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CRÔNICAS FORENSES A Cozinheira

02/12/2009 por Roberto Delmanto


O amigo sempre fôra um gourmand, com especial predileção pela culinária francesa. Corretor de imóveis de sucesso, ele e a esposa viviam jantando em grandes restaurantes.

Certo dia, ambos me contaram que haviam arrumado uma cozinheira fantástica, senhora distinta de 50 e poucos anos, cuja filha, segundo ela, morava na França. Uma autêntica "chef", de modo que não mais saíam para jantar fora.

Após alguns meses de maravilhosas refeições para as quais eu não cheguei a ser convidado, ao voltarem de uma viagem de fim de semana, deram pela falta de todas as valiosas jóias que possuíam. Não existia qualquer sinal de arrombamento na casa e, além da cozinheira, só havia uma outra empregada, que, como diarista, servia à família há muitos anos. As suspeitas recaíram, assim, sobre a cozinheira.  

A pedido do casal, requeri a instauração de um inquérito policial para apurar a autoria do furto. Intimados, compareceram à Delegacia, o casal, a cozinheira e a diarista, acompanhados por mim.

Após ouvir informalmente as duas empregadas, o investigador encarregado do caso confirmou-me o que já sabíamos: a suspeita era mesmo a cozinheira.

Aí, me fez uma pergunta insólita, indagando se ela tinha algum problema cardíaco. Surpreso, perguntei-lhe porquê. Ele explicou-me, então, que a cozinheira iria passar a noite no Distrito Policial e pretendia aplicar-lhe alguns choques elétricos para obter uma confissão. Por isso, queria saber se seu coração era saudável, capaz de suportá-los.

Repudiei de imediato a possibilidade de tal hedionda prática e comuniquei ao casal de amigos o que estava ocorrendo.

Ambos, pessoas de bem, também não concordaram com a proposta do investigador e nos retiramos os cinco - eu, o casal, a cozinheira e a diarista - da Delegacia.

No dia seguinte, dizendo-se ultrajada pela suspeita dos patrões, a cozinheira se despediu do emprego. Nunca mais se ouviu falar dela, nem das jóias.

Passados alguns anos, a filha e o genro do casal sofreram um furto semelhante. A polícia, mais uma vez, não logrou identificar seu autor. Mas, entre os serviçais da casa, por coincidência ou não, estava a mesma diarista que continuava servindo à família...

 

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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