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LÍNGUA PORTUGUESA A gramática feminina

04/03/2013 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Prof. Eduardo Sabbag elabora um poema em homenagem à mulher, por ele carinhosamente rotulada de “gênero inclassificável”. Nos versos, o Professor faz curiosas associações do vocábulo “mulher” com elementos gramaticais, cujos desdobramentos podem ser conferidos nas notas de rodapé.

Mulher: dissílaba(1), na classificação;

Oxítona(2), na acentuação.

Substantivo comum e concreto(3), na gramática;

Perante todos, um ser “concretamente incomum”.

Do gênero feminino, como substantivo(4), a mulher faz parte;

Como ser privilegiado, “faz o gênero” que quiser...

Mulher: gênero inclassificável(5)!

Mulher: uma palavra sem a força do acento gráfico(6),

Mas que soa forte como o “sim” e o “não” de uma mulher.

Se é dito “eu amo mulher” – o cacófato(7); se é escrito “mulher docílima” – o superlativo na expressão(8);

Aos prisioneiros de seus encantos, a paráfrase de Caetano adverte: “dulcíssima prisão”(9).

Mulher não é verbo;

Se o fosse, de conjugação única, sê-lo-ia... e no tempo verbal “mais-que-perfeito”!

Com efeito, na gramática ou fora dela;

A mulher é a tampa da panela.

Mulher: gênero inclassificável!

Mulher: uma palavra com seis distintas letras;

A “alma de mulher”: seis preciosos sentidos...

“Mulher” se escreve assim, no singular;

Mas sempre se “lê”, no plural, “mulheres” – um ser multifacetado que é...

Se “da vida”, a meretriz; se “fatal”, a sedutora; se “com pudor”, o encanto;

Para os desavisados, leia-se: “Mulher não é sexo frágil, só se o quiser...”

Daí o seu poder, um “poder-fato”, e não um “poder-quiçá”, como o de muitos homens...

Mulher: gênero inclassificável!

Se “mulher-homem”, a opção;

A mulher sem homem, a falta de opção.

Mulher irascível: a TPM;

Enquanto, de um lado, há “TPM”, para a mulher; do outro, sobra “T”, para o homem (“T”, de tensão!).

Homem abandona mulher, “mulher-superação”;

Mulher abandona homem, “homem sem chão”.

Lugar de mulher, o homem quer decidir;

O homem sem a mulher, perdido sem lugar.

Mulher: gênero inclassificável!

Mulher “dona de casa”, o trabalho árduo;

Mulher dentro de casa, a organização.

Mulher companheira, bem mais que ele;

Mulher fiel, o presente dele.

Mulher casada, o compromisso;

Mulher solteira, a busca disso;

Mulher professora, com quem aprendemos.

Esposa mulher, com quem convivemos.

Mulher: gênero inclassificável!

Mulher se vestindo: para outra mulher;

Mulher no espelho: idem, idem.

Cabelos brancos, tinta;

Olhos e sobrancelhas, pinta.

Coisas de mulher, o segredo;

Traição de mulher, sem segredo.

Mulher: gênero inclassificável!

Mulher moderna, o trabalho;

Mulher no sábado, o salão.

Sonho de mulher, compras irrestritas;

Mulher sonhando, paixão à vista.

Lágrimas de mulher: o mistério;

Mulher em lágrimas: Delegacia da Mulher!

Mulher: gênero inclassificável!

Alma de mulher: Chico Buarque;

Mulher e atitude: Alcione.

“Eu gosto é de mulher”: Ultraje a Rigor;

“Perfume de mulher”: filme de rigor!...

“Mulher de Trinta”, no samba de Miltinho;

A maturidade, em Honoré de Balzac.

Mulher sereia, só dentro d`água;

Mulher “Amélia”: fora...de moda!

“Mulher honesta”, no Código Penal;

Mulher e “gravidezes”, o detalhe do plural(10).

Mulher: gênero inclassificável!

Mulher grávida, continuidade do amor;

Mulher mãe, o amor contínuo.

Mulher que “dá à luz gêmeos”: gramática em dia(11)!

Ser “mãe-mulher”: uma beleza indizível e, enquanto bela, pleonasmo”(12).

De tudo, uma notável certeza:

“Mãe-mulher”, de onde viemos;

“Mulher-terra”, pra onde iremos.

________________________________________

(1)   A palavra “mulher” é dissílaba, ou seja, composta por duas sílabas: mu-lher.

(2)   A palavra “mulher” é classificada como oxítona, ou seja, um vocábulo cuja sílaba tônica é a última, à semelhança de colher, mister, entre outros.

(3)   A palavra “mulher” é classificada como um substantivo comum, quando designa seres da mesma espécie (como menino, boi etc.), e como um substantivo concreto, quando designa seres de existência real (como mãe, pedra, leão etc.).

(4)   A palavra “mulher” é classificada como um substantivo feminino (a mulher), possuindo diferente radical da forma masculina (o homem).

(5)   O adjetivo “inclassificável” tem a acepção daquilo que não se pode classificar com clareza, no sentido de algo indizível. Este é o significado pretendido nos versos em epígrafe. Frise-se que o adjetivo é dicionarizado, estando previsto no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP 2009).

(6)   A palavra “mulher” não recebe o acento gráfico, mas apenas o acento prosódico (da fala), indicando que a maior tonicidade recai na última sílaba (-lher), o que a insere na classificação de oxítona (ver nota 2).

(7)   O cacófato (ou cacofonia) é um vício de linguagem que, em razão de uma dada sequência de sílabas, produz som desagradável ou de uso desaconselhável. Exemplos: “uma mão lava a outra” (som de “mamão”); “cinco cada um” (som de “cocada”) etc. No verso do poema, a frase “eu amo mulher” indica som que deve ser evitado.

(8)   Docílimo é um adjetivo (o superlativo absoluto sintético) de “dócil”. Portanto, algo muito dócil é docílimo.

(9)   Caetano Veloso lançou, em 1984, a célebre composição musical “O Quereres”, na qual retrata o paradoxo da relação amorosa, referindo-se ao amor pela pessoa amada como “dulcíssima prisão”.

O plural de “gravidez” é gravidezes.

(10)          A mulher dá à luz algo (gêmeos, trigêmeos, menino e menina etc.), e não “a algo”. Note que o verbo dar é transitivo direto e indireto. Assim, sintaticamente, a mãe dá gêmeos à luz, ou seja, despontam na oração o objeto direto (gêmeos, sem a preposição) e o objeto indireto (à luz, com a preposição). Há vitando equívoco na frase “a mulher deu à luz a gêmeos...”

(11)    O pleonasmo é figura de sintaxe caracterizada pelo emprego de palavras redundantes, com o fim de enfatizar a expressão (como “sorrir um sorriso”, “pedra dura” etc.). No verso, a expressão “mãe-mulher-bela” foi considerada propositadamente como um pleonasmo, no intuito de realçar a beleza feminina como algo intrinsecamente natural.

Comentários

  • Ana Paula Peixer
    31/03/2013 01:37:21

    Magnífico o poema... Sem palavras.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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