterapia! Nada de remédios, nada de internações, nada de psiquiatras clínicos!

 

Aliás, a realidade é muito pior do que se deixa transparecer: os tais dos CAPS, primeiro não foram implantados como deveriam, seja pela qualidade do serviço, seja pela quantidade deles mesmos! A ideia dos CAPS é ótima, mas como um recurso a mais a ser usado, não como substitutivo do hospital!

 

Tais “politicas de saúde mental de ablação” fazem lembrar os cirurgiões da Primeira Guerra Mundial, que não possuíam outro recurso a não ser a do corte e da retirada do membro machucado!

 

Pois é, ao acabarem com 50.000 leitos psiquiátricos no Brasil, sem colocarem nada a altura no lugar, fazem pensar na piada do ‘inferno brasileiro’: o tal do “inferno brasileiro”, estava sendo o mais procurado dos infernos; e então um candidato a entrar perguntou para um que já estava lá dentro:

 

-    porque esse inferno é tão procurado?’

 

ao que o outro respondeu:

 

-    “aqui é bom, pois um dia não tem azeite fervente, um dia o gás do fogo acabou, outro dia o diabo não vem...”

 

Pois é, em alguns CAPS, um dia não tem psicólogo, em outro CAPS não tem remédio, outro CAPS não foi montado e assim vai.

 

Assim vai, com a existência dos chamados “vazios assistenciais” que se revertem como sempre, no abandono do paciente a sua própria sorte; não se tem mais o hospital e não se tem nada em seu lugar; senhores, se o hospital estava realmente parecendo uma pocilga, que se fizesse com ele o que se faz com as “Santas Casas”: que se prendesse o dono do hospital, que se tomasse o hospital dele que e que se transformasse aquela pocilga em hospital!

 

A saúde mental agradeceria!

 

Pensem nisto.

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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