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Crônicas Forense A LÁPIDE

01/09/2008 por Roberto Delmanto

O velho advogado criminalista possuía uma clientela modesta, mas numerosa.

 

Trabalhador incansável, honesto e competente, tinha duas características marcantes.

 

A primeira era a de levar os familiares do cliente preso até o Cartório em que o processo corria, para que estes pudessem saber in loco a real situação do acusado e as providências que ele, como defensor, estava tomando.

 

A segunda era o bom humor, que não perdia mesmo nas situações mais trágicas e difíceis.

 

A certo adolescente acompanhara desde a primeira internação na FEBEM, por um pequeno furto; representou-o, mais tarde, na segunda e na terceira vezes em que ele retornou àquela instituição pelo mesmo delito, pois a pobre mãe do jovem só confiava na sua pessoa.

 

Também foi seu advogado quando, já com mais de dezoito anos, o rapaz se envolveu em um assalto com arma de brinquedo, à época considerado roubo qualificado, logrando absolvê-lo por falta de provas.

 

Depois, por um bom tempo não teve notícias do cliente.

 

Foi quando, em determinado dia, a genitora do mesmo reapareceu em seu escritório.

 

Soube, então, que há alguns meses o moço morrera atropelado.

 

Desta vez, a mãe não precisava, portanto, de seus serviços profissionais.

 

Pedia-lhe um outro favor. Mandara fazer uma lápide para colocar no túmulo do filho e gostaria que o advogado, que o conhecera tão bem, sugerisse algo para nela ser inscrita. Afinal, ele escrevia e falava tão bonito...

 

O antigo causídico pensou por um momento, pegou um pequeno pedaço de papel e escreveu alguma coisa, devolvendo-o à velha senhora.

 

Esta, depois de lê-lo, agradeceu-lhe comovida e guardou-o com cuidado em sua bolsa.

 

Já no ponto de ônibus, enquanto aguardava o coletivo para retornar à sua casa, resolveu ler de novo o papel que lhe fôra dado e, em sua simploriedade, se sentiu consolada.

 

Nele estava escrito: "Fulano de tal. Viveu como réu, morreu como vítima"...

 

 

 

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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