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Filosofia A atemporalidade dos ensinamentos de Maquiavel - Parte II

04/08/2014 por Luciene Félix

Finalizamos o artigo anterior insistindo que as pessoas são levadas pelas aparências, daí a importância de se aparentar possuir boas qualidades. Até aqui, parece-me que não mudamos muito desde o renascimento.

 

Maquiavel prossegue então, esclarecendo que, dentre as características que podem nos fazer desprezíveis constam: ser volúvel, leviano, pusilânime e irresoluto.

 

E dentre as qualidades admiradas, lista a grandeza, a coragem, gravidade e fortaleza, além da firmeza daqueles cujas sentenças são irrevogáveis, o que faz com que nem passe pela cabeça de alguém nos enganar.

 

Quem tem poder, sempre terá bons amigos. Castigos, reprimendas, enfim, imposição das penas, devem sempre ser delegada a terceiros, já das boas notícias, dos agraciamentos e demais benfeitorias, devemos nos encarregar pessoalmente.

 

Não convém que permitamos que alguém nos odeie, mas se isso for mesmo inevitável, que – ao menos – evitemos ser odiados pela maioria, pois uma boa reputação sempre nos defende. Fazer coisas vis, pouco dignas nos torna desprezíveis no conceito das pessoas e não há fortaleza que nos proteja disso.

 

Por isso é tão importante que se trabalhe no sentido de, em cada ação, conquistar fama de grande homem: “Nada faz estimar tanto um príncipe como os grandes empreendimentos e o dar de si raros exemplos”, diz Maquiavel.

 

Diz ainda que é estimado quem sabe ser verdadeiro amigo e verdadeiro inimigo: “(...) isto é, quando, sem qualquer preocupação, age abertamente em favor de alguém contra um terceiro”. E comprova, por A+B que tomar partido será sempre mais útil do que conservar-se neutro.

 

A tibieza (ficar em cima do muro) deve ser evitada porque, segundo ele, “se dois poderosos vizinhos teus se puserem a brigar, ou são de qualidade que, vencendo um deles, tenhas que temer o vencedor ou não”.

 

Salienta que em qualquer caso será sempre mais útil tomar partido e fazer guerra de fato porque, se não estivermos ao lado de quem vencer, seremos sempre presa dele, do vencedor. E, detalhe: com grande prazer por parte do derrotado, já que optamos por nos abster: “E não tens razão nem coisa alguma em tua defesa nem quem te acolha”.

 

Por outro lado, quem vence não quer amigos suspeitos, que não ajudem nas adversidades. E assim, numa polêmica, o “mosca morta” que não se decide sobre qual parte apoiar não poderá contar nem com quem venceu nem com quem perdeu.

 

Perspicaz, Maquiavel aponta que aquele que não é teu amigo pedirá que sejas neutro e aquele que é teu amigo pedirá que tomes partido abertamente: “E os príncipes irresolutos, para se afastarem destes perigos, seguem, as mais das vezes, aquela linha neutra, e quase sempre são mal sucedidos”. É interessante como essa teoria pode ser confirmada até mesmo nos mais prosaicos e ordinários conflitos familiares ou empresariais.

 

Quando tomamos coragem e nos colocamos abertamente ao lado de um dos que estiverem em conflito, se aquele ao qual aderimos vencer, ainda que seja poderoso ele terá obrigações para conosco e será compelido a nos devotar amizade: “e os homens não são nunca tão maus que queiram oprimir a quem devem ser gratos”.

 

Por outro lado, Maquiavel afirma que se aquele a quem ajudamos perder a questão, ele nos socorrerá quando puder, e, nesse caso, ficaremos ligados a uma fortuna que pode ressurgir: “A prudência está justamente em saber conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo bom”.

 

Reiterando que um príncipe deve mostrar-se amante das virtudes e honrar os que se revelam grandes numa arte qualquer. Deve também, nas épocas apropriadas, proporcionar festas e espetáculos ao povo, além de dar provas de afabilidade e munificência, mantendo sempre integral, contudo, a majestade da sua dignidade, a qual não deve faltar em nada.

 

Sobre aqueles que elegemos para participar de nossa vida, o Fiorentino diz ser de grande importância saber escolher, pois “A primeira conjetura que se faz, a respeito das qualidades de inteligência de um príncipe, repousa na observação dos homens que ele tem ao seu redor”. Eis sua releitura do famoso “Diz-me com quem andas...”.

 

Evita-se o erro na escolha – seja do cônjuge, dos funcionários ou dos amigos – ao saber reconhecer as qualidades de competência e fidelidade. Isso é ser sábio.

 

O autor deve ter presenciado tantas, mas tantas intrigas que insiste em salientar inúmeras vezes, o quão é importante que não confiemos em ninguém: “Não desejarias cair só por creres que encontrarias quem te levantasse. Isso ou não acontece, ou, se acontecer, não te dará segurança, porque é fraco meio de defesa o que não depende de ti”, ressaltando que só são bons, certos e duradouros os meios de defesa que dependem de nós mesmos e do nosso valor.

 

Maquiavel reconhece que muitas pessoas comungam da opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de modo que a prudência dos homens não pode corrigi-las e que, por isso, poderíamos achar ser desnecessário nos incomodarmos, deixando que a sorte nos governe.

 

Afirma pensar que a fortuna seja mesmo árbitra de metade de nossas ações, mas que, no entanto, ainda assim, ela, a fortuna, nos deixa governar quase a outra metade. Comparando a fortuna (o acaso, a sorte) a um rio impetuoso que quando se encoleriza alaga e destrói tudo, chama a atenção para o fato de que, quando as coisas se acalmam, os homens podem sim, fazer os reparos necessários, precaverem-se para os reveses.

 

É assim que acontece com a fortuna, diz ele: “O seu poder é manifesto onde não existe resistência organizada, dirigindo ela a sua violência só para onde não se fizeram diques e reparos para contê-la”.

 

Não é raro testemunharmos o sucesso e a ruína de muitos, mesmo que não tenha havido mudança na sua natureza, nem em algumas das suas qualidades. A razão disso é: “que quando um príncipe se apoia totalmente na fortuna, arruína-se segundo as variações daquela”.

 

Apropriado é, segundo Maquiavel, combinar o modo de proceder com as particularidades dos tempos, e “infeliz o que faz discordar dos tempos a sua maneira de proceder”. Adequação é a palavra-chave, nesses casos.

 

Na busca por glória e riquezas, os homens costumam proceder de modos diversos: uns são circunspectos, outros impetuosos; Uns agem com violência, outros com astúcia, paciência e, cada um, por estes diversos modos pode alcançar seus objetivos: “Vê-se que, de dois indivíduos cautelosos, um chega ao seu desígnio e outro não, e do mesmo modo, dois igualmente felizes, com dois modos diversos de agir, são um circunspecto e outro impetuoso, o que resulta apenas da natureza particular da época, e com a qual se conforma ou não o seu procedimento”. Ele alerta que quando os tempos mudam, quem não altera seu modo de proceder, se arruína.

 

Quando a fortuna se altera – e a única certeza, como já disse Heráclito, é a mudança –, convém alterarmos também nosso modo de agir, adequando-o conforme as exigências das novas circunstâncias. Ajustemos o leme. Constantemente.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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