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CONCURSOS Vale a pena fazer anotações de sala de aula na preparação para concursos públicos?

05/10/2010 por Rogerio Neiva

 

O presente texto tem por objetivo tentar refletir e analisar o papel e a eficiência da realização de anotações em sala de aula, no contexto do processo de preparação para concursos públicos, principalmente sob o ângulo do custo-benefício.

 

Primeiramente, vale pontuar que as nossas salas de aula dos cursos preparatórios para concursos públicos estão lotadas de "notebooks" e "netbooks". Ainda existem muitos cadernos, mas considero que estão diminuindo e perdendo espaço. Como professor, algumas vezes sinto até um certo desespero para que sejam dadas condições de realização das anotações, com repetição de conceitos e informações, bem como diminuição do ritmo do desenvolvimento das explicações objeto da aula.

 

Diante deste cenário, a pergunta que lanço à provocação é a seguinte: qual a eficiência desta atitude? O que é mais importante, a preocupação com a anotação ou a atenção com a informação colocada? O que será feito com suas anotações depois das aulas ou da conclusão do curso? A anotação é um fim em si mesmo, ou um meio, em termos de processo cognitivo, voltado à apropriação da informação passível de cobrança na prova?

 

Naturalmente que estas provocações acabam por ter uma pertinência maior nas aulas presenciais ou nos cursos satelitários. Nos cursos via web entendo que a dinâmica é outra e o processo precisa se encarado de maneira distinta, pois estes "timings" de compreensão e anotação estão sob o domínio do candidato, não dependendo do professor, o que tende a proporcionar maior liberdade para o aluno.

 

Mas avançando no raciocínio, registro desde já que não sou contra as anotações de sala de aula. Aliás, no âmbito do trabalho de orientação a candidatos a concursos públicos que desenvolvo, não sou contra nem a favor de nada. Minha intenção é apresentar possibilidades, caminhos e conceitos, voltados à otimização do processo de preparação, indicando vantagens e desvantagens, custos e benefícios de cada um destes, provocando  reflexões, fugindo das fórmulas mágicas e das soluções aparentemente fáceis. E procuro desempenhar este papel de modo consistente, a partir da pesquisa, dos estudos e da formulação teórica, associada ao empirismo da minha experiência de candidato e docente em cursos preparatórios para concursos públicos.

 

Assim, é preciso realizar uma reflexão sobre o tema da eficiência das anotações. Inclusive de modo a otimizar o processo de busca da aprovação no concurso público pretendido. 

 

Segundo o neuropsicólogo Vitor da Fonseca, a aprendizagem se desenvolve em 4 etapas. São elas:

1 - input: contato com a informação ou objeto de conhecimento;

2 - cognição: compreensão e processamento da informação;

3 - output: envolve alguma atividade cognitiva imediata com a informação, como falar, discutir, escrever ou resolver um problema;

4 - retroalimentação: consiste na reiteração do contato posterior, o que está muito ligada à idéia da repetição.

 

Refletindo sobre as anotações de sala de aula a partir da referida construção, muitas vezes o candidato pode estar passando para a etapa 3 (output), na qual considero estar inserida a realização das anotações, sem passar pela etapa 2 (cognição). Seria eficiente? Talvez sim, talvez não. Admitindo a possibilidade de que não seja tão eficiente, não teria sido mais adequado abrir mão das anotações, para efetivamente desenvolver a etapa 2 (cognição) de forma consistente?

 

No caso de passar para a etapa 3 (output), realizando anotações, sem passar pela etapa 2 (cognição), venho trabalhando com uma hipótese - a exigir mais estudos e avaliações, de modo a proporcionar a devida confirmação científica. A hipótese levantada é de que pode ser aplicada à situação um conceito muito importante, estabelecido no âmbito das ciências voltadas ao estudo da aprendizagem, desenvolvido por uma psicopedagoga argentina chamada Sara Paín. Trata-se da idéia da hipoassimilção que leva à hiperacomodação.

 

A referida construção parte de um outro conceito desenvolvido por Jean Piaget, um verdadeiro "Papa" dos estudos sobre o processo de aprender, segundo o qual a aprendizagem se dá por meio do que denomina de assimilação, que consiste na checagem comparativa do conhecimento novo com o já existente, seguida da acomodação, na qual compreendemos e efetivamente nos apropriamos da informação, a partir da checagem comparativa anterior. Segundo Sara Paín, pode ocorrer uma disfunção ou patologia neste processo, quando o aprendente não compreende o novo de forma adequada, passando a desenvolver uma apropriação intelectual precária, ou seja, sem o seu entendimento consistente. Trata-se do fenômeno da hipoassimilação (precária assimilação), o qual leva à hiperacomodação (acomodação valorizada). É o famoso "aprendi mas não entendi" ou "sei a informação mas não a entendo". Considero que exatamente isto pode ocorrer se o candidato ao concurso público faz anotações, mas não compreende adequadamente a informação anotada.

 

Por outro lado, outro aspecto a exigir reflexão sobre o tema das anotações de sala de aula consiste na situação na qual o candidato não executa a etapa 4 (retroalimentação). Ou seja, a questão é o que será feito com as anotações? Qual o sentido de promover anotações e deixar o caderno ou arquivo guardados e não voltar a estudar o que foi anotado?

 

Outro aspecto relevante consiste na definição do que será anotado. Isto é, o ideal seria anotar rigorosamente tudo o que o professor diz e da forma como diz? Ou devemos anotar apenas idéias centrais e colocações que traduzam o conceito, tal como geralmente ocorre com as técnicas de mapas mentais ou conceituais? E se anotar rigorosamente tudo que o professor colocar e, com isto, perder a continuidade das informações seguintes?

Como professor, sinto a dificuldade que todos os docentes passam ao tentar conciliar o dilema entre viabilizar as condições para que o aluno promova as anotações e a necessidade de avançar no conteúdo objeto da aula.

 

Portanto, é preciso tentar encontrar caminhos eficientes, que permitam a solução dos dilemas colocados.

 

Registro que as ponderações apresentadas contam com um caráter preliminar. Em breve estarei apresentando outras ponderações. Bons estudos e boas anotações!

 

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ROGERIO NEIVA

Rogerio Neiva

Juiz do Trabalho no DF. Professor e Autor do livro "Concursos Públicos e Exames Oficiais: Preparação Estratégica, Eficiente e Racional" (Editora Atlas), criador do sistema Tuctor (www.tuctor.com.br) rogerio@tuctor.com.br 

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