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LÍNGUA PORTUGUESA A Língua Portuguesa do Consumidor

02/10/2017 por Eduardo de Moraes Sabbag

Há alguns dias, resolvi fazer umas compras. Precisava de alguns objetos para o escritório e decidi adquiri-los naquela ocasião. Em meio a tantas lojas, espalhadas pela movimentada rua em que estava, uma chamou-me a atenção. Tratava-se de uma grande loja de departamentos, em cuja frente estampava-se o seguinte anúncio:

 

“Toda a loja com 50% de desconto”.

 

Diante da convidativa chamada, animei-me a conhecer o estabelecimento e suas ofertas. De fato, havia produtos com preços bem acessíveis, porém a maioria estava com preços elevados. Todavia, algo me tranquilizava: caso resolvesse comprar qualquer mercadoria, teria direito a 50% de desconto, conforme se anunciara na faixa colocada na porta.

 

Escolhi dois objetos e me dirigi ao Caixa. Lá chegando, esperei a atendente digitar os valores e percebeu que os preços exigidos vieram “cheios”, e não com o desconto prometido. Diante do possível lapso da funcionária, fiz menção ao desconto anunciado:

 

- Parece-me que não foi computado o desconto de 50% – disse-lhe.

 

De pronto, a Caixa respondeu-me:

 

- Não, senhor. Estas mercadorias não recebem o desconto. Apenas aquelas que estiverem com a etiqueta vermelha!

 

- “Etiqueta vermelha”?! – indaguei-lhe.

 

- Sim, apenas os produtos com tal etiqueta receberão o desconto de 50%!

 

Diante da situação embaraçosa, tentei demonstrar o porquê de minha indignação e, sobretudo, entender a intenção daquele estabelecimento com a faixa a todos estampada.

 

- Segundo a faixa que está lá fora, toda a loja terá 50% de desconto – expliquei-lhe. Não se mencionou que há mercadorias com desconto e outras sem desconto...

 

Curiosamente, a atendente, com certa arrogância, discordou:

 

- O senhor não entendeu bem o que está escrito na faixa! Queremos dizer que em todas as lojas de nossa rede há mercadorias com desconto. Por isso, escrevemos “Toda a loja com 50% de desconto”.

 

Procurei controlar-me e, mais uma vez, em tom cordial, tentei explicar a impropriedade na faixa:

 

- Minha amiga, entendi bem o que está escrito na faixa. Talvez a loja é que não tenha compreendido bem aquilo que pretendeu escrever... Quando se diz que “TODA A loja está com 50% de desconto”, quer-se mencionar que todos os produtos da loja estão mais baratos, contendo o desconto mencionado.

 

A atendente olhava-me com bastante desconfiança, mas ainda não estava disposta a concordar:

 

- Pelo jeito, o senhor está querendo insinuar que não respeitamos os consumidores em nossa loja! Aqui se respeita o Direito do Consumidor!

 

Sem me exaltar, continuei tentando esclarecer:

 

- De modo algum. Não estou insinuando isso! Acho que estamos diante de uma dúvida de português e, se quiser, posso orientá-la.

 

Como eu me mostrava “desarmado”, a atendente não encontrou espaço para extravasar seu inconformismo e resolveu, finalmente, dar-me ouvidos.

 

- Já que o senhor conhece, pode explicar, então! – disse-me.

 

- Veja, minha amiga, se a loja pretende anunciar que todos os estabelecimentos da rede estão dispostos a dar um desconto de 50% em produtos, deve reproduzir a ideia da seguinte forma: “TODA LOJA com 50% de desconto”. Note que não utilizo o artigo definido depois do pronome indefinido “toda”. Assim, “toda loja” significará “qualquer loja”.

 

E prossegui na explicação, notando que já contava com uma pequena plateia interessada – é que a atendente já tinha solicitado a presença da supervisora e da gerente para reforçarem “a bancada da oposição”.

 

- Por outro lado – disse-lhe –, se há a intenção em dizer que todos os produtos da loja estão com 50% de desconto, deve-se divulgar a seguinte informação: “TODA A LOJA com 50% de desconto”. Note que utilizo o artigo definido depois do pronome indefinido “toda”, criando a formação “toda a”. Assim, “toda a loja” significará “a loja inteira”.

 

Nessa altura da discussão, a dúvida já estava desaparecendo. A supervisora, que havia chegado há pouco, interveio no acalorado debate e deu sua opinião:

 

- É verdade! Pelo que noto, acho que cometemos, sim, um equívoco. De fato, pela explicação que o senhor gentilmente nos dá, deveríamos ter escrito de outra forma lá fora, suprimindo a palavrinha “a”, depois de “toda”. Em vez de “toda a loja”, deveríamos ter anunciado “toda loja”.

 

Confirmei, de pronto, sua conclusão.

 

- É verdade! Havendo o artigo, o pronome dará sempre o sentido de "inteiro" ("toda a semana" equivale a "a semana inteira"); sem o artigo, o pronome reveste-se da sua condição de palavra com alcance indefinido ("toda semana" equivale a "todas as semanas", "uma semana após a outra").

 

E complementei:

 

- Trata-se de um equívoco comum. Aliás, quem escreveu a faixa não deve se sentir mal. A norma gramatical é estranha, mesmo! Veja que quando escrevemos “todo homem”, querendo dizer, portanto, “qualquer homem”, o singular passa a valer pelo plural, pela totalidade, daí a estranheza para quem enfrenta tal encruzilhada linguística. Portanto: se alguém quer falar que trabalha diariamente, dirá que labuta “todo dia”; porém, se quer afirmar que trabalha o dia inteiro, anunciará que labuta “todo o dia”.

 

A gerente, que também já se mostrava convencida, acabou enriquecendo a conversa, em tom jocoso:

 

- Puxa! Coincidência! Há poucos dias, minha filha questionou-me se deveria falar “todo mundo” ou “todo o mundo” e, pela minha resposta, não sei se me saí bem. Como deveria ter dito? – indagou-me.

 

Como o “clima” estava bem melhor, e todos pareciam ter-se acalmado, senti-me à vontade para esclarecer a “mãe desesperada”:

 

- A expressão “todo mundo”, bastante utilizada na linguagem coloquial, desperta muitas dúvidas. Desde já, posso lhe assegurar que as duas formas – “todo mundo” (mais comum ao falante) e “todo o mundo” (com maior rigor gramatical) – são aceitáveis, quando queremos nos referir ao “mundo inteiro”, ou seja, em sentido figurado, a “todas as pessoas”. A meu ver, entretanto, a forma ideal será aquela com a presença do artigo definido. Assim, sugiro que ensine para sua filha que a expressão “todo o mundo” é melhor do que a forma “todo mundo”, ainda que ambas sejam aceitáveis.

 

Nesse momento, a atendente houve por bem intervir, já em tom pacificador:

 

- Peço desculpas ao senhor. Parece que o “português” pegou todo o mundo daqui da loja. Com todo o respeito, perdoe-me....

 

Aceitei as desculpas, sem problemas, mas não pude perder o “gancho”:

 

- Não se preocupe! Pelo que acaba de me dizer, percebo que aprendeu muito bem a matéria... Disse-me que “(...) o ‘português’ pegou TODO O mundo (...)”, e me pede perdão “(...) com TODO O respeito (...)”. Expressou-se muito bem! Parabéns! De fato, quis mencionar todas as pessoas da loja (daí a expressão “TODO O mundo”) e fez menção a um substantivo abstrato, mostrando-o que ele é pleno e completo (daí a expressão “TODO O respeito”).

 

- Obrigada – disse a atendente. Gosto de aprender as coisas e vi que o senhor me convenceu.

 

A gerente da loja, percebendo que tudo havia se resolvido, prometeu-me a tomada de providências:

 

- Tiraremos, agora, a faixa lá de fora! Iremos substituí-la, divulgando a outra frase “Toda loja com 50% de desconto”, já que queremos nos referir ao desconto dado em qualquer loja da Rede, e não a todos os produtos desta loja.

 

E, em conformidade com os melhores princípios de justiça, a graduada funcionária arrematou:

 

- Como o senhor nos ajudou (e muito!), deve levar os seus produtos com o desconto de 50%!

 

Senti-me satisfeito e não recusei a oferta. Por outro lado, embora acredite na importância de se conhecer bem as encruzilhadas da língua, não imaginava que tal episódio comigo pudesse acontecer, repercutindo tão incisivamente em meu dia a dia.

 

Pegando os pacotes, despedi-me das funcionárias. Uma delas, todavia, deixou escapar:

 

- Muito obrigada, senhor. Quando houver a próxima liquidação, avisaremos.

 

Quase chegando à porta da loja, aproveitei para gracejar:

 

- É melhor me avisarem quando houver a próxima “colocação”...de faixa!

 

Todos riram, e a atendente voltou a atenção para toda a fila que se formara. A propósito, TODA A fila, ou ainda restam dúvidas?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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