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Crônicas Forenses A Réplica

03/04/2006 por Roberto Delmanto

Ibrahim Nobre foi um dos maiores promotores que o Tribunal do Júri de São Paulo já teve, atuando na primeira metade do século passado. Em 1932 tornou-se o principal tribuno da Revolução Constitucionalista.

 

Homem alto, imponente e com vasta cabeleira, sua figura se destacava. Orador eloqüente e argumentador brilhante, raramente era derrotado nos julgamentos de que participava.

 

Alguns metros atrás da bancada da Promotoria, no plenário do antigo Tribunal do Júri paulistano, hoje Museu do Tribunal de Justiça, há uma porta incrustada no majestoso lambri que cobre as paredes do recinto, a qual dava acesso à sala secreta e outras dependências.

 

Pois bem: na medida em que ia encerrando sua fala, Ibrahim        - que sabia exatamente quantos passos medeavam entre sua bancada e a tal  porta -  ia andando para trás até que desaparecia através da mesma. O efeito, segundo os que o viram atuar, era impressionante...

 

Em um dos poucos casos que perdeu, acusava uma jovem que tentara matar a tiros o homem que a seduzira e depois a abandonara. Durante a oitiva das testemunhas, veio à tona uma cena pitoresca: a acusada, além de bonita, era de compleição atlética. Perseguida por dois policiais após os disparos, ela pulou com facilidade um muro alto, enquanto que os dois agentes da lei não conseguiram fazê-lo, embora um procurasse auxiliar o outro..

 

O cômico episódio contribuiu para que os jurados simpatizassem com a ré, que acabou sendo absolvida pela dirimente, que então existia, da perturbação total dos sentidos e da razão.

 

Mas como um dia é da caça e outro do caçador, houve muitos júris em que Ibrahim deu o troco... Após o tempo, hoje de duas horas, destinado à acusação, é dada a palavra à defesa pelo mesmo prazo. Após a fala desta, se o promotor achar necessário, poderá fazer uma réplica por meia hora, tendo o defensor, nesse caso, também meia hora para apresentar sua tréplica.

 

Naquele dia, o jovem e talentoso advogado de defesa se preparara como nunca para o julgamento, pois, pela primeira vez, iria enfrentar o lendário membro do M. Público. Quando apresentava sua defesa, o causídico notou que Ibrahim fazia diversas anotações em folhas de papel. Certo de que o Promotor estava se impressionando com sua argumentação e iria para a réplica, resolveu não usar um dos seus principais argumentos; o guardaria para a tréplica, surpreendendo seu famoso oponente...

 

Qual não foi a surpresa do novel advogado quando, após ter ele encerrado sua fala no tempo normal, o Juiz Presidente indagou a Ibrahim se iria para a réplica, ao que este, calmamente, respondeu que não, pois estava satisfeito com os debates.

 

A astúcia do experiente promotor superara a ousadia do inexperiente advogado, e o acusado foi condenado...

 

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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