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Medida de Segurança A administração do dinheiro

02/03/2016 por Antonio José Eça

Andando um pouco por outras áreas do Direito e sua interface com a psiquiatria, vamos discutir um tema muito ligado ao Direito de Família; é assim que perguntamos se alguém poderia tentar dizer se existe palavra mais dispensável do que o “dinheiro”’ na nossa vida? Como é complicado lidar com isto! E como é complicado, pior ainda, quando ele (o dinheiro) se mete no meio da relação entre as pessoas, principalmente se a “pessoas” da história, é um casal.

 

É muito comum, se ouvir alguns maridos falando coisas do tipo: “isto é tudo só meu, fui eu que trabalhei”, ao que de vez em quando, algumas esposas falam em um “contra-coro” do tipo: “dele eu não quero nada!”.

 

Bom, o que pensamos, e tentamos passar para as pessoas, é mais ou menos o seguinte (apesar de saber que nem todos vão concordar):

 

Quando os dois pombinhos se casaram (com uma mão na frente e outra atrás, na maioria das vezes), repartiam até o refrigerante e o sanduíche de mortadela que comiam na padaria da esquina; estavam os dois começando a vida, e as vezes até, porque ele estudava ou algo do gênero, ela até arcava com as contas. Até aí, ia tudo bem, ela podia arcar com as contas, porque trabalhava e não tinha mais nenhuma atividade a desenvolver.

 

Mas, de repente aparece um filho, e então, que acontece? Evidentemente, ela é “obrigada” a começar a dividir o seu tempo, que antes era todo para o trabalho, e agora começou a ser também para o bebê.

 

Desta forma, pelo aspecto profissional, ela deve diminuir o seu ritmo de crescimento, já que outro “dever” a chamou; parece, é bem verdade, que as coisas começam a se modificar, já que atualmente as divisões estão mais igualitárias neste sentido; ainda não é o ideal, mas já está melhor e se vai ou não chegar à uma divisão de “meio a meio”, não se sabe. O que se sabe é que a sociedade (criada pelos homens, como foi) espera sempre que a mulher diminua o trabalho e se dedique mais aos filhos do que a profissão; o homem, nem pensar!

 

Mas isto é um outro aspecto do assunto, e estamos nos desviando do ponto central; talvez depois voltemos a falar desta “divisão” de tarefas.

 

Estamos no ponto em que os pombinhos arrulhavam e agora estavam com um filhote, e a mãe havia diminuído a atenção ao trabalho; o natural é que assim, ela corre muito mais o risco de parar no “tempo profissional”, enquanto ele continua deslanchando, sem contar com o fato de que o mercado de trabalho já descrimina normalmente a mulher, que acaba parando em um patamar qualquer, na maioria das vezes abaixo daquele que o um homem alcançaria.

 

O que acaba acontecendo? O óbvio, claro! Ele continua crescendo na profissão, ganhando mais dinheiro, ela dá uma parada, não pode pensar em subir mais ou rápido, (pois tem os filhos, a casa, enfim, a vida familiar para administrar) e a diferença entre ganhos começa a se “desbalancear”, a favor dele; em síntese: ele, “ganhador de dinheiro”, ela “cuidadora das coisas comuns”.

 

Se não fosse dela o encargo sobre as coisas comuns, teria ela muitas mais oportunidades de ter crescido e ganhado mais dinheiro! Mas como fazer para ficar num escritório o dia todo, se tem os filhos para despachar, a casa para arrumar, etc.?

 

Da mesma forma, pergunta-se: se não fosse ela para cuidar de tudo isto, como iria ele fazer para dar conta de tudo; será que ele conseguiria ter aquela baita reunião importante com os fornecedores, e tomar a lição do filho? será que dava para parar a discussão com o chefe para levar a filha no balé, ou buscar a outra filha na escola?

 

Por tudo isto e por todos os outros exemplos que cada um de nós tem na mente (e na vida), é que cabe perguntar: afinal, já que os nossos filhos estão sendo educados, a nossa casa está sendo organizada e tudo o mais, de quem é o ‘nosso’ dinheiro, só dele? Quem acredita nisto?

 

Só ele mesmo, se for muito egoísta, egocêntrico e prepotente, para não perceber o ridículo da situação; ou só ela, se for tão insegura, submissa e comandada pelo grande “senhor feudal”, que aliás, só continua a se portar desta maneira porque ela deixa e não faz por reconhecer seu próprio valor.

 

“Isto é tudo só meu, porque fui eu que trabalhei e ganhei”; foi, foi mesmo ele quem trabalhou e ganhou, mas só pôde fazer isto porque tinha alguém ‘segurando a barra’ do outro lado, e dando-lhe a condição necessária para a realização de tudo isto. Assim, perde o sentido esta postura de tudo só de um, já que a vida é dos dois.

 

É exatamente nesta altura das coisas que acaba aparecendo aquele tal “contra-coro” de algumas mulheres, do tipo “dele eu não quero nada” ou coisas do gênero.

 

Será muito pedir para que se pare para pensar o quão machista e burro é este pensamento? Claro, como “não quero nada”?

 

Na nossa maneira de ver isto, simplesmente “não dá” para não querer nada, pois tais coisas possuídas tiveram, como vimos, a participação dos dois para terem sido realizadas.

 

A mulher que ainda não mudou o pensamento, e acha que pode “não querer nada”, tem que considerar algumas coisas, a saber:

 

- “Não querer nada” é apenas endossar o tal do jogo machista de que “é tudo meu”; então, falar aquilo é estar exatamente fazendo o jogo que se quer combater; se é para não ter nenhum vínculo com aquele que foi até agora o machista e exclusivista do “é tudo meu”, então a primeira coisa é mostrar que não é tudo dele, porque ela teve uma participação muito importante em tudo aquilo.

 

- Sobre a desculpa de que “não quero nada para poder sair mais rápido possível de perto dele”, o começo da frase já se responde por si, ou seja, é desculpa.

 

Na realidade, de uma forma ou de outra, pode ser que ela esteja com esta desculpa por alguns motivos, com despeito, orgulho ferido, ou o que é pior, desagradada consigo mesma por ter ficado tanto tempo do lado de alguém assim.

 

- O terceiro grande motivo meio inconsciente do tal do “não quero nada”, parece-me o mais triste, e é aquele no qual ela acaba por “não querer nada” porque acha que não vai conseguir duelar com aquele “tão garboso cavaleiro”; ela, tão fraca, tão pobre de espírito, tão insegura, põe o “rabinho no meio das pernas” e bate em retirada, ou seja, foge porque não confia em sua capacidade, porque tem de si uma ideia de incapacidade que nunca parou para questionar de maneira adequada; senão, vejamos:

 

- Será, que se ela não tivesse tão ocupada com todos aqueles afazeres, não tinha conseguido crescer de uma maneira muito parecida com a dele?

 

- Será que se ele tivesse que fazer tudo o que ela faz, ele teria crescido tanto?

 

Ou ainda: Será que ele aguentava o volume de coisas, e responsabilidades?

 

A verdadeira resposta destas e de outras perguntas parecidas sobre as quais podemos estar pensando, podem nos deixar meio assustados, até porque nunca paramos para pensar desta maneira, e nunca paramos para considerar sobre a força que se pode ter, desde que se queira coloca-la a favor de nós mesmos.

 

Assim, a mulher que está preocupada com isto, que trate de ir buscar dentro de sí as forças que aí possui e que aprenda a lutar pelos seus direitos; acredite em você, porque se você não for a primeira a se respeitar, ninguém o fará por você e você continuará fugindo da vida tal como está tentando fugir do seu “príncipe encantado”, que virou “sapo”.

 

Pense nisto!

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ANTONIO JOSÉ EÇA

Antonio José Eça

Médico psiquiatra; Mestre em psicologia. Professor de psicopatologia forense, medicina legal e criminologia. Autor de Roteiro de Psiquiatria Forense, Editora Saraiva.

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