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Língua Portuguesa A Língua Portuguesa e os Testes de Português da Prova da Magistratura de São Paulo

10/12/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Nos últimos dias, fui inquirido por alunos que haviam prestado o concurso público para o ingresso na magistratura de São Paulo. Na prova, vieram duas questões de gramática da Língua Portuguesa, entre dezenas de Direito. Não há dúvida de que, em uma prova para ingresso na magistratura, os testes sobre o Direito têm maior relevância do que aqueles que versam sobre a gramática de nosso idioma. Todavia, há que se pensar se apenas duas questões, em uma prova objetiva, seriam bastantes para aferir o conhecimento de gramática do candidato, que sonha se tornar Juiz de Direito.

É fácil perceber que os candidatos, em um modesto par de questões objetivas, não conseguirão convencer a Banca Examinadora sobre o que sabem acerca do idioma. Pelo menos, nesta fase do concurso, tenho minhas dúvidas sobre a efetividade dessas indagações...

Entregaram-me a prova, solicitando que a comentasse, e agora passo a enfrentar as questões, letra a letra, neste artigo:

QUESTÃO nº 1: Assinale a frase em que o "a" deve receber o acento indicativo de crase.

(A) As alunas se retiraram uma a uma.

(B) De terça a quinta houve reuniões.

(C) O terreno dista de cinco a seis metros da esquina.

(D) Quem faltar a aula não fará o exame.

 

QUESTÃO nº 2: Assinale a alternativa INCORRETA quanto à regência.

(A) Este é o romance de que lhe falei e cujo autor é um francês.

(B) Com quem Maria está namorando?

(C) Ele está apto para freqüentar o colégio naval.

(D) O atleta atingiu o limite de sua capacidade física.

 

Os testes são oportunos - um sobre a utilização da crase; outro sobre a regência -, todavia trazem alternativas de pequena complexidade.

 

A primeira questão solicita que o candidato escolha a alternativa em que será utilizado o acento grave, demarcador da fusão conhecida por crase. É sempre bom lembrar que essa fusão, chamada crase, é a soma de um "a" (preposição) com outro "a" (artigo definido feminino). Sendo assim, a alternativa A (As alunas se retiraram uma a uma.) apresenta-se correta, SEM a crase, pois não deve haver o indigitado fenômeno entre palavras repetidas, por exemplo, cara a cara, face a face, boca a boca etc.

 

Quanto à alternativa B (De terça a quinta houve reuniões.), deve-se frisar que não haverá espaço para a crase, quando a preposição, isoladamente, servir para separar numerais, indicativos dos dias da semana. O tema proposto, na presente prova, é elogiável, pois se a frase fosse "Da terça à quinta houve reuniões.", a crase seria de rigor. Neste último caso, haveria a aglutinação da preposição com o artigo definido feminino, em uma recomendável utilização da crase, à luz do fenômeno conhecido por simetria ou paralelismo de formas. De fato, se "da" equivale "de+a", e "à" equivale a "a+a", deve-se escrever "DE terça A quinta", sem especificação, e "DA terça À quinta, quando se quiser especificar o interregno que medeia os dias mencionados.

 

A letra C (O terreno dista de cinco a seis metros da esquina.) torna-se, agora, bem mais fácil, pois, como se disse, não se usa crase, como regra, entre numerais. É fácil notar que falamos um, dois, três, sem necessidade de uma preposição, que lhes possa ser antecedente. Assim, a alternativa está correta, SEM a crase.

 

Nesse passo, conclui-se que as três alternativas iniciais, rechaçando a crase, indicam que a alternativa a ser assinalada, conforme o gabarito, será, portanto, a letra D.

 

Portanto, a alternativa D (Quem faltar a aula não fará o exame.) requer, então, o sinal grave indicador da fusão chamada crase. Vejamos por quê. A frase apresentada deve ser assim corrigida: Quem faltar à aula não fará o exame. De fato, esta alternativa deve ser marcada no gabarito, pois "aquele que falta, falta a algum lugar". Nesse passo, o verbo faltar requer a preposição "a", detendo transitividade indireta. A aglutinação da preposição "a" com o artigo definido feminino singular "a", antecedente ao substantivo feminino aula, imporá o uso do acento grave demarcador da crase.

 

Destarte, devem ter errado o teste aqueles que não assinalaram a letra D.

 

A segunda questão, por sua vez, requer o conhecimento da regência de alguns verbos. Passando os olhos, rapidamente, nas alternativas, dá pra ver que a Banca Examinadora não trouxe os temas mais delicados da matéria, o que amplia, entre os candidatos, as chances de acerto. Em outras palavras, não se trata de questão complexa de regência.

 

Ad argumentandum, sempre recomendo que o candidato preste atenção àquilo que a questão solicita: se é pra assinalar a  CORRETA ou a INCORRETA. Neste caso, como se viu, quer-se a INCORRETA! Tal "pegadinha" sempre faz titubear, em provas de concurso, aquele candidato desatento, que pretende de inopino responder ao que se pede, sem observar com atenção o que se pede...

 

Observando, agora, o teste, nota-se que, das quatro alternativas, três estão em total conformidade com a gramática normativa; uma, todavia, contraria-a. É esta que devemos perseguir! Vamos à análise:

 

 

A letra A (Este é o romance de que lhe falei e cujo autor é um francês.) traz o verbo "falar" como transitivo indireto, em dose dupla: alguém que fala de algo a alguém. Aqui temos o verbo falar como "bitransitivo indireto" - uma forma pouco comum, porém prevista na gramática normativa. Mesmo assim, acho que os candidatos tinham condições de analisar o item, sem maiores problemas. O verbo falar tem regência complexa, podendo ser intransitivo (O bebê já fala), transitivo direto (O bebê fala coisas estranhas), transitivo indireto (O bebê fala com o pai), transitivo direto e indireto (O bebê falou-lhe "papai".) e, finalmente, bitransitivo indireto (O bebê falou a todos sobre o chocalho; ou Os bebês nos falam de Deus.). O caso proposto enquadra-se na última regência. Portanto, se queremos dizer que "falei a alguém do romance", podemos afirmar que este é o "romance de que lhe falei". O pronome "lhe" substitui o objeto indireto na frase, indicando "a pessoa a quem se falou", e a preposição "de" indica o elo entre o verbo e o objeto indireto (aquilo sobre o que se falou, isto é, do romance).

 

A letra B (Com quem Maria está namorando?) é, sim, a que contempla uma impropriedade de regência. O erro está nela! O verbo namorar repudia a preposição "com", segundo o posicionamento majoritário dos gramáticos. Tanto é verdade que a frase "Você quer namorar comigo?" - um conhecido quadro de programa de auditório - deve ser corrigida para "Você quer me namorar?". O problema é que a regência indireta "namorar com", um exótico italianismo, é defendida por ínclitos estudiosos, como Celso Luft, e dicionaristas de nomeada (ver Houaiss e Aurélio), que ratificam o uso da preposição "com", à luz da idéia, até certo ponto crível, de companhia ou de encontro. A meu ver, a Banca deve considerar esta alternativa como a que merece ser assinalada, porém penso que dela caiba recurso.

 

As duas últimas alternativas - C e D - devem estar sem erros...e estão! Na letra C (Ele está apto para freqüentar o Colégio Naval.), exigiu-se o conhecimento da regência nominal de "apto" - termo que deve ser regido pelas preposições "a" ou "para". Portanto, a frase está correta. A letra D (O atleta atingiu o limite de sua capacidade física.), por sua vez, veio sem vícios. O verbo atingir tem transitividade direta, exigindo um objeto direto, sem a presença de uma preposição.

 

 

Assim, ficamos com a alternativa B, que, em princípio, deve ser a assinalada no gabarito, não obstante reconhecermos que dela caiba um defensável recurso.

 

Portanto, salvo melhor juízo, estamos que o gabarito oficial deve trazer, para as duas questões, as alternativas D e B, respectivamente.

 

Sempre digo aos meus alunos - e o fiz, novamente, com relação àqueles que ouviam estas explicações aqui reproduzidas - que não podemos desconhecer os principais pontos da gramática normativa. No caso, crase e regência são matérias cruciais para uma desenvoltura mínima em nossa Língua. Se a prova trouxer questões fáceis - e foi o que ocorreu -, deve o concursando, com bastante calma, "gabaritar" os testes, sem perder a oportunidade. Como dizem os árabes, "o maior dos erros é a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade." Tomara, assim, que meus alunos tenham acertado os dois testes nesta prova!

 

 

 

Obs.: os testes mencionados podem ter as soluções encontradas na obra do Autor deste artigo: Redação Forense e Elementos da Gramática, 2ª Ed., Ed. Premier Maxima, pp. 409 e 419.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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