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LÍNGUA PORTUGUESA A Língua Portuguesa e o Jornalismo

05/11/2012 por Eduardo de Moraes Sabbag

Certa vez, fui convidado para dar uma palestra em um Congresso de estudantes de jornalismo e publicidade. O tema sugerido era dos mais instigantes: deveria expor sobre o idioma e suas implicações na mídia.

Com efeito, os meios jornalísticos, não raras vezes, têm tratado o léxico com descaso, veiculando a informação sem o respeito ao instrumento por meio do qual ela se difunde: a língua.

Segundo o renomado dicionarista Houaiss, mídia seria “todo suporte de difusão da informação que constitui um meio intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens; (...) Abrangem esses meios o rádio, o cinema, a televisão, a escrita impressa em livros, revistas, boletins, jornais, o computador, o videocassete, os satélites de comunicações e, de um modo geral, os meios eletrônicos e telemáticos (...)”

É evidente que, sendo a mídia o suporte de difusão de informação, a perfeita disseminação desta depende da utilização da boa técnica na comunicação.

Logo que iniciei a exposição, recordo-me de haver me dirigido à lousa e escrito a seguinte frase:

 

“Médico defende ambulatório de denúncia.”

 

Após alguns segundos, pedi à plateia que tentasse decifrar o contexto. Muitos opinaram com exatidão, reconhecendo, todavia, a falta de clareza na mensagem. Com efeito, sabemos que existe ambulatório ou “hospital para atendimento de enfermos que se podem locomover” (Aurélio), mas um “ambulatório de denúncia” era novidade. O que se quis dizer com a esdrúxula composição? O jornalista teria sido mais claro se tivesse formulado a frase da seguinte maneira:

 

Médico rebate denúncia contra ambulatório”.

 

Com aquele exemplo inicial, pretendi mostrar aos futuros jornalistas e publicitários que a clareza no texto é fundamental. Ser claro é exteriorizar o pensamento com objetividade.

Não pretendia tornar minha exposição um monólogo, o que me fez voltar ao quadro-negro e anunciar outro deslize cometido por uma importante companhia aérea, em divulgação de propaganda, perguntando a todos se alguém indentificaria o erro na frase:

 

“A ponte que une preço à qualidade?”

 

Não houve resposta. De fato o equívoco requer conhecimento razoável de crase. Trata-se da figura do paralelismo ou simetria - “a estruturação semelhante de orações ou sintagmas de seqüência” (Aurélio).  Explicando: quando se tem a simetria nas formas, permite-se a equivalência na expressão. Sabe-se que a boa comunicação requer texto bem estruturado. Este, inevitavelmente, deve respeitar o paralelismo. Se digo “gosto de cerveja e de refrigerante”, devo, simetricamente - caso pretenda determinar as bebidas -, anunciar “gosto da cerveja e do refrigerante”. É possível, assim, verificar o uso isolado da preposição na primeira frase, ao lado das contrações (preposições e artigos) no último enunciado. Evidencia-se, portanto, que a ausência do artigo na primeira frase indica a fala genérica, enquanto a presença dele vem mostrar ao ouvinte a intenção de especificação. Essa é a razão por que devemos corrigir a frase posta para

 

“A ponte que une preço a qualidade”

(sem crase e sem especificação) ou

 

“A ponte que une o preço à qualidade”

(com crase e com especificação).

 

Não demorou muito para os futuros jornalistas trazerem à baila situações linguísticas curiosas, protagonizadas pela mídia “desatenta”. Nesse ínterim, um aluno pediu a palavra para indagar:

Professor, há erro na propaganda que veiculava a pergunta “Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?”?

A questão era salutar. Tratava-se de propaganda com bordão que é repetido dia a dia nas rodas de amigos que se propõem àquele fim. Ninguém duvida: um bom comercial será sempre lembrado. Entretanto, se a propaganda nele impressa for veiculada com falta de gramaticalidade, o equívoco cometido irá se perpetuar, a par do contexto difundido. Assim, o dislate seguirá a reboque.

Passando à resposta, expliquei a todos que o verbo “vir” tem provocado incontáveis celeumas na mídia. As formas do presente do indicativo são: Eu venho, tu vens, ele vem, nós vimos, vós vindes, eles vêm. Por sua vez, as formas do pretérito perfeito do indicativo são: Eu vim, tu vieste, ele veio, nós viemos, vós viestes, eles vieram.

Prosseguindo na resposta, mencionei que é fácil perceber que a primeira pessoa do plural (nós), no tempo presente, é “vimos”, enquanto no tempo passado seria “viemos”. Portanto, se o contexto da propaganda é designativo do presente, de uma ação que está se desenrolando - como denotava a imagem divulgada na tevê -, não se poderia usar o verbo no passado. A prova está no fato de que é possível substituir o verbo por “estar”, permitindo-se aos caros ouvintes anunciar:

 

Nós estamos aqui pra beber ou pra conversar?”, e não “Nós estivemos aqui pra beber ou pra conversar?”

 

Diria que aquela palestra teve um significado diferente pra mim, o que agora me motiva a registrá-la em fragmentos. Contei, é fato, com a participação elogiável da plateia que, ao me indagar com propriedade sobre questões pertinentes, mostrou-se atenta às “encruzilhadas” da língua.

Recordo-me, por fim, das palavras conclusivas no evento, nas quais acredito piamente - razão que me move a pedir vênia para dividi-las com você, eminente leitor. Disse aos ouvintes:

- Não há dúvida de que o idioma é intrincado. Não menos indiscutível é o fato de que devemos cultuá-lo. A insistência no aprendizado das normas é necessária. Afinal, houve por bem Caetano Veloso quando anunciou “minha pátria é minha língua”.

Por ser um público de jornalistas, senti-me, por derradeiro, instado a citar alguns versos, traduzidos por Castro Alves, da poesia de Dom Guillermo Gana, de nome “O Junco e o Cipreste”, em que esta árvore frondosa e rija animava aquela folhagem, que se encontrava fragilizada diante das dificuldades. Assim o fiz, recitando:

 

-  “(...) disse o cipreste...

E se jamais tu viste

Curvar minha folhagem para o chão...

É que desprezo o mundo baixo e triste

E mergulho a cabeça n`amplidão.”

 

Após alguns segundos de silêncio, disse a todos:

– Deixo a indicação metafórica: no cenário linguístico, ou seremos “juncos”, inteira e desmedidamente suscetíveis às influências externas (e ao coloquialismo exagerado), ou iremos nos revestir da condição de “ciprestes”, em sua pujança impassível (com a fidelidade à gramática normativa).

Despedi-me, deixando um conselho simples:

– Na língua, sejamos mais “ciprestes” do que “juncos”. Como estudiosos do idioma, ajamos sem receio de dificuldades, insistindo na correção, diante da amplidão do nosso léxico.

Comentários

  • Rodrigo
    14/03/2013 15:03:38

    Esse texto veio em boa hora. Tenho visto inúmeros erros nas notícias, alguns até intencionais, para que a gente leia o que eles trazem.

  • Makoto
    05/03/2013 16:43:43

    Sabbag, (permita-me chamá-lo assim) a cada artigo seu que leio/estudo sinto um pouco menos ignorante. Muito agradecido.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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