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Língua Portuguesa A idiossincrasia do aprovado em concursos...

02/04/2007 por Eduardo de Moraes Sabbag

 Comunica-se, no dia-a-dia, com um pequeno número de vocábulos. Prestigia-se o trivial; menospreza-se o sofisticado. Usam-se, de modo recorrente, palavras óbvias para situações não menos previsíveis, sem o conhecimento das possibilidades léxicas multifacetadas que nosso riquíssimo idioma pode ofertar.

 

A quantidade de vocábulos comuns se apequena, se levarmos em conta o número de palavras existentes em nosso idioma: 344.440 (trezentas e quarenta e quatro mil quatrocentas e quarenta) palavras, segundo o VOLP - o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, atualizado pela Academia Brasileira de Letras em 2004.

 

Como fazer para ampliar o conhecimento das palavras? A resposta é elementar: ao encontrar um termo de difícil significado, procure o sentido no dicionário e, se possível, escreva o que aprendeu, a fim de que se perpetue o resultado daquele sublime momento investigativo.

 

Costumo dizer em minhas aulas que o dicionário, quando consultado, "premia" o interessado, pois lhe apresenta um mundo vasto, repleto de sentidos, pelo caminho das palavras. O "visto" pra essa viagem depende de requisitos simples: "curiosidade" e "obstinação". A primeira é a "mola" que impulsiona o usuário da língua a querer saber mais; a segunda é a característica daquele que não sucumbe diante da palavra complicada. Aliás, o "obstinado" não substitui, comodamente, o termo esotérico, como o fazem os "substituístas" - denominação jocosa de que me valho para indicar os que, despidos de curiosidade, preferem substituir a palavra "hermética" a procurar o seu sentido no dicionário.

 

A propósito do conhecimento vocabular, as provas de concursos públicos têm solicitado o tema. Em exame para o ingresso na carreira do Ministério Público do Rio Grande do Sul, deparou o concursando com os seguintes vocábulos: OPIMO e ESTALIDO.

O termo opimo (paroxítona não acentuada, com sílaba tônica em -pi) significa "rico" ou "abundante". Diz-se "alma opima" ou "terra opima".

O vocábulo estalido (paroxítona não acentuada, com sílaba tônica em -li) significa "barulho" ou "som". Pode-se, por exemplo, ouvir um "estalido de fogos de artifício".

 

Igualmente, em concurso realizado pela ESAF - Escola de Administração Fazendária -, para ingresso na Receita Federal, o candidato foi instado a traduzir os vocábulos: DIATRIBE, ANÁTEMA e NOVEL.

Procedendo à tradução, ter-se-á: diatribe é o "discurso em que se ataca alguém" ou uma "discussão exaltada". Fala-se, no caso, em uma "diatribe acirrada entre os oponentes". Note que se trata de substantivo feminino: a diatribe (sílaba tônica em -tri).

Anátema, por sua vez, é a "repreensão enérgica". Diz-se, por exemplo, que "o chicote era o anátema da sociedade colonial".

Por fim, novel (oxítona não acentuada, com sílaba tônica em -vel) significa "novo" ou "principiante". Tem-se, por exemplo: "o homem é jovem e, igualmente, novel na fé".

 

Há poucos meses, em 2006, em extensa prova de português aplicada no concurso para o cargo de Delegado de Polícia Civil, também do Rio Grande do Sul, exigiu-se o conhecimento do vocábulo IDIOSSINCRASIA. A respeitável Banca trouxe a frase: "O comportamento evasivo era uma idiossincrasia daquele sujeito apontado como culpado". A alternativa correta foi a que sinalizava o termo "particularidade". Com efeito, "idiossincrasia", conforme explico em obra de minha autoria - Redação Forense e Elementos da Gramática, Editora Premier, 2ª Edição, p. 459 -, é "a característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa".

 

Não há dúvida: para passar nos concursos, dominando-se o léxico, há de haver curiosidade e obstinação. É a inafastável idiossincrasia de quem encontra o nome na lista de aprovados...

Comentários

  • lito
    12/01/2014 13:07:07

    Excelente! Que domínio! Quem me dera ter essa habilidade e clareza. Parabéns, Eduardo Sabbag.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

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