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Língua Portuguesa A imaginação e o rigor gramatical

03/01/2017 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Há erros que se cristalizam no dia a dia da comunicação oral. Isso se evidencia em coletividades que utilizam idiomas complexos, como o nosso, a par das demais nações lusófonas.

 

É comum a indicação da ocorrência de festas "beneficientes". Trata-se de um evento inexistente. A razão? A festa só poderá ser beneficente. A beneficência ou filantropia é a atividade caritativa ou que traz benefício. A pronúncia equivocada, certamente, não trará nenhum. Faz-se mister ajudar quem necessita... e por que não o fazer com gramaticalidade?

 

Em outro giro, quando se quer dar um tratamento vago e indeterminado, referindo-se a outrem, usa-se a forma estereotipada "fulano, beltrano e ...". Com efeito, parece-nos que faltou a terceira referência, não é mesmo? Digamos que o suspense é propositado. A razão? Fala-se e grafa-se com imprecisão o termo omitido. Assimilemos: fulano, beltrano e sicrano – esta última com -s e sílaba -cra (e não "-cla"). Não há dúvida que a sonoridade da forma correta é estranha. Todavia, não se trata de boa ou má sonoridade, mas de correção ortográfica, e dela não podemos prescindir.

 

É sabido que as palavras têm força demasiada. Assemelham-se ao pássaro que foge da gaiola, não retornando mais ao local de onde partiu. Há de haver cautela na anunciação dos termos. Nesse passo, tem-se ouvido a expressão "no que pertine...". Muita calma! Trata-se de menção a verbo inexistente em nosso léxico. Encontram-se, sim, dicionarizados os termos pertinente e pertinência, porém o verbo não foi previsto no plano da lexicalidade. Assim, seu uso deriva da imaginação. Deve-se evitar a forma, substituindo-a por "no que concerne...", "no que tange..." ou, ainda, "no que se refere...".

 

O eminente lexicógrafo Houaiss define barbarismo como o "uso sistemático de formas vocabulares inexistentes na norma culta da língua, por parte de falantes que não a dominam inteiramente". Os exemplos citados enquadram-se no conceito descrito, a par da imaginada locução "a grosso modo". A imaginação está no fato de que se trata de expressão latina que repele a preposição -a. Portanto, deve-se grafar apenas grosso modo. Ademais, por ser latim, a locução deve ser escrita entre aspas, em itálico ou com qualquer destaque indicador de tal circunstância. Portanto, grafe sempre grosso modo, e não "a grosso modo". Não esqueça também que a pronúncia é peculiar do latim – diz-se grosso (gró) modo (mó), e não com o timbre fechado. Soa estranho? Nem tanto... todavia, se não a aprovou, utilize os sinônimos, em português, "aproximadamente", "sumariamente", entre outros. Podemos usar e abusar da prodigalidade léxica de nosso vasto idioma.

 

Por fim, observe a forma precisa: aficionado. O adjetivo deve ser assim grafado e pronunciado. Não existe a forma "aficcionado", com dois "cês". Quem é entusiasta ou nutre simpatia por algo é um aficionado e ponto final. Talvez o dislate derive da equivocada correlação com o termo "ficção", porém não há similitude entre as formas.

 

Com efeito, os equívocos mencionados são curiosos. Não menos intrigante é a disseminação deles no falar diário. Situações há em que a forma correta – por ser tão rara diante do uso iterativo da expressão condenável –, pode causar estranheza e ser tida como inválida.

 

Os ingleses têm uma emblemática máxima: "A imaginação é a inteligência se divertindo". De fato, não há nada mais fértil que nosso poder de criar, de imaginar. Entretanto, a comunicação deve se dar com a gramaticalidade imposta pelas normas cultas. A inteligência pode “se divertir”, porém a "diversão" não pode se traduzir em oposição... ao rigor gramatical.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

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