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FILOSOFIA A Amizade: em Aristóteles e em tempos de Internet

02/03/2011 por Luciene Félix

Tão antigo quanto o homem, o sentimento de amizade sincera é uma das experiências mais nobilitantes, gratificantes e prazerosas que podemos desfrutar. Embora, ao longo da vida, amealhemos muitos amigos (de infância, faculdade, de balada, no trabalho, no jogo, na web etc.), uma amizade sincera e verdadeira, assim como o Amor, requer confiança, intimidade e constância que não coaduna com quantidade.

Se antes, diante da lembrança de um amigo, podíamos precisar até a gradação de importância em nossas vidas (foi excepcional ou razoavelmente meu amigo em tal época), nos atuais tempos virtuais (sites, blogs, redes sociais, sms, etc.) o conceito de amizade revela-se amplamente dilatado e volúvel como nunca. Mas...

O que é um amigo? Como se inicia uma amizade? O que buscamos e o que as amizades nos proporcionam? O que é necessário à manutenção da amizade? Com quantos amigos fiéis podemos contar [e igualmente, podem contar conosco]? O que possibilita a amizade entre pessoas aparentemente desiguais [em poder, riqueza ou erudição]? Quando convém romper uma amizade?

O filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) também se deteve a essas questões. A amizade, diz, além de ser um sentimento extremamente necessário à vida é também uma forma de excelência moral.

Ele afirma que uma disposição amistosa é a mais autêntica forma de justiça, chamando a atenção para o fato de que "quando as pessoas são amigas não tem necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas elas necessitam da amizade".

Espelho que ajuda a tornarmo-nos melhores, dentre as dádivas de se ter amigos, cita a proteção na pobreza e noutros infortúnios, no quanto orienta os jovens a evitar os erros e ampara aos idosos, ressaltando que com amigos, pensamos e agimos melhor.

Amigo é semelhante, outro "eu" e uma amizade tem início com a manifestação de uma boa intenção natural diante de pessoas que nunca vimos, mas que julgamos boas ou prestativas. Havendo reciprocidade, estarão estabelecidos os pressupostos de uma amizade.

Somente a amizade segundo a virtude é perfeita, mas por não existir somente um único tipo  de amizade, pessoas más também podem ser "amigas". De outras pessoas más, de pessoas boas e até mesmo daquelas que não são nem uma coisa nem outra.

O "Pai da lógica" explica que dentre as coisas que merecem ser amadas estão "o que é bom, ou agradável, ou útil". Analogamente, Aristóteles afirma que uma afeição recíproca pode basear-se numa ou todas essas três qualidades: amor, prazer e interesse. Sendo assim, as pessoas amam o que parece bom, agradável ou, no caso do mero interesse, o útil.

Assim como um Amor pode ter início por simples prazer e evoluir para uma plenitude mais intensa e profunda, o sentimento de amizade também se altera ao longo da convivência.

Útil é aquilo do que resulta n"e;algum bem ou prazer e, embora somente o bom e o agradável mereçam ser amados como fins [em si mesmo], são devido ao "útil" e ao "prazeroso" que nosso círculo de amizades se torna cada vez maior (a web promove essa elasticidade).

Nominamos "amigos" meros conhecidos. Nas amizades por prazer, não é pelo bom caráter que gostamos das pessoas espirituosas - sequer as conhecemos tanto - mas porque são aprazíveis: "as pessoas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável, e não porque a outra pessoa é a pessoa que amam, mas porque ela é útil ou agradável."

Fazemos amizades num clique. Mas amizades desse tipo são apenas "acidentais": "um desejo de amizade pode manifestar-se instantaneamente, mas a amizade não pode", diz o estagirita. Tais "e;amizades"e; se desfazem facilmente, pois se as pessoas não permanecem como no início (úteis para os interesseiros ou agradáveis para os que buscam prazer), a amizade arrefece e por fim, acaba porque a utilidade não é uma qualidade permanente. Prazeres e interesses mudam.

Amizades por interesse cessam tão logo o proveito acabe. Não havia estima sincera, mas empenho em se aproveitar: "as pessoas que amam as outras por interesse amam por causa do que é bom para si mesmas" diz Aristóteles. Cultivar amizades exclusivamente por interesse é para pessoas mercenárias, narcisistas e egoístas, que só visam extrair proveito próprio.

Devido à possibilidade de se desfrutar prazeres e interesses comuns é que pode haver amizade entre pessoas dessemelhantes, inclusive más: "(...) pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenha algum proveito recíproco" alerta. Digite "Muamar Gaddafi" no Google Imagens.

Amizades por interesse (tão ordinárias entre chefes de Estado) e por prazer (tão comum entre os jovens) podem ser muitas, pois são igualmente inúmeras as pessoas agradáveis e/ou úteis: "e os benefícios que elas propiciam podem ser fruídos dentro de pouco tempo".

Sentir prazer na "com-vivência" é uma das características mais marcantes duma amizade. Além de agirem de modo parecido, pessoas boas também são reciprocamente úteis, agradáveis e prazerosas, ou seja, reúnem em si todas as qualidades que os amigos devem ter. Não necessariamente excludentes, bondade, dom de agradar e certa utilidade quando "se manifesta com vistas a objetivos nobilitantes" também se fazem presentes nas amizades deste naipe.

Amizades entre semelhantes em termos de excelência moral resistem à distância, ao tempo, às fofocas e calúnias: perduram. Porque bom caráter é algo duradouro. Mas, assim como não há como amar várias pessoas ao mesmo tempo, não há como ser amigo de muitos: "ambas as partes devem adquirir experiência recíproca e tornar-se íntimas, e isto é muito difícil", diz Aristóteles.

Nas amizades fundadas no amor e na admiração mútua, amigos rejubilam-se pelo sucesso do outro, vivenciam a alegria como se fosse própria (synkhairía - antônimo de inveja). Indignam-se caso o amigo seja alvo de injustiça.

Indivíduos de tal alma são poucos e é natural que uma amizade assim seja rara. Requer tempo e intimidade para que se possa demonstrar que são dignas da amizade, para conquistar "o sentimento de que uma nunca fará mal à outra", isto é, confiança!

Pessoas de mau caráter, amarguradas e indelicadas não parecem propensas a amizades e é provável que se ressintam da falta de verdadeiros amigos: "(...) ninguém pode passar seus dias com pessoas cuja companhia é constrangedora ou não é agradável, já que a natureza parece evitar mais que tudo o penoso e buscar o agradável", diz o Filósofo. Sendo assim, deve-se romper uma amizade quando uma das partes se distancia excessivamente da outra.

Democrática par excellence, amizade verdadeira dá-se entre os que se assemelham e, pressupondo igualdade em termos de virtudes éticas, por mais díspares que possam parecer é acalentada entre ricos e pobres, eruditos e ignorantes, jovens e idosos, corintianos, são paulinos e palmeirenses. Somente os iguais em excelência moral compartilham de uma amizade perfeita.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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